
Encerrar uma etapa de montanha no Japão é sempre um momento de reflexão e contemplação. Nos últimos dias, finalizamos a segunda fase da nossa expedição no coração dos Alpes do Norte, onde o relevo acidentado e a dinâmica das cristas expostas exigem atenção constante a cada passada.

Nossa rota nos Alpes começou com a ascensão do Mount Karamatsu (2.696 m), partindo do vale de Hakuba. A progressão ao longo da crista de Happo-one exige boa leitura de terreno: são trechos íngremes e expostos, com seções rochosas que demandam passagens técnicas.
Na sequência, nos deslocamos para o Mount Norikura (3.026 m), um dos estratovulcões mais emblemáticos do país e uma das 100 Montanhas Famosas do Japão (Hyakumeizan). Aqui, a dinâmica muda totalmente: saímos das cristas afiadas para ingressar em um terreno vulcânico de altitude, dominado por depósitos de andesito, crateras e campos de neve remanescentes. A caminhada rumo ao cume principal, Kengamine, envolve uma ascensão sustentada em cascalho solto e blocos rochosos sob um ar visivelmente mais rarefeito, superando a marca dos 3 mil metros.
Para fechar o ciclo alpino, descemos em direção ao icônico vale de Kamikochi (1.500 m). O caminhamento ao longo do rio Azusa serve como uma descompressão perfeita: um vale glaciar emoldurado pelas paredes verticais do maciço de Hotaka, onde rios de águas cristalinas correm entre florestas de lariços e bétulas.
A imersão em Kyoto: estética, memórias de infância e templos milenares
Deixamos para trás os equipamentos de trekking e a altitude para dar início a um intenso roteiro cultural por Kyoto. Foram dois dias marcantes caminhando e explorando a antiga capital imperial.

No primeiro dia (29/07), começamos bem cedo em Arashiyama, cruzando o famoso Bosque de Bambu até o templo Tenryū-ji. Estar ali me fez refletir profundamente sobre o conceito do Wabi Sabi — a estética japonesa baseada no reconhecimento da imperfeição, da impermanência e da simplicidade. Essa filosofia e sua estética me impactaram de forma marcante, fazendo ressoar memórias e um sonho de infância que, inclusive, motivou o tema da minha última coluna.
Seguimos para o impressionante Kinkaku-ji (o Templo Dourado), onde a estrutura reluzente sobre o lago contrasta com o paisagismo clássico. Após um almoço tradicional de rímen e gyoza, estacionamos no Castelo Nijo e percorremos o Palácio Ninomaru, admirando a arquitetura militar e os famosos "pisos do rouxinol", projetados para ranger ao menor passo e alertar contra invasores.

Museu do Mangá em Kyoto
A tarde reservou um resgate nostálgico no Kyoto International Manga Museum. Fui em busca de referências de Akira, um mangá futurista, apocalíptico e visceral que me influenciou fortemente na infância. Ver esse acervo de perto foi uma verdadeira viagem no tempo. Fechamos o dia explorando o vibrante Nishiki Market, um corredor centenário repleto de aromas, iguarias locais e um ritmo contagiante.
No dia seguinte (30/07), iniciamos o circuito pelo emblemático Fushimi Inari Taisha, caminhando entre os seus icônicos portais torii vermelhos. Na sequência, visitamos o impressionante templo de madeira Kiyomizu-era, encravado na encosta, e percorremos as charmosas ladeiras históricas de Sannenzaka e Ninenzaka, com vista para a tradicional Pagoda Hōkan-ji.
À tarde, visitamos o Santuário Yasaka, o Museu do Kanji — onde, embora a leitura dos caracteres seja indecifrável para nós, fica nítida a profunda influência histórica e estrutural da China na escrita japonesa — e encerramos a jornada pelas ruelas preservadas de Hanamikoji Street, no tradicional bairro de Gion.

Gastronomia: do autêntico Bife Kobe ao pragmatismo tecnológico do Hama Sushi
Se nas montanhas a energia vinha das rações de caminhada, a experiência em Kyoto revelou uma gastronomia fascinante por todos os espectros.
Um dos pontos altos foi a oportunidade de provar o autêntico Bife Kobe (Kobe Beef). Trata-se de uma das carnes mais nobres, macias e valorizadas do mundo, famosa pelo seu marmoreio impecável. Embora seja uma refeição de valor elevado, prová-la diretamente no Japão custa significativamente menos do que nos restaurantes de alta gastronomia no resto do mundo — uma oportunidade imperdível para vivenciar essa excelência culinária em sua origem.
No dia a dia, porém, o destaque absoluto ficou para o Hama Sushi, do qual virei fã. Especializada em sushis, nigiris e tempurás de altíssima qualidade a preços inacreditavelmente acessíveis, a rede é um show de tecnologia e eficiência: você faz o pedido na tela touchscreen do seu assento e, em minutos, os pratos chegam deslizando com precisão por uma esteira rolante bem ao lado da mesa. Além disso, completamos o circuito gastronômico com um jantar no tradicional Chao Chao, famoso por suas gyozas crocantes.
A riqueza de Nara e o encerramento da etapa
Completando o itinerário pela região, passamos por um museu de siquê (saké), aprendendo sobre a precisão milenar na fermentação do arroz com direito a uma degustação guiada, e seguimos para Nara, a primeira capital permanente do Japão (século VIII).
No Parque de Nara, fomos recebidos por uma cena impressionante: centenas de veados (sika) transitando livremente entre os visitantes e as estruturas seculares. Considerados mensageiros divinos no xintoísmo local, esses animais caminham em absoluta harmonia com a paisagem, proporcionando um contato com a fauna completamente diferente daquele isolamento selvagem a que estamos habituados nas altas montanhas.

A transição entre o terreno rochoso dos Alpes do Norte e a profundidade cultural de Kyoto e Nara reforça que viajar pelo Japão é, acima de tudo, dosar o desafio físico com a sensibilidade histórica e estética. Seguimos prontos para os próximos capítulos desta jornada.
