Serra do Mar paranaense no setor conhecido como
Elcio Doulgas Ferreira
Serra do Mar paranaense no setor conhecido como "Ibitiraquire", ao fundo o Pico Paraná

O montanhismo paranaense vive uma nova era. O que começou como uma exploração ousada na metade do século XX transformou-se em um esporte de velocidade, técnica apurada e travessias monumentais, culminando em projetos como a "Alfa Crucis Express" e as “travessias mistas”. Essa transformação foi tema de uma recente palestra no Pub Refúgio AltaMontanha de Natan Fabrício, ex-presidente da Federação Paranaense de Montanhismo - FEPAM, que detalhou a história e a modernização das rotas na Serra do Mar, em especial no Maciço do Marumbi, Farinha Seca e no Ibitiraquire.

A história das notáveis travessias do Paraná teve início em 1947, quando José Zanlute e Benedito Perdoncin, membros do Círculo de Marumbinistas de Curitiba (CMC), conceberam a ideia da travessia por todos os cumes da Serra do Marumbi. Após três dias de investida, a dupla desistiu sem conseguir chegar ao outro lado da Serra.

A história cativou Henrique Schmidlin, o “Vitamina”, um montanhista então com 17 anos e já promissor. Ele prontamente iniciou suas explorações, escalando individualmente todas as montanhas da serra nos anos seguintes, dedicando-se a mapear e estudar o relevo com o intuito de, um dia, conectar todos os cumes. Schmidlin batizou seu projeto de "Alfa Ômega", um codinome estratégico para evitar que outros se apropriassem de suas trilhas e realizassem a travessia antes dele.

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Divulgação

Vitamina (direita) com Erwin Gröger (esquerda) no final dos anos 80

A primeira tentativa de  Vitamina de completar a travessia de todos os cumes em uma única jornada ocorreu em 1962, com a companhia de Ronaldo Cruz, conhecido como "Bigode". Quatro anos depois, em 1966, uma nova investida — desta vez com Arlindo Toso, Nelson "Farofa" Penteado, Dalio Zippin e Ney Munhoz — foi interrompida por uma densa neblina e chuva. O grupo foi forçado a passar a noite dentro de uma fenda profunda, em meio às rochas da primeira montanha no lado oeste do maciço, cujo formato de relevo lhe deu o nome: Morro do Canal.

O projeto "Alfa Ômega", que propunha a travessia leste-oeste do Marumbi, ligando a estação de trem ao Morro do Canal, alcançou um status lendário. Sua popularidade cresceu, impulsionada inclusive pela realização das primeiras corridas de montanha do Brasil, em 1985, com o Marumbi Trophy, que utilizava a trilha Freeway, um dos acessos mais prováveis para a travessia. Após 44 anos de inúmeras tentativas, o projeto foi finalmente concluído por Paulo César "Máfia", Dálio Zippin Neto ("Dalinho"), Gilson Bongiolo e Maurício "Vão".

É notável que Vitamina, o idealizador do projeto e com mais de 60 anos na época, não tenha participado da concretização. A razão para sua ausência é apresentada de duas formas: Nelson “Farofa” Penteado, no livro “As Montanhas do Marumbi”, menciona brevemente o “atraso de um trem”, enquanto "Máfia" oferece uma versão diferente dos fatos.


“Convidamos Vita, idealizador da travessia, para ir junto por ética. Saímos cedo via Canal, mas a chuva intensa nos fez voltar. Após um café na casa de Nelson Pudles, informamos Vita que desceríamos a Morretes e subiríamos de trem ao Marumbi, iniciando a travessia na terça-feira (primeiro dia de bom tempo) por lá. Vita insistiu para irmos só na quinta, mas só tínhamos aquela semana. Na terça, com tempo bom, iniciamos a travessia no Marumbi e chegamos ao Canal na sexta à tarde. Vita foi ao Marumbi na quinta, não nos encontrando, e alegou que não cumprimos o "acordado". Soubemos depois que ele teria uma festa de aniversário para sua esposa, Dulce, na quarta à noite..”

Independentemente das diferentes narrativas, a Travessia Alfa Ômega marcou o início de tudo, tornando-se um "mito" antes mesmo de sua concretização em 1991. Embora não tenha participado da conquista, Vitamina foi reconhecido como seu "pai", dedicando-se a registrar e incentivar cada nova realização, distribuindo medalhas nos tradicionais jantares da montanha.

