
Depois das emoções e das tempestades elétricas no Monte Fuji, meu roteiro pelas montanhas do Japão me trouxe ao verdadeiro coração dos Alpes do Norte: o deslumbrante vale de Kamikochi. Situado a cerca de 1.500 metros de altitude e protegido por um rigoroso controle ambiental que proíbe a entrada de carros particulares, este platô emoldurado por picos graníticos verticais é considerado o berço do montanhismo moderno no país. Foi caminhando por aqui, no final do século XIX, que o reverendo inglês Walter Weston se encantou com a imponência da paisagem e ajudou a apresentar os Alpes Japoneses para o resto do mundo.
Este vale integra o Parque Nacional Chūbu-Sangaku e atrai milhares de visitantes anualmente, que buscam o contato direto com a natureza alpina japonesa. A região se mantém notavelmente preservada graças às rigorosas restrições de tráfego, que a consolidam como um verdadeiro refúgio de silêncio e contemplação em meio à agitação moderna.

Decidi dedicar o dia a fazer a caminhada clássica ao longo do cristalino Rio Azusa, partindo da emblemática Lagoa Taisho, cruzando a famosa ponte de madeira Kappabashi e seguindo até a mística Lagoa Myojin, para depois fazer o trajeto de retorno. O percurso é de uma tranquilidade ímpar, plano e acessível, contrastando a imponência das paredes rochosas ao redor com uma infraestrutura impecável de passadiços de madeira, sinalização perfeita e uma limpeza impecável, mesmo com a presença de muitos visitantes. Embora desta vez eu não tenha colocado os pés em nenhuma crista ou cume técnico, o olhar atento de geógrafo não pôde deixar de se impressionar com a história que a própria terra conta naquele lugar.
A estrutura de Kamikochi é um exemplo de harmonia entre turismo e preservação. Apesar do grande volume de visitantes, vindos de todas as partes do Japão e do mundo, a natureza permanece intocada, sem qualquer lixo pelo caminho. As trilhas são impecáveis, oferecendo um acesso organizado e seguro que conecta os visitantes a uma rede completa de serviços, incluindo museu, centro de visitantes, hotéis, áreas de camping e restaurantes. Contudo, é fundamental distinguir a realidade do vale daquela das monthas ao redor: enquanto o platô central oferece uma estrutura preparada para o turismo geral, as cristas e picos que cercam o local exigem preparo técnico e são restritos a montanhistas e visitantes mais qualificados.
À primeira vista, o cenário dramático de Kamikochi, com suas agulhas de rocha que parecem arranhar o céu e suas florestas densas, transmite a sensação de uma natureza ancestral e imutável. No entanto, a grande surpresa é descobrir que aquele vale é geologicamente extremamente jovem, quase um acontecimento de "ontem" na escala do tempo da Terra. A própria Lagoa Taisho, onde comecei o meu dia contemplando os reflexos das montanhas na água, sequer existia há pouco mais de um século. Ela foi formada abruptamente no verão de 1915, quando o vulcão vizinho Yakedake entrou em uma erupção violenta. A avalanche de lama, cinzas e rochas represou o leito do Rio Azusa, inundando a floresta e criando o espelho d'água quase da noite para o dia — um evento tão recente que até hoje é possível avistar troncos de árvores submersos despontando do meio da lagoa como testemunhas silenciosas daquele dia.
Toda a cordilheira de Hotaka que envolve o vale é fruto de um soerguimento tectônico feroz e acelerado ocorrido no período Quaternário, nos últimos um a dois milhões de anos, o que para a geologia representa um piscar de olhos. A interação constante entre a subducção das placas tectônicas, a intensa atividade vulcânica e a ação modeladora das antigas geleiras esculpiu essas cristas afiadas e vales em formato de "U" com uma rapidez impressionante. Estar em Kamikochi é caminhar por uma paisagem viva, em constante e rápida transformação, onde a força da Terra se mostra recente, crua e monumental. Foi um dia de contemplação profunda e descanso merecido para as pernas, mas com o olhar sempre atento aos gigantes de rocha ao redor, que continuam a chamar para os próximos desafios nas alturas dos Alpes Japoneses.
Karamatsu-dake (Alpes do Norte, Japão)
Hoje acordamos sem muita pressa na nossa casa alugada em Hakuba — aliás, uma casa linda no meio da floresta, super tecnológica e aconchegante. Meu café da manhã reforçado foram oito nigiris e um bom café.
Após o desjejum, reunimos a equipe e fomos de carro até a base do teleférico. A informação que tínhamos era de que ele só abria às 8h; por isso não madrugamos e acabamos começando a caminhada por volta das 9h.
A parte inicial da trilha parecia uma verdadeira "avenida", com a estrutura impecável típica do Japão. Boa parte do percurso inicial contava com boardwalks (passarelas de madeira), o que facilitava bastante a progressão. Essa estrutura terminava cerca de 100 metros verticais acima; a partir dali, o terreno mudava e virava uma trilha bem mais técnica, repleta de pedras soltas.
Nossa primeira parada foi junto ao lago Happo-ike. Dali em diante, o caminho exigia mais: muitos degraus de rocha e um estilo de trilha que lembrava mais o padrão brasileiro — embora continuasse bem aberta, sinalizada e, claro, cheia de gente.

