
A história do desaparecimento de Marco Aurélio Simon começou muito antes daquele fatídico 8 de junho de 1985. Marco Aurélio e seu irmão gêmeo, Marco Antônio, nasceram prematuros de seis meses, enfrentando uma infância de fragilidade física e doenças recorrentes.
Foi para fortalecer a saúde e o espírito dos filhos que seus pais os colocaram no Grupo Escoteiro Olivetano de São Paulo. Com o tempo, os meninos evoluíram, e a expedição ao Pico dos Marins representava o ápice dessa jornada: seria lá, no coração da Mantiqueira, que Marco Aurélio receberia o título de Escoteiro Sênior e assumiria a liderança de sua patrulha.
No segundo episódio sobre o caso e sobre a montanha, vamos ver os detalhes do que se sabe dessa história recheada de controvérsias. No primeiro capítulo dessa série de quatro textos, você vê os detalhes do Marins, como a montanha costuma ser chamada pelos frequentadores.
Subida de Marco Aurélio seria uma mudança na vida dele
O orgulho e a motivação do jovem de 15 anos eram evidentes, tornando a celebração da conquista do Marins o fechamento de um ciclo de superação pessoal.

O grupo que iniciou a subida naquela manhã de sábado era pequeno, liderado pelo chefe Juan Bernabeu Céspedes e composto por Marco Aurélio e outros três adolescentes: Ricardo, Osvaldo e Ramatis.
Desde o início, a navegação de Juan mostrou-se imprecisa: ele recusou a companhia de um grupo local e do experiente morador Afonso, o Sr. Afonso, preferindo seguir por conta própria.
O grupo perdeu tempo precioso se perdendo em estradas largas e pegando variantes de trilhas fechadas anos antes.
Joelho machucado de escoteiro mudou a história da expedição
Por volta de 14h, um acidente mudou tudo: o escoteiro Osvaldo machucou gravemente o joelho e não conseguia mais apoiar o pé no chão.
Diante da dificuldade de carregar o jovem em terreno acidentado e sem materiais para uma maca eficiente, a descida tornou-se uma agonia lenta.

Foi nesse cenário de exaustão e tensão que Marco Aurélio sugeriu ir na frente para buscar ajuda no acampamento base.
Juan concordou, cometendo o erro que assombraria sua vida para sempre. Ele permitiu que um jovem sem experiência em navegação seguisse sozinho em uma montanha que não tinha um caminho óbvio pelo meio dos campos e lajedos de altitude.
Numeração nas pedras e decisões erradas
Para que pudessem encontrar Marco Aurélio, o chefe entregou a ele um pedaço de giz e ordenou que ele escrevesse o número 240 nas pedras pelo caminho.

O jovem partiu uniformizado, um apito e uma blusa de lã. O grupo de Juan seguiu seu rastro por algum tempo, vendo as marcações de giz, até chegar a uma passagem estreita conhecida como "Portal".
Ali, Juan tomou a segunda decisão errada: ignorou a marcação de Marco que indicava o caminho pelo meio das pedras e desviou por um vale à direita, acreditando que as trilhas se uniriam.
Esse desvio levou o grupo para o lado mineiro da montanha (parte do pico fica em Minas Gerais e outra em São Paulo), resultando em uma caminhada penosa de 14 horas pela madrugada fria, enquanto Marco Aurélio desaparecia definitivamente na imensidão das pedras.
A megaoperação de buscas no Pico dos Marins
Quando o grupo de escoteiros finalmente retornou à casa do Sr. Afonso, às 5h da manhã de domingo, a esperança de encontrar Marco Aurélio descansando na barraca foi substituída pelo pânico.
A mochila do jovem estava do lado de fora, aberta e em pé, e o interior da barraca estava completamente remexido, sugerindo que alguém estivera ali, embora o Sr. Afonso tenha alegado que não viu o garoto.
Juan, em um ato de desespero e sem pedir ajuda imediata aos mateiros locais, subiu a montanha sozinho por quatro horas em busca de rastros, mas retornou sem pistas.

O que se seguiu foi a Operação Marins, uma das maiores mobilizações de resgate da história do país, que reuniu mais de 300 pessoas entre militares, bombeiros e voluntários, que varreram a área sem encontrar sequer um fio de cabelo ou o vestígio do giz deixado pelo escoteiro.
Luzes, apitos e teorias sobre o desaparecimento
No meio do desespero das buscas, surgiram relatos que até hoje povoam o imaginário ufológico e espiritualista do Brasil.
Na noite de domingo, enquanto os grupos descansavam na base, os escoteiros e o chefe Juan relataram ter ouvido gritos e apitos vindos da mata fechada, seguidos por uma misteriosa luz azul que piscava e refletia sobre a copa das árvores.
Embora o Sr. Afonso sugerisse que poderia ser o reflexo de uma casa vizinha, o isolamento do local na época e o depoimento uníssono das testemunhas alimentaram a teoria de abdução.
Paralelamente ao mistério sobrenatural, a investigação policial tomou rumos sombrios. Juan Bernabeu, sob a pressão de uma polícia que recém saía do período da ditadura, tornou-se o principal suspeito.
Com o fim das buscas, Juan seguiu a vida, sempre negando qualquer irregularidade de sua parte.
Ninguém sabe dizer o que de fato aconteceu com Marco Aurélio
Outra possibilidade levada em conta pelos investigadores foi a de um acidente fatal com o escoteiro, como, por exemplo, ele ter caído em um abismo não mapeado. Também chegaram a pensar em um ataque de animal e até mesmo um crime.
Escavações feitas anos depois na serra encontraram vestígios de um líquido de decomposição orgânica e fios de cabelo, mas as análises não ligaram o material a Marco Aurélio.
Em uma live no ano de 2021, Osvaldo, o que machucou o joelho, disse que o desaparecimento de Marco Aurelio foi uma ''fatalidade'' e preferiu não apontar o que de concreto aconteceu com o amigo de escotismo.
