
A chegada de maio na Bolívia marca o fim das chuvas e o surgimento de um céu azul límpido. O clima frio, porém suportável, torna-se um convite irresistível para explorar este que é o mais emblemático dos países andinos, embora sua vasta geografia também contemple a Amazônia, o Chaco e o Pantanal.
Minha conexão com essa paisagem diversa concentra-se nos Andes, região que frequento anualmente há 25 anos. Como guia de montanha, sinto-me em casa na cordilheira boliviana. Sou um dos poucos alpinistas no mundo a ter conquistado os 14 picos mais altos do país, uma trajetória que me trouxe não apenas familiaridade com o terreno, mas também o respeito e o carinho do povo boliviano.
Contudo, o cenário atual é de profunda turbulência política, o que tem tornado a experiência de viajar pela Bolívia um desafio considerável. Diversas frentes sociais e organizações sindicais, em franca oposição às diretrizes governamentais, optaram por interromper o tráfego nas principais rodovias. Esses bloqueios, que já se estendem por quase dez dias, restringem severamente o direito de locomoção e mergulham a nação em uma crise institucional, alimentando incertezas quanto à estabilidade democrática do país.
Minha trajetória na Bolívia é pontuada por encontros com bloqueios de estradas, mas o que testemunho agora é inédito para mim. Em ocasiões anteriores, essas manifestações tendiam a ser episódios isolados e regionais, motivados por demandas locais específicas e com resoluções relativamente rápidas. Eram obstáculos temporários em uma geografia já complexa.
O cenário atual, contudo, reveste-se de uma gravidade alarmante. Não estamos mais diante de protestos setoriais, mas de um movimento coordenado em escala nacional que paralisou as artérias vitais do país. O objetivo declarado dessas mobilizações transcende a pauta de reivindicações sociais: há uma intenção explícita de forçar a queda do presidente Rodrigo Paz. É uma situação paradoxal e crítica, visto que Paz foi eleito democraticamente há menos de seis meses. O que mais intriga e preocupa a sociedade boliviana e os observadores internacionais é a aparente paralisia do Executivo; o presidente mantém uma postura de inércia, sem oferecer respostas eficazes ou reações políticas que possam desarmar essa crise que ameaça a estabilidade institucional da nação.
Bolívia no contexto histórico
A Bolívia foi o último país da América do Sul a conquistar sua liberdade, após uma exaustiva e prolongada guerra de independência. Até o ano de 1825, a economia do país estava profundamente debilitada, com o esvaziamento sistemático da riqueza de prata das minas de Potosí. O início da república foi marcado por uma severa crise econômica e pela gestão ineficaz de seu primeiro presidente, o General Sucre. Com um estado praticamente ausente, a vasta maioria da população subsistia de forma isolada, preservando seus hábitos tradicionais e permanecendo marginalizada da estrutura política e social dominada pela minoria branca nos centros urbanos.
Com uma população indígena vivendo no campo, eles se isolaram, mantiveram preservado seus costumes e idioma enquanto que na cidade, a economia frágil não atraiu imigrantes, fazendo com que a população do jovem país fosse mais de 90% formada pelos indígenas, enquanto os descendentes de europeus formaram uma minoria e justamente era essa minoria que governava o país, gerando um conflito social e étnico. De um lado, os indígenas, chamados de “Kolla”, eram impedidos de viver nas cidades, e os "cambas", brancos descendentes de europeus, detinham a economia e o poder político.

Pode ser um fato pouco conhecido, mas a estrutura social boliviana manteve um rígido apartheid étnico que perdurou por mais de um século. A exclusão da população indígena, majoritária no país, era formalizada: eles não apenas eram marginalizados da vida política e econômica, mas também estavam proibidos de residir em muitas áreas urbanas, mantendo-se como cidadãos de segunda classe. Essa segregação só foi confrontada e, em grande parte, desmantelada com a Revolução Nacional de 1952, liderada pelo governo de Víctor Paz Estenssoro. Esse levante representou um marco histórico, concedendo o voto universal e iniciando a reforma agrária, atos que, pela primeira vez, integraram formalmente a população indígena na vida política e social da Bolívia, rompendo com séculos de isolamento e dominação da oligarquia branca.
