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Histórias incluem uma volta para casa atrapalhada por um vulcão e um sufoco e tanto no frio de Londres; será que você já passou por algo parecido?

mulher sentada no chão com uma cara de preocupada
shutterstock
A reportagem do iG Turismo conversou com quatro brasileiros que já passaram por perrengues durante uma viagem

Ao planejar uma viagem , o turista pensa em todos os detalhes com calma, separa os documentos, arruma as malas, elabora o roteiro e faz outras atividades para garantir que tudo saia como o planejado. No entanto, nem sempre é possível manter as coisas em ordem e, por conta disso, algumas perrengues podem acontecer – e até mesmo no meio dos percursos.

Para provar que situações de perrengues podem acontecer com qualquer pessoa, a reportagem do iG Turismo conversou com quatro brasileiros que já passaram por algum problema durante uma viagem. Será que você já passou por algo parecido? Leia os depoimento e veja se você se identifica com alguma história relatada.

1. Cadê o meu documento?

Bruna Ortega
Arquivo pessoal
Bruna pensou ter perdido a carteira com os documentos e, entre eles, estava o RG, essencial para voltar ao Brasil


Bruna Ortega, assessora de comunicação

“Fui com meus pais pra Montevideo, no Uruguai, em agosto de 2017. A gente foi passar uma semana e eu fiz um roteiro dia por dia pra ver tudo o que a gente queria. Quando chegamos no aeroporto, fui numa loja de telefonia, comprei um chip e sentei num banco do saguão do aeroporto para trocar o chip do celular e configurar o aparelho.

Quando terminei, pedi um Uber do mesmo lugar e fomos para o apartamento que alugamos. Isso era mais ou menos no meio do dia. Chegamos lá, arrumamos as coisas e notei que minha bolsinha de viagem tinha sumido. É uma bolsa tipo carteira com uma alça que uso em todas as viagens.

Dentro dela estavam um cartão de crédito, o voucher da passagem e meu RG, o único documento que eu tinha levado.  A primeira coisa que pensei foi ter perdido no caminho do Uber até o apartamento. Refiz o caminho e não achei. Chamei a motorista  no WhatsApp e perguntei se havia deixado no carro dela, mas ela negou.

Tentei falar no aeroporto e os atendentes ficavam transferindo a ligação para vários setores, sem responder meu questionamento. Me conformei com a perda e comecei a procurar na internet o que era preciso fazer. Descobri que deveria ir no consulado brasileiro para avisar da perda e fazer um documento oficial para conseguir sair do Uruguai e entrar de volta no Brasil.

Como cheguei a Montevideo no sábado, precisei esperar até segunda pra ir no consulado. Chegando lá, fui atendida pelo cônsul, que ficou preocupado porque, segundo ele, o RG brasileiro era valioso no mercado do crime e eu deveria fazer BO da perda assim que chegasse no Brasil.

Ele me orientou a ir em uma delegacia de Montevideo para registrar a perda e, a partir desse documento, emitiu um outro, no consulado, para que eu pudesse retornar a São Paulo. Perdi toda a manhã da segunda cuidando disso. E meus pais junto comigo. Me lembro que neste dia a gente ia em algum lugar que depois não conseguimos mais ir. Não lembro onde era.

Depois disso, curtimos a viagem normalmente. No sábado seguinte, chegamos no aeroporto para pegar o voo de volta e soubemos que estava atrasado por causa do mal tempo. Resolvi então, para eliminar o último fio de esperança, perguntar da minha carteira no setor de achados e perdidos do aeroporto. E adivinha???? Estava lá!!!

Alguém a encontrou em um dos bancos do saguão do aeroporto. Provavelmente, no que eu tinha sentado pra trocar o chip do celular. O voo foi cancelado no sábado e transferido para o dia seguinte. No domingo, usei meu RG original para pegar o voo de volta para o Brasil como se nada tivesse acontecido!”

2. Coberta com uma toalha de banho para dormir no frio de Londres

Luana Escardovelli
Arquivo pessoal
Luana ficou perdida após encontrar ruas bloqueadas e ainda precisou passar uma noite em um quarto que não tinha a chave

Luana Escardovelli, coordenadora de estúdio

“Fui para Londres e, sem saber falar inglês, acertei todos os detalhes com uma agência no Brasil. Cheguei em um sábado e, após passar pelo transporte público, cheguei na estação que era na rua da minha residência, mas era final do Campeonato Inglês e estava tudo fechado, com muita gente e torcida organizada. E eu, com duas malas, não sabia chegar.

Eu tinha visto no mapa era só seguir reto e virar à esquerda, mas, como estava bloqueado, eu não sabia chegar de outro jeito. Passei por uma escadaria. Precisei falar com um monte de gente. Eu mostrava foto, apontava o prédio, porque eu o via de longe. Depois de muito tempo, consegui chegar lá.

Quando cheguei na recepção, entreguei a papelada e, após duas horas, a recepcionista não me entregava a chave e eu não entendia o que estava acontecendo. Depois, ela disse que teve um problema no meu quarto emergencial – e isso tudo via Google Tradutor. Minha mãe ligou na agência de intercâmbio aqui no Brasil, mas já estava fechada.

Com isso, falaram que eu iria ficar em um quarto provisório e que no dia seguinte pela manhã eu já estaria no lugar certo. Lá não tinha nada. Eu havia pago por um ambiente com panelas, roupas de cama e tudo mais. Tive que dormir em um baita de um frio de Londres em um colchão sem nada e me cobri com a toalha de banho que eu tinha e algumas blusas de frio que eu havia levado.

