
Após descermos do majestoso Monte Norikura e desfrutarmos de uma última noite de descanso em nossa tecnológica casa alugada na charmosa vila alpina de Hakuba, chegara o momento de iniciar a viagem em direção a Kyoto. Em vez de optar pela velocidade impessoal e asséptica dos trens de alta velocidade (os famosos Shinkansen), decidimos pegar o volante e seguir por estradas secundárias. Cortar o interior do país por rotas estaduais e vicinais é, sem dúvida, a melhor forma de contemplar a geografia oculta, os vales profundos e as nuances culturais do Japão rural.
Narai-juku: O Relógio parado no Século XVII

Narai Juku, Japão
Como o trajeto era longo e o ritmo desacelerado, planejamos uma pernoite no meio do caminho. Porém, antes de atingir nosso pouso noturno, fizemos uma parada fundamental na histórica cidade de Narai-juku para almoçar.
Localizada no pitoresco Vale do Kiso, na província de Nagano, Narai-juku foi uma das mais importantes shukuba (vilas-posto) ao longo da Nakasendō — a lendária "Estrada das Montanhas", uma das cinco rotas oficiais mantidas pelo Xogunato Tokugawa durante o Período Edo (1603–1867) para conectar a capital imperial (Kyoto) ao centro administrativo do xogum em Edo (atual Tóquio). Conhecida na época como "Narai das Mil Casas"(Narai Senko), a vila era a mais rica da região, servindo de refúgio para viajantes e samurais que enfrentavam a difícil travessia da passagem de montanha de Torii.
Curiosidade Histórica: A Rota dos Samurais (Nakasendō)
Diferente da rota costeira da Tōkaidō, que exigia a travessia de grandes rios sem pontes, a Nakasendō seguia por caminhos continentais montanhosos. Era a rota preferida por samurais, monges, poetas e nobres que buscavam segurança e paisagens deslumbrantes. Hoje, Narai conserva suas construções em madeira escura (machiya) perfeitamente preservadas, sem fiação elétrica visível, mantendo intacta a arquitetura do século XVII.
Caminhar por suas ruazinhas de pedra cercadas por montanhas cobertas de ciprestes é um autêntico transporte no tempo. Foi lá que nos sentamos para saborear um delicioso e crocante tonkatsu (filé de porco empanado na farinha panko e frito com precisão cirúrgica), servido em uma construção histórica de madeira preservada há mais de 350 anos.
Nakatsugawa: O ritual do Futon e a delícia dos supermercados de bairro
Prosseguindo pela estrada rumo ao sul, cruzamos a divisa para a província de Gifu e chegamos à cidade de Nakatsugawa, onde alugamos uma casa típica japonesa. A hospedagem oferecia a verdadeira experiência residencial tradicional: tatames de palha de arroz (igusa) no chão, portas de correr revestidas com papel de arroz (fusuma) e a noite de sono repousante em um macio futon estendido diretamente sobre o solo.

Saboreando sashimis. Mais barato que hamburguer
Um pouco antes de fazer o check-in, paramos em um supermercado local para comprar os ingredientes para o jantar. Quem viaja ao Japão descobre rapidamente que os mercados de bairro escondem verdadeiros tesouros gastronomicamente sofisticados a preços irrisórios.
"Comprei um banquete de sashimi ultra fresco — salmão, peixe branco, atum, lula e camarão — acompanhado de uma cerveja artesanal estilo Porter, tudo por menos de 15 dólares."
A qualidade, o corte impecável e o frescor dos peixes encontrados em um simples supermercado do interior japonês superam com facilidade restaurantes renomados no Ocidente. Desfrutar desse banquete deitado no tatame da nossa casa temporária foi um dos momentos mais simples e gratificantes da viagem.
Gifue a automação do Kaitenzushi: Gastronomia de elite a preços populares
No dia seguinte, retomamos a estrada. Passamos por Gifu, já nas imediações da região metropolitana de Nagoya. Na hora do almoço, paramos em uma unidade da rede Hama Sushi, uma célebre representante da cultura do Kaitenzushi (restaurantes de sushi de esteira rolante).
A experiência é um verdadeiro tratado de eficiência tecnológica japonesa: não há garçons para anotar pedidos. O cliente senta-se na mesa, escolhe as peças em um tablet interativo com imagens vibrantes e, minutos depois, os pratos deslizam pela esteira de alta velocidade parando exatamente ao lado de sua mesa.
Apesar de toda a automação moderna, o custo é impressionantemente baixo e o padrão de qualidade é altíssimo. A combinação de praticidade, sabor e preço acessível torna quase impossível moderar o apetite — confesso que, a essa altura da viagem, a balança já marcava uns 4 kg a mais!
O transe meditativo do Onsen: Purificação, nudez e estética sob a chuva
À tarde, fizemos uma pausa indispensável para o corpo e a mente: visitamos um tradicional Onsen (casa de banho com águas termais vulcânicas). A construção era de uma beleza singular, erguida em arquitetura de madeira tradicional e em perfeita harmonia com a natureza ao redor.
A cultura do onsen é regida por rituais seculares e regras estritas de etiqueta:

O wabi-sabi exerce influência no design principalmente no campo da arquitetura e no design de interiores.
Sem sapatos: Os calçados do dia a dia ficam obrigatoriamente guardados em armários (lockers) logo na entrada.
Separação de gênero: Homens e mulheres frequentam alas totalmente separadas.
Banho de higienização prévio: Ninguém entra na água termal sem antes lavar-se minuciosamente sentado em banquinhos de madeira munidos de chuveiros, sabonete e xampu. A água termal existe exclusivamente para o relaxamento e imersão, não para a lavagem do corpo.
Nudez total: Trajes de banho como sungas ou biquínis são terminantemente proibidos. Trata-se do conceito de Hadaka no Tsukiai ("comunhão na nudez"), onde todos se apresentam sem artifícios, distinções sociais ou vaidades.
Restrição a tatuagens e fotos: Fotografias são absolutamente vetadas. Pessoas com tatuagens historicamente enfrentam restrições devido à associação arcaica das marcas corporais com a Yakuza (a máfia japonesa).
Filosofia Estética: Wabi-Sabi no Rotenburo
O destaque do local era o rotenburo — o banho termal ao ar livre. Enquanto uma chuva leve caía, fiquei imerso na água quente no meio de um jardim japonês projetado ao lado de uma floresta nativa densa. A estética do Wabi-Sabi (a apreciação da beleza imperfeita, efêmera e natural) revela-se na combinação do som das gotas caindo nas folhas, no vapor que sobe das rochas e no silêncio respeitoso dos frequentadores, em sua maioria idosos locais e famílias.
A Chegada a Kyoto Margeando o Lago Biwa
Com o corpo renovado e a mente apaziguada pelo banho termal, pegamos o trecho final da estrada contornando o imponente Lago Biwa (Biwa-ko). Com mais de 4 milhões de anos de formação, o Biwa é o maior lago de água doce do Japão e um ícone histórico citado na literatura clássica e na poesia samurai.
Ao contornar suas margens tranquilas enquanto o sol começava a se pôr, chegamos ao nosso destino final no fim da tarde: a inigualável Kyoto.
Deixamos para trás a serenidade das montanhas de Nagano e os vales bucólicos de Gifu para adentrar o coração histórico e espiritual da antiga capital do Império Japonês. Daqui em diante, nossa jornada assume uma roupagem inteiramente cultural, entre santuários xintoístas milenares, templos zen-budistas, ruelas de geishas e uma herança viva que resiste impecável ao tempo.
