
Se os vulcões Misti e Chachani nos receberam com a aridez clássica das cercanias de Arequipa, o Hualca Hualca (6.025m ) nos apresentou a face mais selvagem, instável e complexa da geologia andina. Foram três dias intensos de expedição e duas noites isoladas em uma montanha que desafia o próprio conceito visual de um vulcão. O Hualca Hualca não possui uma cratera definida ou a clássica silhueta cônica; ele é um labirinto de cristas, arestas e rochas vulcânicas escorregadias que exige navegação precisa e respeito absoluto.

Nossa jornada começou com o deslocamento de Arequipa até o coração do Vale do Colca, desembarcando nos impressionantes Gêiseres de Pinchollo. Ali, a Terra ruge. Caminhar ao lado de fumarolas que ejetam água fervente, alimentadas diretamente pela atividade geotérmica do próprio Hualca Hualca, é um lembrete vívido de que estávamos adentrando um território vivo.
Nos Gêiseres, encontramos nossos arrieros, que organizaram o transporte dos equipamentos pesados em mulas. A aproximação a pé até o acampamento base, a 4.900m de altitude, foi uma caminhada curta e teoricamente fácil de 3,6 km. No entanto, a alta montanha dita suas próprias regras. O tempo virou repentinamente e fomos recebidos no local do acampamento por uma nevasca forte.

Essa reviravolta testou a agilidade e o profissionalismo de nossa equipe de guias e do pessoal da cozinha. Montar as barracas e a grande tenda domo sob o castigo da neve exigiu um esforço coordenado e rápido. Mas a recompensa veio logo em seguida: assim que terminamos a montagem, o sol rompeu as nuvens, iluminando uma paisagem espetacular inteiramente pintada de branco. Jantamos protegidos no domo e fomos dormir cedo. O despertador estava programado para as 3h da manhã.
O Ataque ao Cume: Cristas Resvalosas e o Espetáculo do Sabancaya
Partimos na escuridão da madrugada, progredindo sob uma cobertura de nuvens que ainda teimava em esconder a lua. O amanhecer, contudo, trouxe o sol e revelou a crueza do terreno. Subir os acarreos (encostas de fragmentos de rocha solta) do Hualca Hualca é uma tarefa íngreme e penosa. Para garantir o ritmo e a segurança, dividimos o grupo em pequenos comboios, com cada guia liderando diretamente um número reduzido de participantes.
À medida que ganhávamos a crista, o terreno tornava-se cada vez mais traiçoeiro e exposto. Tomamos a decisão técnica de encordoar o grupo. Em encostas vulcânicas tão instáveis, o encordamento é a linha que separa um susto de uma tragédia; se alguém escorregasse nas pedras soltas, a corda travaria a queda, impedindo que o montanhista rolasse montanha abaixo.

Progredindo com lentidão e foco, atingimos a marca dos 6 mil metros na crista superior. Diante de nós, erguia-se o verdadeiro cume do Hualca Hualca: uma torre vertical de andesito cerca de 25 metros mais alta que o ponto onde estávamos. Vencer aquele bastião rochoso exigiria uma abordagem puramente técnica de escalada em rocha, com o uso de sapatilhas, proteção móvel, conquista de fendas e cordas duplas para o rapel de descida, algo fora do escopo de uma ascensão comercial de alta altitude. Paramos com orgulho e consciência na crista, celebrando a conquista daquela altitude extrema.
Lá de cima, o horizonte andino nos ofereceu uma visão esmagadora. Contemplamos o vizinho Ampato e, a poucos quilômetros dali, o vulcão Sabancaya em sua impressionante e perene erupção, projetando colunas colossais de fumaça e cinzas no céu.

O teto andino, porém, fecha as cortinas rápido. Pouco depois de registrarmos o cume, o tempo fechou completamente. Empreendemos uma longa descida sob uma nova nevasca até a segurança do acampamento base.
Este foi o nosso quarto cume bem-sucedido na Expedição Vulcões de Arequipa. A aclimatação do grupo está impecável e a moral da equipe não poderia estar mais alta. Agora, arrumamos as mochilas e limpamos as cordas para o grande desafio final da temporada: o gigante Coropuna (6.425m), o ponto mais alto do sul do Peru e o maior vulcão do país. A jornada rumo ao teto glacial peruano continua.