Não tinha chave, ou seja, qualquer pessoa poderia entrar lá. No outro dia, ainda falaram que o problema não tinha sido resolvido. Tive que ir para a escola e deixei todas as minhas coisas no cômodo – e sem saber quem iria entrar lá. Como não tinha a chave, eu precisava pedir para alguém da recepção abrir quando eu chegava.

Uma moça da escola, que era de Portugal, entrou em contato e consegui resolver. Essa foi uma conquista minha e, quando comecei a perceber o problema, entrei em desespero. Mas, foi no perrengue que eu percebi a força que eu tenho. Depois, chorei e vi que tinha conseguido passar por isso sozinha.”

3. Vulcão atrapalha planos de chegar em casa

Cristiane Barros
Arquivo pessoal
Cristiane encontrou problemas ao voltar para casa; isso porque um vulcão provocou o fechamento de diversos locais

Cristiane Barros, guia de turismo

“Foi uma viagem que fizemos a Paris há alguns anos. Eu moro na Itália e, no dia da gente retornar para Florença, os aeroportos da Europa foram fechados por causa das cinzas do vulcão da Islândia. Não tinha como voltar pra casa e nem alojamento. Todos os hotéis não tinham disponibilidade.

Tentei retornar de trem e não foi possível porque não havia bilhetes disponíveis para nenhuma outra cidade da Europa. Alugar um carro também não deu certo. Pensei em entrar em contato com o consulado italiano, já que eu também tinha cidadania italiana.

Vi nos jornais que a Inglaterra estava mandando navios para resgatar os ingleses. Quem sabe a Itália também teria um plano B. A funcionária do consulado me disse pra eu entrar no trem que ia pra Itália sem bilhetes. O máximo que aconteceria era me colocarem pra fora. Depois, eu poderia pegar o próximo trem e ver até onde eu conseguiria ir sem ser expulsa.

Fiquei com medo. Estava eu e o meu marido sentados há horas em cima das malas na estação de trem de Paris sem nenhuma perspectiva de voltar pra casa e sem saber onde poderíamos passar a noite. Peguei o celular e postei em uma rede sociai a nossa foto em cima das malas com os dizeres ‘sem beira e sem eira’.

Uma hora depois, uma amiga me liga dizendo que, em um grupo de viagens italiano, um rapaz indo pra Itália, saindo de Paris, estava oferecendo carona em troca de dividir as despesas de gasolina e pedágio. Foi a salvação. Ligamos para ele e marcamos o local do encontro. Ao chegarmos lá, tinha uma multidão de pessoas ao redor do carro do italiano

Um verdadeiro leilão pra ver quem ia de carona. Quem dava o lance maior ganhava a carona. O carro era grande, de sete lugares, mas com as malas... Sobraram apenas cinco. No final, apelamos para o bom senso do italiano, dizendo que ele tinha fechado com a gente primeiro e que pagaríamos todas as despesas.

No final, conseguimos juntamente com um outro casal de Italianos que iam para Roma. O nosso motorista ia para Turim. Chegamos em Turim as duas da manhã e só tinha trem para Florença às 6h. Junto com o outro casal, paramos num pub e ficamos bebendo até o dia amanhecer. Finalmente, às 7h, conseguimos pegar um trem que nos deixaria em casa.”

4. Deixar a família em prantos após falta de comunicação

Leandro Teciano
Arquivo pessoal
Leandro não conseguiu se conetar à internet ao chegar nos Estados Unidos e passou por perrengues até chegar ao destino

Leandro Teciano, analista de comunicação

“Em 2017, fui fazer Intercâmbio para os Estados Unidos e ficar em uma casa de família. Quando fui pesquisar a passagem , quis economizar. Direto para o aeroporto de Filadélfia, que era o meu destino, o valor estava R$ 1,3 mil mais caro do que ir para Nova Iorque. Como os locais são próximos, comprei para NYC e, de lá, pegaria um ônibus até a cidade e chegaria às 9h.

Meu voo chegou antes do previsto e eu estava com meu celular para usar o wi-fi, porque não tinha habilitado o chip para usar fora do país. Quando cheguei, ele simplesmente não funcionou. Não tinha internet, mas havia impresso algumas opções de roteiros. Peguei o trem do aeroporto e passei a seguir as informações.

Deveria descer em treze estações e fui contando. Quando chegou na 13º, não batia com o nome que estava no roteiro. Encontrei um brasileiro com um mapa e perguntei se poderia dar uma olhada. Quando vi, eu estava com o nome da última estação, que indica o sentido. Eu estava com duas malas gigantescas.

Tive que descer e mudar o sentido. Depois de chegar na estação correta, a próxima linha que deveria pegar estava em construção. Precisei perguntar como eu fazia para chegar na estação de ônibus para ir até Filadélfia e tive que fazer um caminho completamente diferente. Meu roteiro já não estava valendo mais de nada.

Precisei pegar um ônibus para chegar onde precisava. Um cara me perguntou se eu era brasileiro e me jogou para dentro do veículo que ia até o meu destino. Cheguei e ainda precisei pegar um táxi para ir até a residência. Lá, às 14h30, o wi-fi conectou. Fiz a ligação e meu pai, minha mãe e meu irmão estavam chorando, achando que o avião tinha caído . Foi ridícula a chegada no país – e com tantos perrengues.