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"É como se tivesse um fragmento da União Soviética nos dias de hoje", declara Larissa Pereira, que visitou a cidade fantasma de Pripyat em 2018

33 anos após milhares de pessoas fugirem às pressas das cidades dos arredores da usina de Chernobyl, o movimento hoje é justamente o contrário. Graças ao sucesso da série da HBO, que mistura informações reais e fictícias para recontar o maior desastre nuclear da história, tem crescido o número de turistas que visitam a Ucrânia para  conhecer a cidade fantasma de Pripyat e outros locais - uma agência de turismo local disse à Reuters que a procura chegou a crescer 40% desde o lançamento de "Chernobyl".

Vista aérea de Pripyat com um prédio oficial da URSS em primeiro plano
Shutterstock
Viajar para a região onde fica a usina de Chernobyl é possível desde 2011

Mais turistas podem significar uma injeção de dinheiro na economia local, mas provocam também episódios desagradáveis, como visitantes que tiram selfies sorridentes ou, pior, até a roupa em um local marcado para sempre por tristeza e morte. Diretor da série da HBO, Craig Mazin pediu que o estrangeiro que  visitar a usina de Chernobyl  tenha "respeito".

Ainda que a série " Chernobyl " esteja bombando e a toda a aura que envolve um acidente nuclear e cidades abandonadas despertem a curiosidade alheia, muitos se perguntam: por que visitar um local com um passado tão trágico e cujo tour é extremamente restrito? 

Para ter essa resposta, o iG Turismo conversou com viajantes que estiveram na Zona de Exclusão de Chernobyl  em 2012 e 2018. Mas, antes, você pode conferir no infográfico abaixo o que é preciso para visitar o palco do desastre de 1986 e as principais regras do tour.

Visitar a usina de Chernobyl é como visitar as ruínas romanas

Interior de um prédio em Chernobyl com as camas ainda no lugar onde ficavam antes do acidente nuclear
Shutterstock
Para Larissa Pereira, do blog VIda Cigana, o mais impactante foi ver os apartamentos intocados

"Por mais que tenha acontecido um acidente ali, são ruínas também, assim como as ruínas romanas, as ruínas medievais. É como se tivesse um fragmento da União Soviética nos dias de hoje", afirma Larissa Pereira, do blog Vida Cigana.

Ela e o marido viajaram para lá em julho de 2018, e pagaram 99 euros (cerca de R$ 432 na cotação atual) pelo tour até o local do acidente nuclear de Chernobyl . A ideia de visitar a Zona de Exclusão surgiu quando os dios decidiram viajar pela Europa. Por isso, incluíram Kiev no roteiro e agendaram o passeio quando chegaram à capital ucraniana.

Segundo Larissa, o único imprevisto que eles enfrentaram durante a viagem foi antes de partirem para a usina de Chernobyl. No dia anterior ao agendado, a empresa entrou em contato avisando que o governo havia fechado a área. O passeio, então, foi adiado para a data seguinte. 

"Ou seja, se você estiver com os dias contados em Kiev, pode ser que algo assim aconteça e você não tenha outra opção a não ser receber o dinheiro de volta. Tem que agendar com antecedência e ter alguns dias de folga", alerta.

Mesmo com a frustração do reagendamento, o passeio ainda valeu cada centavo pago, conta Larissa. A parte mais marcante da viagem, para ela, foi entrar nos apartamentos abandonados às pressas pelos habitantes de Pripyat, cidade vizinha à usina.

Ela disse que ficar dentro dos apartamentos lhe deu, em uma palavra, uma sensação de fragilidade: "Você consegue imaginar a vida ali, você consegue se imaginar no apartamento". Isso porque boa parte deles, além de serem relativamente modernos, permaneceram intocados desde o acidente em 86 - o que significa que mobília, itens pessoais, de fogões a brinquedos, permanecem onde estavam quando a cidade foi evacuada.

Mas, apesar dessa sensação, Larissa afirma que recomendaria a qualquer um que tivesse interesse em visitar a região. "Eu acredito que seja uma das formas mais genuínas de refletir sobre a vida", finaliza.

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"O cenário ali é chocante"

Rua de Pripyat, cidade na Zona de Exclusão de Chernobyl, cercada de prédios abandonados
Shutterstock
Segundo Tiago Leme, a parte mais chocante do roteiro foi andar pelas ruas da Zona de Exclusão de Chernobyl

Tiago Leme, do blog Bora Viajar Agora, também esteve na Ucrânia, mas em 2012: "O que mais me marcou, sem dúvida, foi andar pelas ruas e construções de Pripyat. O cenário ali é chocante. Passei por prédios vazios com mobílias e objetos deixados para trás, bonecas e brinquedos de crianças pelo chão, pedaços de roupa".

Ver essas coisas de perto deram a ele uma nova perspectiva sobre as coisas, principalmente quando ele parava para pensar que estava passando por um local que, há pouco mais de 30 anos, havia sofrido tanto com o acidente nuclear de Chernobyl.

O que passava por sua cabeça era, principalmente, "que famílias tinham deixado suas casas às pressas, sem ter a oportunidade de voltar e resgatar objetos pessoais… é quase uma viagem no tempo".

Tiago conta que desembolsou US$ 150 pelo tour (cerca de R$ 577 na cotação atual e, obviamente, muito acima da cotação na época) e que, diferente de Larissa, estava em Kiev a trabalho quando decidiu visitar a região atingida pelo desastre.

"Apenas uma semana antes eu fiz a reserva pela internet. Para ir, é necessário fechar um tour guiado com alguma agência credenciada, que tenha permissão do governo da Ucrânia para levar turistas até o local", lembra.

O jornalista relata que, além das restrições às vestimentas (só é permitido entrar no local com roupas que cubram todo o corpo), as únicas coisas que ele teve de fazer foram levar o passaporte e a ssinar um documento declarando estar ciente de que estava prestes a visitar uma zona com radioatividade.

E pelas coisas que viu e pela oportunidade de visitar um local que une história e surpresa, Tiago afirmou que também recomendaria a viagem para qualquer um. "Já viajei para muitos lugares do mundo, mas Chernobyl com certeza é uma das experiências mais diferentes e que ficam marcadas para sempre na vida", crava.

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Mais do que isso, para ele,  visitar a usina de Chernobyl  foi uma ótima oportunidade para conhecer um mundo que vai além dos Estados Unidos ou mesmo das capitais europeias. E aí, ficou com vontade de ir para Pripyat?