No entanto, mesmo que a Revolução de 1952 tenha sido um marco positivo na história boliviana, a maioria da população não se beneficiou de seus resultados econômicos, e a pobreza persistiu entre os indígenas. Com a evolução urbana, essa população começou a se mudar gradualmente para as cidades, ocupando as encostas de La Paz e dando início à colonização de El Alto, uma vasta cidade periférica que hoje ultrapassa um milhão de habitantes e se consolidou como o lar da população mais pobre e majoritariamente indígena do país. Este processo de migração e urbanização reflete a continuidade das disparidades sociais, apesar das conquistas políticas.
Nesse cenário de profundos contrastes foi que a Bolívia se revelou a mim. A capital, La Paz, era literalmente um país de dois mundos encaixado em um vale: a porção mais baixa e protegida da cidade abrigava a minoria rica e de descendência europeia, ostentando um estilo de vida que, em suas áreas mais abastadas, lembrava uma "Califórnia andina". Em violenta oposição, no alto da bacia, estendia-se a miséria de El Alto, a grande cidade periférica com mais de 1 milhão de habitantes e lar da população mais pobre e majoritariamente indígena, em nítido contraste com a desorganização e a arquitetura colonial decadente do centro de La Paz.
Minha primeira visita, em 2001, me inseriu diretamente nesta dura realidade. Minha jornada começou com o famoso "trem da morte" e continuou subindo os Andes de ônibus, onde estive sempre ao lado da população local, o que me permitiu conhecer de perto sua difícil e complexa realidade social.
O milagre econômico de Evo Morales
A presidência de Evo Morales, o primeiro mandatário de origem Aymara na história da Bolívia, representou uma mudança profunda na estrutura social e econômica do país. Seu governo foi marcado por investimentos significativos em educação e infraestrutura, que impulsionaram o desenvolvimento de regiões historicamente negligenciadas. Em El Alto, esse período fomentou o surgimento de uma nova "Classe C" vibrante, composta majoritariamente por indígenas que ascenderam economicamente. O maior símbolo dessa transformação são os "Cholets", edifícios de arquitetura exuberante e colorida que combinam residência, salões de festas e comércio, refletindo o novo poder aquisitivo e o orgulho cultural da burguesia Aymara.
A transformação boliviana não se limitou à esfera social e econômica; ela foi radicalmente visível na infraestrutura. Minhas primeiras expedições, entre 2001 e 2002, foram caracterizadas por longas e árduas viagens em ônibus precários que serpenteavam por estradas de terra, onde o deslocamento era uma aventura em si. No entanto, quando retornei em 2007 e 2009, dirigindo meu próprio carro pela Bolívia, o contraste era gritante. Muitas dessas vias já estavam asfaltadas, e algumas rotas estratégicas haviam sido duplicadas, um testemunho palpável do investimento em infraestrutura realizado pelo governo de Evo Morales. A culminação desse progresso veio com a implantação do sistema de teleféricos em La Paz e El Alto, que não só revolucionou o transporte urbano, mas também transformou a capital andina em um símbolo de modernidade progressista. O país parecia ter trocado o estigma da "diferença" pela celebração da "diversidade".
Viajar pela Bolívia se tornou mais fácil e, francamente, mais prazeroso. O reverso dessa moeda, porém, era que o progresso trouxe um custo. A Bolívia de Evo Morales se tornou mais cara, chegando a superar, em termos de custo de vida para o viajante, a vizinha e outrora mais desenvolvida Argentina, cujo peso já apresentava sinais de enfraquecimento. Embora, é claro, a pobreza e a precariedade das construções de El Alto e da periferia de La Paz não tenham deixado de existir.
O milagre econômico boliviano, que sustentou as reformas sociais de Evo Morales, teve sua base na alta global dos commodities em meados dos anos 2000, com o gás natural injetando receitas bilionárias no tesouro nacional. No entanto, o que parecia ser a solução para o desenvolvimento — o subsídio generalizado do combustível — era, sem que eu soubesse em 2014 (ano de minha ultima vez na Bolívia dirigindo meu jipe), o prenúncio do fim da prosperidade boliviana. A manutenção de preços artificialmente baixos para a gasolina e o diesel foi uma estratégia crucial para controlar a inflação, estabilizar os custos operacionais e garantir o baixo custo de vida para a população, um pilar da popularidade do Movimento ao Socialismo (MAS), partido de Evo Morales.