O montanhismo é extremamente popular no Japão. A montanha estava movimentadíssima: vimos desde crianças e idosos até casais. Mas a cortesia impressiona. O povo japonês é extremamente educado e cordial; para cada pessoa que cruzava nosso caminho, trocávamos um cumprimento carinhoso: "Konnichiwa!"(こんにちは).
Com o tempo, o grupo foi se espaçando naturalmente. Os mais rápidos seguiram à frente, enquanto os mais lentos ficaram atrás acompanhando o Jefão, que, aos seus 72 anos, mantinha um ritmo lento, porém constante e firme. A trilha então apertou de vez, entrando em um trecho de "trepa-pedra" onde precisamos aguardar em fila a nossa vez de passar, dado o grande volume de montanhistas.
Eu ia acompanhando o ganho de altitude no meu smartwatch (o T-Rex Ultra 2). Íamos galgando metro a metro no altímetro até que batemos nos 2.600 metros de altitude, sinal de que o objetivo estava próximo. Nesse ponto, estávamos totalmente entubados nas nuvens e a visibilidade era quase nula.
De repente, surgiu do meio da neblina a imponente estrutura vermelha do refúgio de montanha (Karamatsu-dake Sanso). Procurei pelos meus colegas por ali, mas como não os vi, continuei caminhando até encontrá-los logo à frente.
A Kátia estava sentindo muito frio e, junto com a Gláucia e a Mônica, decidiu iniciar a descida. Antes de irem, nos deram o aviso definitivo: "Vocês estão a apenas 20 minutos do cume!". Seguimos em frente.
O Jefão já estava bastante cansado e precisou parar duas vezes para cumprir esse trecho final de 20 minutos. Totalmente entubados na nuvem, com visibilidade zero, finalmente avistei várias pessoas sentadas em uma protuberância da crista ao redor de um totem de madeira. Era o cume do Karamatsu-dake! Falei pro Jefão: "Segura esse pau que o cume é seu!".

Descansamos, comemos algo e, logo em seguida, iniciamos a descida. Era exatamente 13h.
O terreno de pedras soltas foi uma grande dificuldade para o meu amigo de 72 anos. Ele descia bem devagar e eu ia ajudando como podia. Aliviei o peso dele: peguei tudo o que tinha em sua mochila e deixei com ele apenas o sistema de hidratação com água.
Íamos descendo rápido até que me dei conta de um detalhe crítico: o teleférico fecharia às 16h, e já eram 14h30. Apressei o Jeferson, mas ele já estava ainda mais cansado e lento. Evitei alarmá-lo dizendo que precisávamos correr por causa do horário, mas fiz o possível para fazê-lo apertar o passo.
Quando avistamos novamente o lago, sabia que faltava pouco, mas o terreno ainda exigia atenção nos degraus e pedras soltas. O cansaço pesou e ele acabou caindo algumas vezes. Um pouco mais abaixo, finalmente começaram as passarelas de madeira. Nisto, peguei a mochila inteira dele e mandei a real: "Você precisa apertar o passo, faltam apenas 30 minutos para o teleférico fechar".
Se o teleférico fechasse, não seria o fim do mundo, mas significaria o início de uma longa e tortuosa descida a pé de dezenas de quilômetros. Com o Jefão naquele estado de exaustão, seria terrível.
Enfim, após uma curva, avistei a estação do teleférico bem na nossa frente. Eram 15h55. Já conseguia ouvir o alto-falante ecoando avisos em japonês, e imaginei que estivessem anunciando o encerramento do serviço. Nesse instante, o sinal do celular voltou e vi a mensagem do Cavalieri: "O teleférico fecha às 16h30". Fiquei na dúvida, mas aliviado: se fosse verdade, não precisaríamos descer caminhando.
O Jefão encostou e, 15 minutos depois, às 16h15, alcançamos o teleférico! Graças a Deus o horário havia sido estendido e pudemos fazer a descida tranquilos. O Jeferson estava extremamente exausto.
Descemos o teleférico e reencontramos o resto do grupo, que nos aguardava. Ao entrar no carro, com seu bom humor impecável, o Jefão olhou para mim e soltou: "Pedro, você pode me falar qualquer coisa... menos 'Vamos, Jefão'!".
