
Quando se fala em turismo e montanha no Peru, a atenção da maioria esmagadora se volta imediatamente para Cusco e a Cordilheira Branca. No entanto, o sul do país guarda uma das regiões mais ricas e plasticamente impressionantes do ponto de vista geográfico e de alta montanha. Refiro-me a Arequipa, a segunda maior cidade peruana, estrategicamente posicionada a 2.325 metros de altitude.
Apelidada de "Cidade Branca", Arequipa é um testemunho vivo de como a geologia molda a cultura humana. O centro histórico, reconhecido como Patrimônio da Humanidade, foi inteiramente erguido em sillar — uma rocha piroclástica de cor esbranquiçada, fruto de antigas e violentas erupções vulcânicas. Caminhar pela Plaza de Armas ou cruzar os claustros do Mosteiro de Santa Catalina não é apenas um tour histórico pela arquitetura colonial do século XVI, mas uma imersão na própria história tectônica da região.

Essa identidade forte se reflete também na mesa. A culinária arequipenha se diferencia do padrão litorâneo de Lima e se ancora nas tradicionais picanterías. São receitas robustas, pensadas para o clima de altitude, onde se destacam o clássico Rocoto Relleno (uma pimenta local recheada com carne e especiarias, servida com batatas gratinadas) e o Chupe de Camarones, uma sopa densa e muito condimentada. É a energia necessária para o que o horizonte reserva.
Uma cidade rodeada por montanhas
Para além do charme urbano, o real valor de Arequipa para quem vive o montanhismo está no seu entorno geográfico. A cidade funciona como uma base logística perfeita e um ponto crucial para processos de aclimatação.
A poucas horas dali, o cenário se rasga no Cânion do Colca. Com mais de 3.200 metros de profundidade vertical, ele figura entre os maiores abismos do planeta. Para o turismo convencional, o atrativo é observar o voo dos condores andinos nos mirantes da borda; para nós, o interesse reside nas trilhas técnicas que descem até o leito do Rio Colca, cruzando comunidades isoladas e oferecendo um excelente ganho de condicionamento em terreno acidentado.
Mas a grande assinatura de Arequipa está nos vulcões que emolduram a cidade e desafiam o olhar de qualquer montanhista. Sentinelas imponentes que operam como o "batismo de altitude" definitivo nos Andes: o cônico e ativo El Misti (5.822 m), o gigante Chachani (6.057 m) — uma das portas de entrada mais viáveis do mundo para a mítica barreira dos seis mil metros — e o complexo erodido do Pichu Pichu (5.664 m), um enorme vulcão repleto de cumes que marca o horizonte da cidade.
Aclimatação no Pichu Pichu
Embora o Pichu Pichu possa não ser a montanha mais esteticamente impressionante, escolhemo-la como o primeiro desafio do nosso roteiro "Vulcões de Arequipa". Por ser uma montanha de altitude mais baixa, ela se revela a opção ideal para dar início ao nosso processo de aclimatação.
Deixamos o centro histórico da cidade às 3 da manhã. Após três horas sacolejando em uma estrada sinuosa e cheia de ziguezagues, chegamos à base do vulcão para escalar o cume Simbral, a 5.300 metros.
A rota é composta na parte baixa por muita areia vulcânica, resultado de erupções antigas, e exibe amostras da vegetação andina, como as impressionantes yaretas — plantas extremamente densas e de crescimento lento, que podem viver centenas de anos e parecem verdadeiras pedras verdes. Já na parte alta, a paisagem se resume a rochas e ao vento frio. Durante a subida, passamos pelos destroços de um helicóptero que colidiu contra o cume, um marco solitário na montanha. Quase todos do grupo alcançaram o cume, completando uma etapa fundamental de aclimatação. Do topo, contemplamos nossos próximos objetivos: o Misti e o Chachani.
Nas próximas colunas, vamos detalhar a logística, as rotas e os desafios técnicos para enfrentar a aridez e as cinzas desses gigantes. Até lá.