Contudo, essa política, embora funcional no curto prazo, revelou-se insustentável no longo prazo. Mesmo sendo um país produtor de petróleo, a Bolívia se tornou cada vez mais dependente da importação de derivados para suprir a demanda interna. O custo para manter o subsídio esvaziou as reservas de dólares do país, erodindo a estabilidade econômica duramente conquistada. O ápice dessa crise de liquidez e escassez se manifestou plenamente sob o governo de Luis Arce, que, ironicamente, foi o arquiteto da política econômica como ex-ministro de Economia de Evo Morales e seu sucessor na presidência. A dificuldade de abastecimento que enfrentei em 2014, quando finalizei meu projeto de escalar todas as montanhas acima de 6 mil metros da Bolívia, era apenas um sintoma inicial de um colapso financeiro que se aprofundaria nos anos seguintes.
É crucial reconhecer, contudo, que os mandatos de Evo Morales — o período mais longo de um único grupo no poder em quase 200 anos — trouxeram à Bolívia a estabilidade política mais duradoura de sua história, um feito notável dado o passado inflamado do país, marcado por golpes e revoluções. No entanto, essa estabilidade foi minada pela ambição de perpetuação no poder: Evo Morales tentou de maneira irregular manter-se no cargo, utilizando mudanças controversas na lei e, posteriormente, enfrentando acusações de fraude eleitoral que precipitaram sua queda em 2019. A saída de Morales abriu caminho para a eleição de Luis Arce Catacora, seu ex-ministro da Economia. Arce, uma vez presidente, rompeu com seu mentor político. Essa divisão interna dentro do Movimento ao Socialismo (MAS) — um partido que parecia invencível — é o cerne do conflito político que se estende até hoje, culminando na derrocada da hegemonia do grupo de Morales após duas décadas no comando.
O governo de Luis Arce não pôde contar com a bonança que sustentou a era de Evo Morales. Com a queda do preço global do gás natural, o tesouro boliviano perdeu uma receita crucial, iniciando o esvaziamento das reservas internacionais do país. Paralelamente, em Santa Cruz, a elite agrária experimentava um boom com a alta das commodities agrícolas. A exportação desses alimentos rendeu à Bolívia sua única fonte significativa de dólares e conferiu crescente poder político a essa elite.
Contudo, entre 2023 e 2024, a inflação dos alimentos atingiu o mercado interno devido, em grande parte, a essas mesmas exportações. Em uma medida controversa e surpreendente para um economista, Arce reagiu proibindo as exportações agrícolas numa tentativa de controlar a inflação e os preços. Essa decisão, no entanto, secou a principal entrada de moeda estrangeira do país. Para agravar a crise cambial, o governo instituiu um câmbio oficial artificialmente valorizado para conter a desvalorização do Boliviano. O resultado foi a criação de um mercado de câmbio duplo: um oficial e irreal, e um paralelo que passou a ditar os preços reais, empurrando grande parte da economia para a informalidade e a incerteza.
Foi neste contexto de escassez de dólares e colapso cambial que a crise atual se manifestou de maneira aguda para a população boliviana. Sem reservas suficientes para honrar suas importações, o governo de Luis Arce, através da YPFB (a "Petrobrás" da Bolívia), foi forçado a reduzir drasticamente a compra de combustível. Essa interrupção no fluxo de suprimentos levou ao surgimento de longas filas nos postos de gasolina, onde os motoristas passavam dias aguardando para obter o diesel e a gasolina, que, embora ainda oficialmente baratos devido ao subsídio, se tornaram um recurso raro.

Escombros nas ruas de La Paz após tentativa de golpe de estado em 2024.
