Representação de Tupac Katari
Pedro Hauck
Representação de Tupac Katari

Quem acompanha a  situação na Bolívia deve ter se deparado com um nome que ressurge com força: Tupac Katari. É assim que se auto intitula a organização de camponeses organizados que está em luta contra o governo de Rodrigo Paz. Mas quem foi Tupac Katari e por que sua história ressurge neste momento?

Tupac Katari (cujo nome de nascimento era Julián Apaza Nina) foi um dos líderes indígenas mais importantes da história das Américas. Em 1781, ele liderou uma gigantesca insurreição aimará que colocou a coroa espanhola em xeque no Alto Peru (atual Bolívia), trabalhando em paralelo com as revoltas de Tupac Amaru II no Peru.

Órfão desde a infância, Apaza trabalhou como comerciante de coca e panos, o que lhe permitiu viajar pela região e ver de perto o sofrimento do seu povo sob o sistema colonial (trabalho forçado nas minas, taxas abusivas e humilhação). Ao se rebelar, ele adotou o nome de Tupac Katari para homenagear dois grandes mártires: Tupac Amaru II e o líder quíchua Tomás Katari.

O Cerco a La Paz (1781)


O plano de Tupac Katari não era tomar La Paz em uma batalha campal direta, mas sim sufocar a cidade por isolamento. Como La Paz fica encravada em uma gigantesca depressão geográfica (uma bacia profunda abaixo do altiplano), a topografia era perfeita para uma tática de cerco.

Katari montou seu quartel-general no alto, na região de El Alto, de onde conseguia visualizar e controlar todas as saídas e entradas da cidade colonial. O cerco aconteceu em duas etapas brutais ao longo de 1781:

O Primeiro Cerco (Março a Julho — 109 dias)


Durante o primeiro cerco, a escassez de alimentos levou La Paz ao caos absoluto, forçando os moradores e tropas a consumirem animais domésticos e até couro para sobreviver, enquanto doenças se espalhavam. Nesse período, destacou-se a liderança militar de Bartolina Sisa e Gregoria Apaza, que comandaram as tropas estrategicamente. Embora reforços vindos de Buenos Aires tenham trazido um alívio temporário em julho, a resistência rebelde logo se reorganizou para uma nova investida.

Em março de 1781, Katari reuniu um exército impressionante que chegou a contar com mais de 40.000 combatentes indígenas. Eles bloquearam completamente todas as estradas de suprimento.

O Segundo Cerco e a Tática da Inundação (Agosto a Outubro)


Pouco tempo depois, Katari retornou e fechou o cerco novamente. Desta vez, os rebeldes tentaram uma engenharia militar ousada: construíram uma barragem artificial represando o rio Choqueyapu na altura de Achachicala (acima da cidade).

A intenção era acumular uma quantidade colossal de água e liberá-la de uma vez para que a enxurrada destruísse as defesas, pontes e trincheiras espanholas na cidade lá embaixo, mas a represa cedeu antes da hora em outubro. Embora tenha causado destruição parcial e pânico, não desalojou as forças espanholas por completo, e logo em seguida novos reforços militares espanhóis chegaram para sufocar a rebelião.

O Fim de Katari e o Legado


Traído por um de seus colaboradores mais próximos em troca de recompensa e perdão dos espanhóis, Tupac Katari foi capturado em novembro de 1781.

Em 15 de novembro de 1781, na localidade de Peñas, ele foi condenado à morte por esquartejamento — amarrado pelos braços e pernas a quatro cavalos que correram em direções opostas. Sua esposa Bartolina Sisa e sua irmã Gregoria Apaza foram executadas pouco tempo depois.

Tupac Katari na nota de 200 Pesos bolivianos
Banco Central da Bolívia
Tupac Katari na nota de 200 Pesos bolivianos

Atualmente, o legado de Katari permanece vivo, sendo sua imagem e de sua esposa, homenageada nas cédulas de 200 pesos bolivianos. Além disso, suas táticas de resistência continuam a ser aplicadas na Bolívia contemporânea, onde bloqueios de estradas são frequentemente utilizados em protestos. No cenário de crise política atual, o uso desses bloqueios tem dificultado severamente o abastecimento de combustíveis, alimentos e outros produtos essenciais na cidade de La Paz.

Antes de morrer, Katari pronunciou uma frase célebre que se tornou o maior lema de resistência indígena dos Andes:

"A mim me matam, mas amanhã voltarei e serei milhões."

— Tupac Katari, 1781

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