Para além do feito físico, a Travessia Alfa Ômega carregou um profundo significado e valor: ela materializou a essência do conceito de "travessia", que é a união de várias ascensões em uma única empreitada. Esse desafio, que exigia uma complexa logística e esforço físico superior a uma simples subida, estabeleceu o padrão para o conceito de "travessia" como o conhecemos hoje. A partir desse marco, a ideia se expandiu, inspirando travessias em outras serras.

Serra do Marumbi vista da Farinha Seca.
Pedro Hauck
Serra do Marumbi vista da Farinha Seca.


O Período das Conexões


A década de 90 foi um período de grandes avanços nas conexões de trilhas, porém mal divulgadas, por isso com informações imprecisas.  Em 1992, foi realizada a travessia Siririca x Graciosa, os conquistadores (Evandro e Paul - carecemos de mais dados) guiaram-se apenas por bússola e cartas topográficas que naquela época eram na escala de 1:50.000. Este feito foi seguido por marcos notáveis, como a ligação Caratuva x Ferraria (1993), e a travessia Serro Verde x Última Chance (1995), que permitiu o acesso ao Siririca tanto pelo Itapiroca quanto pelo Tucum. Essas travessias progressivamente uniram a região central da serra do Ibitiraquire. 

Ao mesmo tempo, por volta de 1996, ocorreram as primeiras explorações, não documentadas, que conectaram os cumes da Serra do Capivari.

Em meados dos anos 90, alguns nomes começaram a ganhar destaque. Entre eles estavam os irmãos Giancarlo e Gustavo Castanharo, apelidados de "Cover"(devido à grande semelhança, sendo "Cover" o apelido de Giancarlo, o mais velho, e Gustavo conhecido até hoje como "Tavinho", notável por suas conquistas em vias de escalada). Além deles, destacou-se Elcio Douglas Ferreira, que se dedicou intensamente às ascensões nas montanhas da Serra do Mar. Este trio, juntamente com vários outros parceiros, desempenhou um papel crucial no desenvolvimento das travessias na região.

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Reprodução Gustavo Castanharo

Giancarlo "Cover" e Gustavo "Tavinho", dois grandes protagonistas no montanhismo paranaense

Elcio fazia parte dos "Sociedade Poetas da Montanha"(SPM), um clube de montanhismo informal com o objetivo de realizar incursões na Serra, enquanto os irmãos Cover se destacavam como membros promissores da Associação Montanhistas de Cristo (AMC). Em 1995, os Cover, juntamente com Emerson Rolkouski, Lauro de Freitas e Edenilson “Canidia” Feola, fizeram a primeira repetição da travessia Alfa Ômega. No entanto, em vez de reconhecimento, o feito quase lhes rendeu uma multa pesada devido à criação, naquele ano, do Parque Estadual do Marumbi. O IAP (hoje IAT) transformou a área da travessia em zona intangível, uma decisão polêmica, numa história cheia de capítulos que até hoje é vista como um obstáculo e objeto de intrigas para os montanhistas.

Essa restrição impulsionou a busca por novos desafios. Os jovens montanhistas, com seu espírito desbravador, voltaram seu olhar para a Serra da Farinha Seca, um pouco mais ao norte.

Esta serra, um bloco montanhoso que se estende no sentido norte-sul, está localizada entre a Estrada da Graciosa e a ferrovia Curitiba-Paranaguá. Seus limites são definidos pelo Marumbi, ao sul, e o Ibitiraquire, ao norte, região onde se encontram picos como o Paraná, Siririca e Ferraria. O nome "Farinha Seca" homenageia a Albizia niopoides(família Fabaceae), uma árvore abundante na área, embora o adjetivo "seca" contraste com a realidade da área, marcada por montanhas extremamente úmidas. O Morro do Sete, situado próximo à Estrada da Graciosa, é o pico de maior destaque desta serra.

O projeto dos Poetas da Montanha e da AMC era ambicioso: realizar a travessia integral desta formação montanhosa.

Farinha Seca, na esquerda, Ibitiraquire, no centro visto desde a Ponta do Tigre no Marumbi
Pedro Hauck
Farinha Seca, na esquerda, Ibitiraquire, no centro visto desde a Ponta do Tigre no Marumbi

Tavinho, Cover e amigos iniciaram a exploração pelo "campo dos Ciprianos", um planalto que, apesar de parecer plano e campestre à distância, revelou-se um pântano encharcado e com vegetação quase impenetrável. Esta rota, que seria um caminho natural, mostrou-se extremamente difícil, segundo a experiência dos irmãos e seus colegas.

