O Pico dos Marins se localiza na divisa dos estados de Minas Gerais e São Paulo
Acervo pessoal
O Pico dos Marins se localiza na divisa dos estados de Minas Gerais e São Paulo

Com seus imponentes 2.420 metros de altitude, o Pico dos Marins se destaca como um dos cenários mais deslumbrantes da Serra da Mantiqueira e uma das montanhas mais notáveis da região. O maciço está predominantemente localizado em  Piquete, cidade paulista de 12 mil habitantes, mas mantém forte conexão com a Marmelópolis, em Minas Gerais, e seus poucos mais de 3 mil habitantes.

Até a próxima terça-feira (12), você acompanha comigo os detalhes sobre a montanha que ganhou notoriedade no Brasil há pouco mais de 40 anos. Foi quando  o escoteiro Marco Aurélio desapareceu durante uma expedição com uma turma de São Paulo. E segue sumido até hoje.

Mais abaixo eu falo sobre o caso dele. Antes, vamos conhecer melhor o Marins, como é conhecida a montanha.  

Pico influencia o clima da região 

A localização estratégica confere ao Marins uma grande relevância geoecológica. A altitude elevada da Serra da Mantiqueira serve de refúgio para a rica biodiversidade da Mata Atlântica, da floresta de araucárias e dos campos de altitude.

Mais do que um simples marco geográfico, a proeminência rochosa do Marins integra uma formação montanhosa mais ampla, cuja influência é sentida no clima e nos ecossistemas de todo o Vale do Paraíba.

Montanha é acessível para os menos experientes, mas exige cuidados

O Marins apresenta uma formação geológica singular e robusta, composta por um núcleo de rochas cristalinas altamente resistentes, o que resulta em sua notável verticalidade.

Seus imponentes escarpamentos e paredes rochosas representam um desafio significativo, mesmo para escaladores experientes, exigindo o domínio de técnicas avançadas e um conhecimento aprofundado das rotas.

Contudo, uma crista de inclinação suave facilita a ascensão ao cume, tornando a montanha acessível a montanhistas amadores para passeios de aventura, sem a necessidade de grande experiência em montanhismo.

Trecho da trilha no Pico dos Marins, na Serra da Mantiqueira, conhecido pelo terreno acidentado e pela baixa visibilidade causada pela neblina.
Pedro Hauck
Trecho da trilha no Pico dos Marins, na Serra da Mantiqueira, conhecido pelo terreno acidentado e pela baixa visibilidade causada pela neblina.


A beleza cênica do Marins é inconfundível, marcada por afloramentos rochosos expostos, campos de altitude e vales profundos.

No entanto, sua complexidade geológica e o terreno escarpado ocultam perigos naturais, como pedras instáveis, fendas e mudanças abruptas de inclinação, que contribuem para sua reputação de montanha perigosa.

O desafio climático e a traição da natureza

Um dos fatores mais cruciais que definem o caráter traiçoeiro do Pico dos Marins é o seu clima rigoroso.

Devido à sua altitude e sua posição na Serra da Mantiqueira, a montanha experimenta variações drásticas em questão de horas.

Um dia de céu claro pode rapidamente se transformar em uma tempestade violenta com nevoeiro denso, chuva forte e quedas bruscas de temperatura.

Pedro Hauck, geógrafo e guia de montanha
Acervo pessoal
Pedro Hauck, geógrafo e guia de montanha


O nevoeiro, em particular, é uma ameaça constante, desorientando trilheiros, principalmente na porção mais alta da montanha, que é recoberta por campos abertos e lajedos rochosos.

A combinação de altitude elevada, exposição ao vento e mudança repentina de tempo exige dos montanhistas equipamentos adequados para enfrentar condições extremas e muita prudência.

O recomendado é sempre realizar ascensões nos meses mais frios do ano, durante o outono e inverno, quando a Mantiqueira sofre com estiagem, a atmosfera é estável e há menos chances de chuvas.

O caminho até o cume do Marins

A ascensão ao Marins começa em meio a uma vegetação exuberante de Mata Atlântica, a chamada Floresta Ombrófila Densa Montana, onde árvores de até 30 metros de altura criam um sub-bosque úmido e sombreado.

À medida que o montanhista ganha altitude e atinge a marca dos 1.700 metros, a paisagem se transforma na "matinha nebular", composta por arbustos que vivem sob o domínio constante da névoa.

Vista do Pico dos Marins revela os campos de altitude e os paredões rochosos que desafiam montanhistas na Serra da Mantiqueira
Pedro Hauck
Vista do Pico dos Marins revela os campos de altitude e os paredões rochosos que desafiam montanhistas na Serra da Mantiqueira


No entanto, é acima dos 2 mil metros que o desafio se torna crítico: a floresta dá lugar aos campos de altitude e aos imensos lajedos de rocha nua.

Nesses lajedos, a trilha deixa de existir de forma clara, pois não há solo para registrar as pegadas.

O montanhista depende exclusivamente do "faro de trilha" para não se perder em caminhos falsos abertos por enxurradas que drenam para falhas geológicas perigosas.


Essas fendas e as dolinas (depressões) ocultas entre as rochas, são profundas o suficiente para quebrar a perna de um caminhante ou aprisioná-lo sem que ele consiga sair sem o auxílio de cordas.

O clima é outro adversário implacável. Embora o  outono e inverno, entre maio e setembro, seja a temporada preferida por ser a época da estiagem, ele traz o perigo da hipotermia e da visibilidade reduzida.

No Marins, os dias de inverno são curtos e a sombra nas regiões baixas começa a se projetar já por volta das 16h, devido à altura das montanhas e das árvores.

Amanhecer visto do Pico dos Marins, com a Serra Fina ao fundo
Marcos Felipe Faria Terra Siqueira
Amanhecer visto do Pico dos Marins, com a Serra Fina ao fundo



Quando a cerração desce, ela apaga os pontos de referência, transformando os lajedos em um labirinto cinzento e frio.

Sem o equipamento adequado e o conhecimento profundo da navegação local, a montanha, que parece um convite à contemplação, torna-se uma armadilha gelada onde a temperatura cai abaixo de zero e a sobrevivência depende de cada decisão tomada antes do anoitecer.

Buscas e resgates

Pico dos Marins
Lucas Peixoto
Pico dos Marins


Quando o Marins era frequentado apenas por alguns montanhistas de clubes e escoteiros, livre de turistas, tracklogs e Google Earth, um escoteiro que subia a montanha com um grupo de São Paulo desapareceu e nunca mais foi visto.

Em 1985, ano do ocorrido, a montanha era mais isolada, desafiadora e, consequentemente, mais aventureira.

Em junho, o  Grupo Escoteiro Olivetano de São Paulo aceitou o desafio de ascender ao Marins  em um evento que promoveria Marco Aurélio Simons e seus amigos a "Escoteiros Sênior".

Essa promoção nunca se concretizou. O garoto de 15 anos desceu sozinho a montanha para buscar ajuda para um colega que se machucou na subida. 

Depois de semanas de buscas, ele não foi encontrado e o caso, desde então, teve uma série de reviravoltas e foi arquivado.

Parentes, como o irmão gêmeo e o pai, frequentemente reacendem o assunto nas redes sociais, levantando questionamentos e opiniões sobre o que pode ter acontecido.

Ninguém tem a resposta. 

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