Vulcão El Misti domina a paisagem de Arequipa
Pedro Hauck
Vulcão El Misti domina a paisagem de Arequipa

Quando se fala em turismo e montanha no Peru, a atenção da maioria esmagadora se volta imediatamente para Cusco e a Cordilheira Branca. No entanto, o sul do país guarda uma das regiões mais ricas e plasticamente impressionantes do ponto de vista geográfico e de alta montanha. Refiro-me a Arequipa, a segunda maior cidade peruana, estrategicamente posicionada a 2.325 metros de altitude.

Apelidada de "Cidade Branca", Arequipa é um testemunho vivo de como a geologia molda a cultura humana. O centro histórico, reconhecido como Patrimônio da Humanidade, foi inteiramente erguido em sillar — uma rocha piroclástica de cor esbranquiçada, fruto de antigas e violentas erupções vulcânicas. Caminhar pela Plaza de Armas ou cruzar os claustros do Mosteiro de Santa Catalina não é apenas um tour histórico pela arquitetura colonial do século XVI, mas uma imersão na própria história tectônica da região.

Vulcão Chachani no horizonte da cidade de Arequipa
Pedro Hauck
Vulcão Chachani no horizonte da cidade de Arequipa

Essa identidade forte se reflete também na mesa. A culinária arequipenha se diferencia do padrão litorâneo de Lima e se ancora nas tradicionais picanterías. São receitas robustas, pensadas para o clima de altitude, onde se destacam o clássico Rocoto Relleno (uma pimenta local recheada com carne e especiarias, servida com batatas gratinadas) e o Chupe de Camarones, uma sopa densa e muito condimentada. É a energia necessária para o que o horizonte reserva.

Uma cidade rodeada por montanhas


Para além do charme urbano, o real valor de Arequipa para quem vive o montanhismo está no seu entorno geográfico. A cidade funciona como uma base logística perfeita e um ponto crucial para processos de aclimatação.

A poucas horas dali, o cenário se rasga no Cânion do Colca. Com mais de 3.200 metros de profundidade vertical, ele figura entre os maiores abismos do planeta. Para o turismo convencional, o atrativo é observar o voo dos condores andinos nos mirantes da borda; para nós, o interesse reside nas trilhas técnicas que descem até o leito do Rio Colca, cruzando comunidades isoladas e oferecendo um excelente ganho de condicionamento em terreno acidentado.

Mas a grande assinatura de Arequipa está nos vulcões que emolduram a cidade e desafiam o olhar de qualquer montanhista. Sentinelas imponentes que operam como o "batismo de altitude" definitivo nos Andes: o cônico e ativo El Misti (5.822 m), o gigante Chachani (6.057 m) — uma das portas de entrada mais viáveis do mundo para a mítica barreira dos seis mil metros — e o complexo erodido do Pichu Pichu (5.664 m), um enorme vulcão repleto de cumes que marca o horizonte da cidade.


Aclimatação no Pichu Pichu


Embora o Pichu Pichu possa não ser a montanha mais esteticamente impressionante, escolhemo-la como o primeiro desafio do nosso roteiro "Vulcões de Arequipa". Por ser uma montanha de altitude mais baixa, ela se revela a opção ideal para dar início ao nosso processo de aclimatação.

Deixamos o centro histórico da cidade às 3 da manhã. Após três horas sacolejando em uma estrada sinuosa e cheia de ziguezagues, chegamos à base do vulcão para escalar o cume Simbral, a 5.300 metros.

A rota é composta na parte baixa por muita areia vulcânica, resultado de erupções antigas, e exibe amostras da vegetação andina, como as impressionantes yaretas — plantas extremamente densas e de crescimento lento, que podem viver centenas de anos e parecem verdadeiras pedras verdes. Já na parte alta, a paisagem se resume a rochas e ao vento frio. Durante a subida, passamos pelos destroços de um helicóptero que colidiu contra o cume, um marco solitário na montanha. Quase todos do grupo alcançaram o cume, completando uma etapa fundamental de aclimatação. Do topo, contemplamos nossos próximos objetivos: o Misti e o Chachani.

Nas próximas colunas, vamos detalhar a logística, as rotas e os desafios técnicos para enfrentar a aridez e as cinzas desses gigantes. Até lá. 


    Compartilhar
    Comentários
    Clique aqui e deixe seu comentário!

    Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

    Mais Recentes