Cume do Chachani
Pedro Hauck
Cume do Chachani

Existe uma máxima no montanhismo andino que diz que nenhuma montanha de seis mil metros é verdadeiramente fácil. O ar rarefeito, que ali na casa do cume entrega menos da metade do oxigênio encontrado ao nível do mar, impõe uma barreira física democrática: ele cobra o preço de todos. No entanto, no universo técnico dos gigantes andinos, o vulcão Chachani (6.057m) é considerado uma das portas de entrada mais acessíveis a essa altitude.

Ontem, nossa expedição comprovou que o segredo para domar um seis mil não está apenas nas pernas, mas na paciência do processo. Vindo de cumes bem-sucedidos no  Pichu Pichu e no Misti, o corpo do grupo já estava adaptado ao ambiente de alta montanha. O resultado prático? Uma ascensão fluida, segura e plasticamente inesquecível, coroada por marcos pessoais importantes e imersa na rica história andina.

O "Apu" Valente e suas Histórias

Vulcão Chachani no horizonte da cidade de Arequipa
Pedro Hauck
Vulcão Chachani no horizonte da cidade de Arequipa


Como geógrafo, sempre me fascina a forma como as culturas pré-colombianas liam a paisagem. O Chachani não é apenas uma montanha; ele é um complexo vulcânico maciço cujo nome, no idioma aymará, carrega um significado imponente: "Bravo", "Valente" ou "Masculino". Na cosmovisão local, ele era visto como o contraponto de força ao Misti e ao Pichu Pichu.

Diferente do Misti, onde foram encontrados santuários e s acrifícios rituais incas (Capacocha) intactos na cratera principal, o Chachani guarda mistérios diferentes. Embora também tenha sido considerado um Apu (uma divindade tutelar), os vestígios arqueológicos nas suas encostas são mais escassos, sugerindo que os antigos povos andinos o reverenciavam mantendo uma distância respeitosa de suas cristas expostas. Outra curiosidade geográfica marcante é o recuo dramático de suas geleiras: nas últimas décadas, o Chachani perdeu quase todo o seu manto de gelo permanente, tornando-se uma montanha predominantemente de rocha e areia, o que altera significativamente a logística e o visual da subida hoje em dia se comparado aos relatos dos primeiros exploradores do século XIX.

Uma Madrugada Prateada e Marcas para a História


Nossa jornada começou pontualmente às 2h da madrugada. Deixar o calor do saco de dormir para encarar o frio cortante da madrugada andina é sempre um teste psicológico, mas o cenário que nos esperava do lado de fora da barraca era puro privilégio. Subimos sob o domínio de uma lua cheia espetacular. A luz era tão intensa que as encostas áridas do Chachani reluziam, desenhando silhuetas prateadas no horizonte e tornando o uso das lanternas de cabeça quase opcional.

Embora o termômetro marcasse temperaturas severamente negativas, como é o padrão da região, o rendimento da equipe foi excelente. A aclimatação progressiva funcionou com precisão cirúrgica. Passos ritmados, respiração controlada e quase nenhum sinal dos sintomas clássicos do mal de altitude que costumam assombrar essa transição.

Ascensão ao Chachani
Pedro Hauck
Ascensão ao Chachani

Para mim, pisar naquele cume teve um sabor especial de continuidade e paixão pelo montanhismo: o Chachani tornou-se a minha montanha andina de número 68 acima dos 6 mil metros. Mas as celebrações não pararam por aí. O topo do Chachani também foi o cenário de um marco memorável para o nosso companheiro de equipe, o Pedro Manuel Martins, português radicado no Brasil, que com muita garra conquistou ali o seu décimo cume de 6 mil metros. Duas jornadas distintas de amor à altitude se cruzando no teto de Arequipa.

Após horas de uma progressão constante, alcançamos o cume no início da manhã. Quase a totalidade do grupo atingiu o topo. Ver a linha do horizonte lá de cima, com o dia já claro e o sentimento de que a primeira grande meta de altitude foi superada, trouxe uma atmosfera de profunda realização para o time.

Com três cumes conquistados, fechamos com chave de ouro a primeira metade da nossa jornada. Agora, a expedição muda de caráter. Deixamos a conveniência dos acessos próximos à cidade de Arequipa e nos deslocamos em direção ao isolamento das próximas montanhas, muito menos frequentadas. Pela frente, o desafio ganha novas proporções com o pouco conhecido Hualca Hualca, o imponente Ampato e a imensidão glacial do Coropuna. O corpo está cansado, mas o espírito está blindado pela altitude e pelas conquistas.


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