
Há um mês, os bolivianos não conseguem circular livremente por seu país, com alimentos e produtos essenciais sendo impedidos de chegar aos seus destinos. Os bloqueios nas rodovias, mais do que destruir a economia nacional, dividiram o país em dois: aqueles que ainda lutam contra o presidente Rodrigo Paz e aqueles que agora lutam apenas para sobreviver.
Rodrigo Paz, o novo presidente da Bolívia, assumiu em novembro do ano passado com um grande desafio. Pegou um país quebrado que há dois anos enfrentava uma grave crise de falta de combustíveis. O motivo, um subsídio estatal que pagava metade dos custos da gasolina e do diesel, barateava o custo para a população, mas onerava o estado, que, devido a uma crise econômica, ficou sem dólares para importar o produto.
O presidente anterior, Luis Arce Catacora, ex-ministro da economia de Evo Morales, que rompeu com o ex-mandatário, recorreu a medidas reconhecidamente ineficazes para controlar a inflação. Entre essas medidas estavam a proibição de exportação de commodities agrícolas, numa tentativa de controlar os preços no mercado interno, e o controle artificial do câmbio oficial para conter a desvalorização, criando um mercado paralelo de dólares e deixando a Bolívia cara para quem trazia moeda estrangeira. Tudo isso contribuiu para o país ficar sem condições de importar combustíveis, sendo que a Bolívia só produz 40% do que consome e o restante precisa ser trazido de fora.
Com a promessa de implementar o "capitalismo para todos", Rodrigo Paz ascendeu ao poder amparado por uma aliança com Edmond Lara. O ex-capitão da polícia, que conquistou notoriedade nas redes sociais ao denunciar o sistema vigente, acabou sendo excluído dos quadros da corporação, mas logrou êxito ao conquistar uma cadeira no parlamento. Foi Lara quem pavimentou o caminho para Paz junto às bases populares, assegurando o apoio decisivo de camponeses e trabalhadores vinculados aos sindicatos de trabalhadores.

Entretanto, a realidade se voltou contra Rodrigo Paz a poucos meses de vestir a faixa presidencial. Ele foi obrigado a acabar com o subsídio na gasolina, o que fez o preço do combustível saltar de 3 Bolivianos para 6 Bolivianos (equivalente a cerca de 3,5 reais na época). Resignada, a população não teve outra opção senão aceitar. Contudo, mal a distribuição do precioso líquido se regularizou, os Estados Unidos invadiram o Irã, e um novo aumento deixou a população enfurecida, elevando a gasolina a 10 bob (5 reais). A revolta, no entanto, foi deflagrada por uma importação malsucedida de combustível de baixa qualidade que resultou em milhares de carros danificados, sendo esse o estopim da crise.
Inicia a crise
No dia 1 de maio, a Central Obrera Boliviana (COB), na figura de seu presidente, Mario Argollo, anunciou uma greve geral, exigindo um aumento de 20% no salário mínimo. Ao mesmo tempo, a liga dos camponeses, os Tupac Katari, aderiu à paralisação, demandando o fim do projeto de lei 1720, que permitia o uso de terras distribuídas na reforma agrária de 1953 como garantia em empréstimos agrícolas. Na sequência, o sindicato dos transportistas, entrou na briga para receber ressarcimentos pelos problemas causados pelo combustível de má qualidade, e os professores rurais juntaram-se ao movimento exigindo melhores salários.

