Cratera do Monte Fuji
Pedro Hauck
Cratera do Monte Fuji

O Monte Fuji (3.776 m) é a imagem máxima do Japão. Visto de longe, com seu cone simétrico e topo nevado, transmite uma paz quase espiritual. No entanto, para quem encara a montanha de perto como guia de expedições, a experiência revela bastidores muito mais complexos, burocráticos e expostos aos humores do clima do que os cartões-postais deixam transparecer.

Liderando a expedição brasileira Montanhas do Japão, cheguei ao país apreensivo. O governo japonês impõe uma regra rigorosa: a ascensão ao Fuji só é permitida durante uma janela estrita no verão, entre 1º de julho e 10 de setembro.

Para mim, como montanhista, essa restrição é um equívoco. O verão no Japão não significa apenas calor; significa tempestades severas, alta umidade, nuvens densas e uma montanha totalmente desprovida de neve, reduzida a uma grande pilha de rocha vulcânica escura. Prefiro mil vezes a estabilidade e o apelo visual do frio do outono ou da neve da primavera. Para completar a ansiedade da chegada, a previsão meteorológica apontava o pior cenário: chuva ininterrupta para os dias seguintes. Seria isso a condição para formação de um Tufão?

No entanto, a montanha ensina que o segredo do sucesso está na leitura das janelas. Percebendo que o clima abria brechas curtas durante as madrugadas e o início das manhãs, refizemos a tática. Abandonamos a ideia original de pernoitar em um abrigo na montanha — onde ficaríamos vulneráveis às tempestades da tarde — e optamos por uma estratégia de "ataque rápido" partindo de um hotel na cidade de Gotemba.

À 1h da manhã o alarme tocou. Fomos de carro até a sede do parque e, às 3h, tomamos um táxi até a 5ª Estação (2.300 m), onde a famosa Rota Yoshida começa. Às 4h13 da manhã, demos os primeiros passos na trilha após apresentar as credenciais e o pagamento da taxa.

A Montanha Não Entrega Nada de Graça


A Rota Yoshida é extremamente estruturada, com caminhos bem definidos em ziguezague, postos de apoio, venda de água e banheiros a cada trecho. Mas não se engane: a inclinação é pesada e o ar rarefeito cobra seu preço.

Nascer o sol na rota Yoshida. Monte Fuji
Pedro Hauck
Nascer o sol na rota Yoshida. Monte Fuji

Como líder, meu desafio era gerenciar um grupo incrivelmente heterogêneo e unido:

A superação:   Luis Cavalieri, veterano de seis expedições comigo, vinha de uma cirurgia recente para colocação de prótese na cabeça dos dois fêmures. Ele assumiu a ponta, subiu rápido, sem dores e com excelente capacidade cardiorrespiratória.
A maturidade na montanha: O "Jefão", parceiro de jornadas no Kilimanjaro e no Campo Base do Everest, com mais de 70 anos, sentiu o impacto da inclinação acentuada. Em uma decisão de extrema sabedoria, optou por retornar em segurança.
A resiliência da estreia: Simone, de 65 anos, encarava sua primeira montanha na vida ao lado da esposa de Cavalieri. Cadenciando o passo a passo, acompanhada pelas companheiras Kátia e Gláucia, manteve a constância até o fim.
Galgar o Fuji exige paciência. Atingir a borda da cratera dá uma falsa sensação de vitória, mas o cume verdadeiro fica do outro lado: mais uma hora de caminhada contornando a cratera em meio a aclives e declives. A recompensa pela estratégia da madrugada veio no topo: ficamos totalmente acima da camada de nuvens, com um mar branco abaixo de nós sob o céu azul.

Banzai! Estávamos no topo do maior cartão postal do país do sol nascente, no cume de um dos vulcões mais famosos do mundo!

O Alerta na Descida: O Perigo dos Raios


Se a subida testou o físico, a descida exigiu atenção psicológica. A rota de descida é feita por uma vertente diferente, coberta de pedras vulcânicas soltas (scree em inglês, acarreo para nós que estamos acostumados aos Andes). Quando você está com energia, deslizar por esse terreno é rápido; quando o cansaço acumula, segurar o peso do corpo se torna um martírio e você deixa de deslizar para escorregar!

No meio do caminho, o clima de verão cobrou sua conta. Fomos engolidos por uma nuvem densa e pegamos uma tempestade elétrica severa. O som dos trovões ecoavam na encosta nua e, em determinado momento, um raio caiu a poucos metros de nós. O susto foi enorme. Após o raio, a chuva caiu sem dó, nos obrigando a vestir as roupas impermeáveis e continuar o martírio da descida no terreno escorregadio com frio e molhados.

Felizmente, todos descemos em segurança e encerramos a jornada no fim da tarde, exaustos, mas realizados. Enfrentamos muito calor e muito frio, tudo em poucos minutos de diferença, o que mostra que o verão não trás moleza, exige muito fisicamente e requer bons equipamentos.

O Monte Fuji não é uma montanha tecnicamente fácil, mas passa longe de ser um passeio trivial. A experiência reforça a necessidade de o turismo japonês flexibilizar as temporadas de escalada para garantir mais segurança e uma experiência de montanhismo mais autêntica. Quem tem experiência, equipamentos e guias poderia tentar numa época mais fria e mais estável. Não é a presença de neve que torna a montanha mais perigosa, mas sim a instabilidade atmosférica. Pegar um calor de 30 graus e uma chuva congelada exige um cuidado que os turistas não tem e acidentes não são mais frequentes, pois a rota é muito estruturada.

expedição pelo Japão está apenas começando. O Fuji foi o primeiro gigante a ser superado; outros cumes nos esperam nos Alpes japoneses.


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