
Destinos lotados e resorts faturando alto nem sempre são sinônimos de riqueza para a população local. Um fenômeno conhecido como "vazamento econômico" tem acendido o alerta no setor de viagens. Na dinâmica do turismo de massa, a maior parte do dinheiro gasto pelos visitantes não permanece no destino. É escoada para grandes redes externas e fornecedores de fora, restando às comunidades apenas a sobrecarga estrutural e os empregos sazonais.
Este fenômeno acontece em algumas regiões turísticas do Brasil. Uma delas é a Ilha do Ferro. A região, localizada em Pão de Açúcar, sertão do Alagoas se destaca pela produção de artesanato, mas continua como um vilarejo com a mesma estrutura, mas com a frequente entrada de turistas, os imóveis ficaram supervalorizados de forma que os moradores não conseguem comprar uma casa simples sem gastar muito dinheiro. Além disso, empresários ricos começam a ver no local um forte potencial para a construção de hotéis e resorts.O iG conversou com o especialista em turismo e Fundador do Planeta EXO, Lucas Ribeiro sobre esse fenômeno conhecido como "Vazameto Econômico" que, segundo ele, está ligado ao desenvolvimento da região:
“Infelizmente, esse fenômeno é algo comum quando você tem um turismo, mesmo em lugares remotos, onde você não tem um planejamento de desenvolvimento daquela região. Muitas vezes as pessoas de fora compram casas para fazer Airbnb e a vida, a hospedagem, a riqueza não fica ali na região a riqueza vai para essa pessoa que tem o imóvel como investimento.”

Segundo o especialista, esse fenômeno de supervalorização de imóveis e saída de investimentos da região acontece em cidades cujo turismo é mundialmente famoso:
“Nós estamos falando da Ilha do Ferro, mas lugares mundialmente conhecidos como Veneza é um exemplo. A cidade perdeu essa identidade, essa alma porque virou um lugar tão turístico, onde tudo está tão caro que as pessoas que moravam ali não tiveram condições de continuar e tiveram que se mudar. Amsterdã foi outra cidade na Europa que também sentiu o impacto do turismo. As autoridades tiveram que fazer um limite de quantidades de noites permitidas no Airbnb, porque as pessoas preferiam colocar o aluguel por temporadas curtas do que para alguém morar.”
Movimento contrário
O T urismo de Base Comunitária (TBC) incentiva um movimento contrário ao turismo de massa e se consolida como a alternativa mais eficaz para gerar desenvolvimento real de comunidades menores. O formato de turismo é gerido pelas próprias comunidades, de forma a promover o desenvolvimento social, econômico e preservar a cultura de pequenas regiões. O modelo de negócio também permite que os moradores façam parcerias com instituições, agências e produtoras de viagens.

Empresas como a Planeta EXO, por exemplo, fazem parcerias com comunidades turísticas em diferentes regiões do Brasil. Segundo eles, 80% do valor das reservas são retidos diretamente na comunidade local. Segundo o empresário, o turismo de massa pode oferecer riscos:
"Nós entendemos que o destino só é verdadeiramente rico se a sua comunidade também prosperar com o turismo. O modelo de massa gera volume, mas esgota os recursos naturais e empobrece a região a longo prazo", explica Lucas.
Turismo responsável
O público brasileiro começou a despertar para a preocupação com propósito e responsabilidade ambiental. O setor já registrou um aumento significativo na procura por destinos de natureza. Dados levantados pelo 10º Relatório de Viagens da Booking revelam que 98% dos viajantes do país planejam roteiros mais sustentáveis.
Muitas empresas procuram estabelecer um modelo de negócio mais sustentável e que vai além da escolha do destino. São negócios que retém a receita localmente de forma que o turismo se transforma e uma renda fixa ao invés de funcionar por altas temporadas. Dessa forma, a população local não fica dependente de atividades como a agricultura ou a pesca predatória.

Essa transformação é vivenciada na prática por Dona Dete, moradora do Oásis Baixa Grande, nos Lençóis Maranhenses. Ela relembra as dificuldades do passado e como a nova economia movimentou toda a região:
"A vida era muito difícil, eu vivia da pescaria. Tinha que andar horas a pé, com peso nas costas, pegando muito sol para criar meus filhos. Depois que o turismo chegou, foi a melhor coisa. Melhorou não só para mim, mas para todo mundo. Hoje, meus filhos trabalham comigo trazendo as coisas, outro já tem até agência de turismo. Ajudo meus netos e, quando o movimento é grande, a gente coloca mais funcionários daqui mesmo para ajudar. O turismo mudou a nossa vida e traz trabalho para a comunidade inteira, e a gente recebe todo mundo com amor", relata a anfitriã.

Sustentabilidade econômica para o turista
Além de garantir o empoderamento e a autonomia financeira das comunidades que gerenciam as experiências, o combate ao "vazamento econômico" encurta a cadeia de intermediários, o que reflete diretamente no bolso do viajante. Então, agências das comunidades podem oferecer pacotes de imersão profunda na natureza por valores mais competitivos do que o de grandes agências.
Há agências de base comunitária que oferecem pacotes como a Travessia do Vale do Pati (BA) ou a Travessia dos Lençóis Maranhenses (MA) a preços que variam entre R$ 2.100 a R$ 3.200 por pessoa com duração de 3 a 4 dias.
Outras opções incluem uma imersão de 3 dias na Amazônia (AM) com pensão completa, hospedagem em bangalô privativo e guias nativos por R$ 3.095 por pessoa; ou uma expedição de 6 dias, também com pensão completa e hotéis, desbravando o Jalapão (TO) a partir de R$ 5.085 por pessoa.

Exemplos reais
A criação de Parques Nacionais também pode ser uma forma de proteger comunidades locais do turismo de massa. Um exemplo é o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, e o Parque Nacional da Chapada Diamantina, na Bahia. Segundo Lucas Ribeiro, neste tipo de unidade de conservação é proibida a construção de empreendimentos turísticos, mas a comunidade local pode continuar morando:
“Essas duas regiões específicas, por exemplo, por serem Parques Nacionais, não se permite a construção de hotéis ou casas. Só ficam os moradores. Isso faz com que pessoas que já moravam na região possam usufruir do turismo de forma mais justa, porque são elas que se beneficiam com o crescimento do turismo na região. Lugares que têm essa proteção e regulamentação dos Parques florescem no aspecto do desenvolvimento social. Então, você vê as famílias da região prosperaram. É esse tipo de turismo que tem que ser incentivado” afirmou Lucas.