Cardapio em restaurante em El Alto mostra a falta de opções
O método de protesto empregado baseia-se no fechamento sistemático de vias utilizando pneus queimados, entulho e pedras, o que impede totalmente o fluxo de pessoas, alimentos, produtos em geral e combustíveis. Os manifestantes ocupam pontos estratégicos, como pontes, cruzamentos e as principais rodovias que conectam o país, isolando cidades inteiras e asfixiando o abastecimento nacional.
O fechamento foi tão radical que não permitiu nem a chegada de insumos hospitalares às cidades e até mesmo ambulâncias com doentes, provocando até agora quatro mortes de pacientes que não conseguiram chegar aos hospitais. Sem caminhões, vários produtos alimentícios deixaram de chegar e as prateleiras dos mercados e feiras passaram a ficar sem alimentos. O Frango que antes custava 20 bob o quilo, passou a custar 120. Frutas e verduras desapareceram e o cardápio de restaurantes passou a ficar com menos opções.
A estratégia de negociação e o impasse
Os bloqueios, que asfixiam a economia ao interromper o fornecimento de combustíveis e encarecer drasticamente a cesta básica, persistem sem reação enérgica do governo. Rodrigo Paz optou por não apelar à violência para desbloquear as rodovias. Em vez disso, ele convocou os líderes dos revoltosos para negociar, mas até o momento, eles se negaram a aceitar as propostas do governo.
Sem acordo, o governo tentou negociar um "corredor humanitário". Argollo recebeu a proposta, levou-a para discussão com a base, e o resultado foi negativo: ninguém pode passar, nem mesmo insumos hospitalares ou pacientes.
Diante da inércia das negociações, as forças policiais e o exército agiram para desobstruir, por meio do uso da força, a rodovia que liga La Paz a Oruro, resultando no primeiro embate físico. Contudo, assim que as tropas liberaram o trajeto, os manifestantes retomaram seus postos, selando o fracasso da estratégia governamental de viabilizar a passagem de insumos. Numa nova investida, ocorrida cerca de dez dias após o incidente inicial, o contingente policial logrou avançar meros trinta quilômetros antes de ser compelido a retroceder.
Mesmo diante de um quadro tão severo, os embates físicos têm ocorrido de forma pontual. Um desses episódios de destaque se deu em La Paz, quando os grupos de protesto buscaram marchar em direção à sede do governo, sendo repelidos pela polícia com bombas de gás. Eu estava presente no local durante o conflito e pude notar que, assim que os manifestantes se dispersaram, o comércio das redondezas voltou a funcionar como se nada tivesse acontecido.
As reinvidicações mudam
El Alto, cidade da região metropolitana de La Paz, considerada a periferia da capital, o local mais popular e mais pobre, é o epicentro do conflito. As principais vias de entrada da cidade estão bloqueadas e os líderes do movimento impedem que o comércio abra as portas. São tantos bloqueios na cidade que a população é obrigada a caminhar para trabalhar, ou usar o teleférico, que é o único meio de transporte que funciona na cidade.
Eu andei na linha azul de teleférico até a região de Rio Seco, onde uma moderna avenida recém-entregue está completamente fechada. Passei na frente do terminal de ônibus vazio e observei os pontos de bloqueio, que permanecem 24 horas impedindo o cidadão de circular.
La Paz apresenta uma certa normalidade. O comércio está aberto, mesmo que tenha prateleiras mais vazias. A população já se organiza contra os bloqueios, há dias em que os bloqueadores protestam e outros em que a população protesta contra os bloqueadores. Há poucos carros nas ruas e muitos nas filas para abastecer. Em média leva-se 3 dias na fila para conseguir encher o tanque.
Passado tanto tempo, as pessoas estão cansadas. Muita gente deixou de apoiar os manifestantes. Várias centrais sindicais deixaram de aderir aos protestos ao notar que ele castiga justamente a eles mesmos. O Governo cedeu e revogou a lei 1720, deu bônus salarial aos professores rurais, mas agora a reivindicação é apenas uma: A renúncia de Rodrigo Paz.
O drama do turismo e montanhismo
Passei duas semanas isolado ministrando um curso de montanhismo em um refúgio no Huayna Potosi. Logo que cheguei, tendo que tomar caminhos alternativos no meio do altiplano boliviano, achei que nestas duas semanas este tormento iria acabar, mas não. Tive que voltar de noite, com as luzes do carro apagadas, desviando de bloqueios pelos caminhos alternativos aos alternativos.
Não tive problemas com os bloqueadores nestes 31 dias de crise. Atravessei de Villa Sajama, na fronteira com o Chile, até La Paz por caminhos alternativos de terra. Passamos por bloqueios que nos obrigaram a negociar, algumas vezes pagando. Depois fui para o Chacaltaya e o Huayna Potosi, duas montanhas populares perto de La Paz, onde passei apenas por bloqueios físicos, sem ter que enfrentar manifestantes furiosos. Mas tive sorte.

É quase impossível conhecer locais turísticos tradicionais perto de La Paz, como as ruínas de Tiwanaku, a cidade de Copacabana nas laterais do lago Titikaka, ou ir por terra até o Salar de Uyuni ou tentar atravessar a fronteira com o Peru.
Para quem gosta de montanhismo como eu, há poucas opções. Até o último final de semana era possível ir apenas ao Huayna Potosi, mas no último dia 30, um incidente violento abalou a comunidade. Pela madrugada, um comboio de vans trazendo escaladores da montanha foi pego de surpresa por bloqueadores que apedrejaram os carros. Não deixaram nenhuma pessoa ferida, mas todos os vidros ficaram quebrados.
O impasse político e a simbologia da revolta
O impasse atingiu um novo ápice no último domingo, quando a COB, após reunir suas entidades filiadas, rejeitou formalmente o diálogo com o governo, embora tenha cedido na abertura de um corredor humanitário para o transporte de alimentos e insumos hospitalares para La Paz. Este movimento ocorreu após o colapso de uma rodada de negociações agendada pelo governo para o dia anterior, que acabou cancelada.
Em uma tentativa desesperada de destravar as conversas, a justiça chegou a revogar os pedidos de prisão de Mario Argollo e Vicente Salazar, oferecendo-lhes salvo-conduto para negociar. Contudo, a COB e os Tupac Katari permanecem irredutíveis, ignorando as concessões e mantendo o foco em uma única e definitiva exigência: a renúncia imediata do presidente.
A estratégia de Rodrigo Paz tem sido a de evitar confrontos diretos. O governo se limita a defender a Praça Murillo, sede do poder, apenas em caso de tentativa de invasão. No entanto, os bloqueios nunca são confrontados pela polícia. As únicas ações para desobstruir vias partem da própria população, que, assumindo o papel das forças de segurança, têm confrontado os manifestantes para liberar ruas e rodovias.

A estratégia de Rodrigo Paz é nitidamente a de exaurir os manifestantes, enquanto o governo insiste em tentar o diálogo com quem se nega a fazê-lo. Paz finge governar desde o Palácio Presidencial, curiosamente chamado de "Palácio Quemado" desde uma revolta em 1875, agindo em um país que detém o recorde de golpes de Estado na América do Sul.
Enquanto isso, as organizações manifestantes simulam um verniz democrático ao exigir novas eleições, convenientemente esquecendo que apoiaram o então candidato há apenas seis meses. É notável, por exemplo, que a liga camponesa adote o nome Tupac Katari, uma homenagem ao líder indígena Aymara que, em 1781, comandou o maior cerco à cidade de La Paz contra os espanhóis, uma resistência que durou 109 dias.
Enquanto isso, o preço da gasolina que era de 10 bob com a guerra do Irã passou a 40 bob com os bloqueios, que não tem previsão de acabar.
