
Existem montanhas que nos testam pelo frio extremo, outras pela verticalidade técnica. O vulcão Misti (5.822m), o gigante cônico que emoldura e vigia a cidade de Arequipa, no Peru, escolhe outra arma para testar os montanhistas: a paciência e a resistência na aridez de suas encostas vulcânicas.
Após uma temporada difícil e de clima instável na Bolívia, nossa equipe desembarcou em solo peruano para dar início à Expedição Vulcões de Arequipa. O projeto é ambicioso e desenha uma linha lógica de aclimatação e altitude pelo sul do país: começamos com o topo do Pichu Pichu (5300m - cume Simbral), passamos agora pelo Misti e, na sequência, apontaremos as bússolas para o Chachani (6.057m), Hualca Hualca (6.025m), Coropuna (6.425m) e Ampato (6.288m).
Ontem, vivemos o dia do Misti. E foi inesquecível.
O relógio marcava 3h30 da madrugada quando as lanternas de cabeça romperam a escuridão do acampamento alto. Àquela hora, o termômetro castigava, mas o verdadeiro desafio começou a se revelar sob as solas das botas. Subir o Misti é travar uma batalha de progressão contra a própria gravidade da montanha. O terreno, composto por cinzas e uma areia vulcânica solta e fina, faz com que cada passo pareça um recuo: avança-se um metro, escorrega-se meio. É um teste físico e psicológico severo.
Foram longas, frias e poeirentas horas de marcha compassada, onde o controle da respiração e a cadência do grupo ditavam o sucesso da ascensão. À medida que o sol subia, a paisagem se transformava em um cenário de proporções colossais.

Exatamente ao meio-dia, após oito horas e meia de esforço contínuo, pisamos no cume. E a recompensa foi absoluta.
Alcançar o topo do Misti e olhar para dentro da sua imensa cratera ativa é uma das sensações mais impactantes que os Andes podem proporcionar. Ver a fumaça discreta que escapa das entranhas da terra, sabendo que a cidade branca de Arequipa repousa milhares de metros abaixo, nos dá a real dimensão da imponência dessas estruturas geológicas.

Para coroar o momento, o horizonte andino resolveu nos presentear com um espetáculo cru da natureza: ao longe, pudemos observar o vizinho Sabancaya em plena erupção, lançando suas colunas de cinzas contra o céu azul profundo da alta altitude. Um lembrete imponente de que estamos caminhando sobre terra viva.
O maior orgulho do dia, no entanto, veio do grupo. Em montanhas como esta, estatísticas de cume total são raras, mas ontem a determinação prevaleceu: 100% dos clientes atingiram o cume. Cada um deles superou a exaustão física, o ar rarefeito e a fadiga da areia para assinar o livro de cume do guardião de Arequipa. Este foi o nosso segundo cume da temporada.
Não há tempo para descanso longo. O corpo cobra o preço, mas a mente já está focada no próximo objetivo. Descemos, limpamos a poeira dos equipamentos, revisamos a logística e as câmeras. Nosso próximo passo será quebrar a barreira dos seis mil metros nas encostas do Chachani. A jornada pelo teto vulcânico do Peru está apenas começando.
Curiosidades sobre o Vulcão El Misti
O Misti foi palco de um dos achados arqueológicos de altitude mais importantes dos Andes. Os Incas não subiam essas montanhas por esporte, mas sim para realizar o ritual da Capacocha (sacrifícios humanos e oferendas complexas para apaziguar os deuses em momentos de secas, erupções ou crises).
A Descoberta (1998): Uma expedição liderada pelos arqueólogos Johan Reinhard e José Antonio Chávez realizou escavações complexas perto da cratera interna do Misti, a quase 5.800m de altitude.
O que encontraram: Foram descobertas as tumbas e os restos mortais de 6 mummies/esqueletos incas (jovens e crianças), acompanhados por um riquíssimo enxoval funerário. Havia estatuetas de ouro e prata, tecidos incas finíssimos e cerâmicas.

A Logística Inca: O que impressiona qualquer montanhista é imaginar a logística da época. Eles estabeleceram estruturas e locais de oferenda na própria borda da cratera ativa, convivendo com os gases e o ar rarefeito, carregando materiais pesados e subindo sem nenhuma tecnologia moderna.
Diferente da múmia Juanita (encontrada no vizinho Ampato, que estava incrivelmente preservada pelo gelo), os corpos do Misti foram danificados pela própria atividade térmica e química do solo do vulcão ao longo dos séculos, mas o achado confirmou o Misti como um dos maiores santuários de altitude do Império Inca.
A Última Erupção do Misti
O Misti é classificado como um vulcão ativo e de alto risco devido à proximidade extrema com o centro urbano de Arequipa (apenas 17km em linha reta).
A Última Grande Erupção: O último grande evento eruptivo com impacto expressivo (explosivo e com emissão de cinzas) ocorreu no século XV, entre 1440 e 1470, durante o reinado do Inca Pachacútec. Relatos históricos andinos e crônicas coloniais mencionam que a atividade foi tão forte que forçou as populações locais a fugirem do vale do Chili, e o próprio Inca teve que enviar oferendas para acalmar a montanha.
Atividade Recente: No século XIX e em 1985, o Misti registrou aumentos significativos em sua atividade fumarólica, com emissões discretas de gases e fumaça, além de pequenos tremores de origem vulcânica.
Hoje, ele permanece em um estado de "calma aparente", expelindo gases constantemente por suas aberturas internas (fumarolas), que vimos desde o cume.