A falta de dólares e as políticas cambiais artificiais culminaram no retorno estrondoso da inflação e em uma desvalorização cambial sem precedentes. O dólar, que por anos permaneceu ancorado em torno de 6,9 Bolivianos, disparou no mercado paralelo. Em 2025, essa taxa chegou a atingir a marca de 18 Bolivianos por dólar no câmbio informal, evidenciando a perda maciça de poder de compra da moeda local e o medo generalizado da população. Essa instabilidade econômica e social forneceu o combustível para a crise política. O ponto culminante da tensão ocorreu em 2024, quando o país quase testemunhou um golpe de Estado: um general tentou invadir o palácio presidencial em La Paz, em uma tentativa fracassada de depor Luis Arce. Estar na Bolívia e presenciar este evento surreal em primeira mão reforçou a percepção de que a estabilidade que o país havia conquistado sob Evo Morales havia se dissipado completamente.
A eleição de 2025 e a escalada da crise política
A crise financeira e política na Bolívia não ocorreu no vácuo; ela se desenrolou em um momento de significativa guinada à direita (e até à extrema-direita) na América Latina. Exaustos pela crise econômica e pela percepção de esgotamento do modelo de governo do Movimento ao Socialismo (MAS), os eleitores bolivianos impuseram ao partido uma derrota histórica nas eleições de 2025. O MAS, dividido pela briga interna entre Evo Morales e Luis Arce, viu seu candidato oficial, mesmo após Morales ter tentado influenciar o processo (embora impedido de se candidatar), ficar drasticamente longe de sequer alcançar o segundo turno.
O embate final se deu entre dois políticos tradicionais, brancos e representantes do centro-direita: Tuto Quiroga, um ex-presidente com pautas conservadoras, e Rodrigo Paz, filho de um influente ex-presidente. A vitória de Paz, em meio à turbulência, simbolizou não apenas o fim do ciclo de quase duas décadas de poder liderado pela população indígena, mas também a restauração das pautas econômicas e sociais tradicionais de direita no comando do país.
A primeira grande guinada do governo de Rodrigo Paz foi de natureza econômica, visando reverter a crise de liquidez e a escassez de dólares herdadas de Arce. Paz agiu de maneira direta e rápida, retirando os onerosos subsídios aos combustíveis e revogando a proibição de exportação de commodities agrícolas que havia estrangulado a entrada de moeda estrangeira. Essa política teve um impacto imediato nas reservas de dólar do país, fazendo com que o câmbio paralelo — que havia chegado a picos próximos a 20 Bolivianos por dólar em seu momento mais crítico — recuasse drasticamente para os atuais 9,8. A medida também surtiu efeito na crise de abastecimento: com o fim dos subsídios, a gasolina e o diesel voltaram a inundar os postos, e as longas e humilhantes filas desapareceram. No entanto, o custo para o consumidor foi inevitável, com os preços dos combustíveis triplicando de uma só vez.
O que Paz não podia prever era um fator exógeno complicador: logo após o aumento interno, a escalada de um conflito internacional, a guerra do Irã, pressionou o preço global do petróleo, obrigando a estatal YPFB a subir os preços do combustível ainda mais, logo após o ajuste inicial, complicando a situação para a população recém-afetada.
Essa conjuntura crítica, agravada pela crise global do petróleo e pela Guerra do Irã, forçou a YPFB a adotar medidas extremas para suprir a demanda interna, resultando na importação de combustíveis de baixíssima qualidade. O produto era frequentemente adulterado, misturado a solventes e outros aditivos apenas para ganhar volume, o que desencadeou uma onda de falhas mecânicas em milhares de veículos por todo o país. A deterioração da frota e os prejuízos financeiros provocaram a indignação imediata da classe, culminando em uma r evolta liderada pela Central Sindical dos Motoristas e Transportistas. Esse descontentamento foi o estopim para o início das manifestações massivas que paralisaram a Bolívia em janeiro de 2026, desafiando a autoridade do recém-empossado governo.
A crise dos combustíveis — marcada pela escassez, o aumento dos preços e a subsequente distribuição de diesel e gasolina adulterados — serviu como um catalisador para reacender as profundas tensões étnicas e de classe na Bolívia. A revolta da população mais pobre e majoritariamente indígena foi direcionada rapidamente contra a elite tradicional que retornou ao poder simbolicamente com Rodrigo Paz. No entanto, é fundamental caracterizar Paz como um político de centro-direita, cuja trajetória é pautada pela moderação, e não como um expoente da extrema-direita. Filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora — histórico líder do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) —, Rodrigo Paz herdou uma linhagem política que prioriza o diálogo institucional.
