Lia Barros fotografando pinguins na Patagônia
Divulgação - Atré
Lia Barros fotografando pinguins na Patagônia

O "Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas", lançado pelo Ministério do Turismo aponta para as mudanças de um setor. Em um período após 2025, ano em que os  aeroportos brasileiros registraram o número recorde de 129,6 milhões de passageiro s, segundo dados divulgados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o público feminino busca cada vez mais por novas experiências.

Os números também revelam uma mudança de comando silenciosa e poderosa no setor. Dados da UN Tourism, agência das Nações Unidas responsável pela promoção do turismo responsável , sustentável e universalmente acessível, mostram que as mulheres influenciam ou decidem mais de  70% das escolhas relacionadas a viagens no mundo. No Brasil, essa força representa ainda uma liderança nos negócios com cerca de 57% deles liderados por mulheres, segundo o IBGE.

O novo mapa do turismo

O público feminino está redesenhando o mapa das buscas. Quando o recorte considera apenas as mulheres, os estados do Norte e Nordeste passam a concentrar maior interesse, especialmente em destinos associados à natureza, cultura local e experiências de descanso.


Do "jipe atolado" à gestão de excelência

A história de Adriane Brocker Boeira, fundadora da agência Brocker Turismo, mostra como essa vontade de  desbravar o país se transforma em império econômico. Neta de colonos alemães, Adriane cresceu inspirada pela avó, que percorria as trilhas com um facão na mão e um saco de pinhão nas costas.

"O apelido dela sempre foi a Gralha Azul... ao esconder o pinhão, ela esquece e ali nasce uma araucária" , recorda.

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Adriane Brocker na Cascata Caracol, em Canela (RS)


Em 1995, aos 19 anos, Adriane e sua prima abriram a agência para  explorar o ecoturismo em Canela (RS).

"A gente comprou um jipe, fazia trekking lá das cascatas... Só que a estrada era muito ruim na época. A gente atolava o jipe nas trilhas e ninguém queria pagar na época para andar no mato" , conta.

Após muitas tentativas e persistência para expandir os negócios , Adriane fez um estágio na Disney em 2000. Atualmente, ela retorna às origens com projetos no Vale da Lageana.

"Hoje vemos cada vez mais mulheres interessadas em experiências ao ar livre. Muitas são elas que puxam a decisão das viagens dentro das famílias" , observa.

Resistência e impacto social


Na cidade de São Paulo, Mayumi Kurimori e a sócia, Cecília Fortunatti, da Vai Viver Ecoturismo e Aventura, precisaram  enfrentar o ceticismo de um mercado que não acreditava em duas mulheres de 19 anos empreendendo.

"No início, muitas vezes sentimos que precisávamos provar constantemente nossa capacidade técnica e de gestão... Era difícil acreditar em 'duas meninas fazendo negócio' " , relata a empresária.

Hoje, a empresa das duas atende um público  majoritariamente feminino. 60% são mulheres entre 45 e 65 anos e consegue movimentar a economia local com turismo.

"Nossas clientes trabalham muito, vivem em grandes centros urbanos e encontram nas viagens uma forma de desacelerar e cuidar da saúde física e emocional. Junto a isso, quando levamos grupos para esses lugares, estamos ajudando a gerar renda e fortalecer iniciativas lideradas por mulheres" , explica Mayumi.


Mayumi Kurimori e Cecília Fortunati
Divulgação - Atré
Mayumi Kurimori e Cecília Fortunati

O ritmo humano e o valor da autonomia

Para Lia Barros, fundadora da Slow & Steady Travel, a inovação está em retirar o automatismo do mercado e fazer diferente . Com atuação no Brasil e na Argentina, a empresária desenhou uma proposta para mulheres 50+ que buscam conforto e propósito.

Após enfrentar um tratamento de câncer de mama, durante a pandemia, Lia reestruturou a empresa para que o  funcionamento dos processos fosse mais independente, Foi esse o começo da guinada nos negócios:

"Vivi o impacto da pandemia no turismo, precisei rever formatos de operação... Saia dessa fala de que 'recomeço é perda', que traz medo quando deveria trazer coragem decisória", afirma Lia, que já atendeu cerca de 900 viajantes focando no ritmo humano.

Uma transição cultural em curso

Apesar das vitórias, o setor turístico ainda lida com o que Lejania Malheiros, presidente da Abeta - Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura, chama de "transição cultural". Ela nota que percepções antigas ainda persistem, exigindo que mulheres reafirmem sua  autoridade técnica constantemente.

"Isso mostra que ainda estamos vivendo um momento de transição cultural. O espaço das mulheres no turismo vem crescendo de forma muito consistente, mas algumas percepções e hábitos ainda estão em processo de mudança", analisa Lejania.


Lejane Malheiros - Aquidauana (MS)
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Lejane Malheiros - Aquidauana (MS)

Para July Costa, diretora de comunicação da Abeta, a conexão entre o feminino e a natureza é a força motriz dessa mudança, com a força, o cuidado e a capacidade de regeneração das mulheres se convertendo cada vez mais na liderança de negócios.

“Eu tenho orgulho de fazer parte desse movimento com a Associação. Hoje, mais de 70% da diretoria da associação é composta por mulheres. É um marco que reflete não apenas representatividade, mas competência, visão e compromisso com o desenvolvimento qualificado do turismo de natureza no Brasil” , afirma.

Os recordes do turismo brasileiro nos últimos anos mostram que o mercado caminha em direção à maturidade. Com resiliência, pluralidade e sensibilidade socioambiental a atuação de mulheres dará ainda mais estrutura a essa expansão do mercado turístico. Lejania conclui dizendo que o caminho para superar as barreiras de crédito e renda — onde mulheres ainda ganham 24,4% menos que homens — passa pelo fortalecimento do coletivo. 

"Acredito muito na força do coletivo para superar essas barreiras. O associativismo tem um papel fundamental nesse caminho, porque cria redes de apoio, dá visibilidade às mulheres que atuam no setor e ajuda a fortalecer referências para as novas gerações."

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