Essa postura moderada manifesta-se de forma nítida em sua recusa estratégica de mobilizar as forças policiais ou o Exército para desobstruir as rodovias. Paz compreende que o uso da força e a eventual ocorrência de violência apenas serviriam para escalar o conflito e forneceriam o pretexto ideal para que Evo Morales — o articulador político nas sombras por trás dessas manifestações — se apresentasse como vítima ou defensor do povo. Para o presidente, a contenção militar seria um erro político que beneficiaria diretamente seus opositores mais radicais.
Apesar da estratégia de não intervenção, o descontentamento inicial gerado pelos motoristas e transportistas rapidamente ganhou o apoio de gigantes do movimento social boliviano. Ligas camponesas, a poderosa Central Obrera Boliviana (COB) e diversos outros movimentos de base engrossaram o caldo da insatisfação. O problema desse movimento massivo, contudo, reside na falta de uma pauta coerente e unificada. Mais do que exigências específicas, o motor principal é a insatisfação generalizada com a nova ordem econômica e a deterioração da qualidade de vida, transformando-se em bloqueios generalizados e na exigência pela renúncia do presidente.
A crescente onda de insatisfação contra o presidente Rodrigo Paz é, paradoxalmente, reforçada pela figura de seu próprio vice-presidente, Capitão Lara. Edman Lara Montaño, o "Capitão Lara", personifica a nova onda populista de extrema direita na política latino-americana e foi essencial para garantir a vitória da chapa no segundo turno de 2025. O que torna a situação atual ainda mais complexa é a iminente associação entre Capitão Lara e Evo Morales, dois políticos que, apesar de estarem em espectros ideológicos opostos (extrema-direita e extrema-esquerda), demonstram notável semelhança em suas práticas.
Lara, frequentemente comparado a Jair Bolsonaro por suas falas radicais e por se apresentar como um político "antissistema", atrai o apoio de setores que buscam uma ruptura. Por outro lado, Evo Morales, que emergiu há 20 anos como um líder progressista e defensor dos povos indígenas, revelou-se, na prática, alheio aos princípios democráticos. Após perder eleições e tentar manter-se no poder por meio de fraudes e mudanças legais, ele agora está nitidamente apoiando o movimento de bloqueios que visa forçar a renúncia de Paz. Essa convergência de métodos, onde o extremismo de direita se encontra com o populismo autoritário de esquerda, cria um cenário político volátil na Bolívia, no qual ambos os líderes se beneficiam da instabilidade e da queda do centro-direita. Lara, em particular, funciona dentro da administração Paz como o braço "justiceiro" e antissistema, posição que o coloca em rota de colisão com o próprio presidente, e o beneficia diretamente com a crise atual.
O que acontecerá com a Bolívia?
Enquanto encerro minha expedição no interior do país, planejo enfrentar os bloqueios em uma travessia delicada com veículos 4x4 por caminhos alternativos no Altiplano para garantir meus compromissos profissionais em La Paz.
Embora meus trabalhos subsequentes estejam assegurados caso não haja conflito aberto, o futuro da nação permanece uma incógnita, com a possibilidade de renúncia de Rodrigo Paz pairando como um risco de entregar o poder a figuras como Evo Morales ou o Capitão Lara. A situação boliviana serve como um alerta sobre os perigos do populismo e das políticas econômicas irresponsáveis na América Latina; contudo, pretendo continuar frequentando esta região que conheço há 25 anos, com a esperança de que o país encontre um futuro muito melhor do que o pleiteado por seus líderes atuais.
Em última análise, a Bolívia serve como um exemplo claro e preocupante para toda a América Latina. O que se observa é o perigo da combinação de populismo — seja ele de esquerda, como o de Evo Morales, ou de direita, como o representado pelo Capitão Lara — com políticas econômicas irresponsáveis. A aversão à democracia e a ascensão de políticos inflamados, com discursos fáceis, carentes de sustentação técnica e impulsionados por redes sociais, demonstram um caminho de instabilidade que outras nações da região devem evitar.