Diante disso, Elcio buscou uma rota alternativa pelo Morro do Balança, a primeira elevação ao norte do Marumbi. O Balança já havia sido conquistado por José Said Zanlute no dia do advogado (o que explica a origem do nome), mas a alta umidade havia impedido a consolidação de uma trilha. 

Em 1997, Elcio, em conjunto com seu parceiro Oseias, apelidado de “Black”, descobriu um novo trajeto explorando as encostas desta montanha. Contudo, em um feriado planejado para a empreitada, uma chuva intensa levou Elcio a desistir; seu parceiro, no entanto, prosseguiu sozinho. Black desapareceu e foi encontrado morto dias depois. Este trágico evento resultou na primeira grande participação em busca e resgate do Corpo de Socorro de Montanha (Cosmo), um tema a ser abordado em outra oportunidade.

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Elcio Douglas

Oseas "Black" escalando em rocha na década de 90

Finalmente, em 1998, os irmãos Cover com Lauro e Canídia completaram a primeira travessia da Farinha Seca, que permanece como o maciço montanhoso mais intocado e menos explorado da Serra do Mar paranaense.

Paralelamente, Elcio desenvolveu um novo plano ambicioso: cruzar a Serra do Ibitiraquire de ponta a ponta, no sentido Norte-Sul. A rota começava no  Pico do Ferraria e terminava no famoso marco 22 da Estrada da Graciosa.

Para concretizar esse feito, Elcio, na companhia de amigos, dedicou-se à explorar a  crista do Ferraria. Este esporão que sobe do leito do rio Cotia, a poucos metros acima do nível do mar, na face leste da montanha, até o seu cume. Após a ascensão, dois outros grandes montanhistas Tiaraju Fialho e Edson “Dubois” Struminski, disputaram a conquista, em mais um dos capitulos onde a falta de publicação gerou atritos sobre a autoria da primeira ascensão.

Subindo essa crista ao lado de Ivon Cesar Sales "Sexta Feira" e Taylor Thomas, e conectando-a a outras travessias, Elcio emergiu do lado oposto. Ele batizou essa jornada de "Travessia do Milênio", pois foi realizada quase na virada do século, entre 28 e 31 de dezembro de 2000. 

Com essa grande façanha, encerramos os anos 90 com a realização de todas as grandes travessias da Serra do Mar paranaenses. Ou seja, foi justamente ao apagar das luzes do século XX que os 4 grandes blocos montanhosos tiveram conquistadas suas travessias: Serra do Marumbi (Alfa Ômega), Serra da Farinha Seca, Serra do Ibitiraquire e Serra do Capivari. Faltava então conectar todas elas.


O amadurecimento da ideia da Alfa Crucis

Com a conversão da Alfa Ômega em área intangível dentro do Parque Estadual do Marumbi, a travessia foi abandonada por uma década. Em 2006, o grupo de montanhistas Nas Nuvens Montanhismo, estabelecido anos antes, decidiu retomar e expandir o percurso. Antes de começar esta história, acho relevante detalhar a trajetória e os membros deste grupo.

O grupo de montanhismo Nas Nuvens foi fundado no início dos anos 2000 por amigos que compartilhavam a paixão pela escalada na Serra do Mar e decidiram formalizar o nome. Entre os membros mais notáveis do grupo estão Hilton Benke (fundador do AltaMontanha), George Volpão (conhecido como “Nuvens”), Leandro Pereira “Bolivia”, Willian Augustynczyk, Vinicius Ribeiro, Alisson Wosniak, Juliano Santos e Natan Fabricio. Este último, uma das fontes deste texto.

Embora muitos outros já tenham integrado o Nas Nuvens, os cinco mencionados (Bolívia, Vinicius, Alisson, Juliano e Natan) permanecem ativos junto com outros novos integrantes. Mas voltando ao início dos anos 2000, após conquistarem os picos mais conhecidos da Serra paranaense, o grupo aprofundou-se no montanhismo, focando em projetos esquecidos que se tornaram "mitos" locais, o que os motivou, por exemplo, a repetir a proibida travessia Alfa Ômega.

Em 2007, o grupo foi além, unindo a travessia Alfa Ômega à travessia da Farinha Seca. Na época, ambas ainda não possuíam trilhas ou picadas. Exigia-se abrir o caminho "no peito", navegar em meio à vegetação densa sem rastros digitais (track logs) e sem o suporte de previsões meteorológicas ou imagens de satélite (as imagens de precisão do Google Earth da Serra do Mar paranaense só ficaram disponíveis em 2008, causando grande entusiasmo entre os exploradores da época!).

Integrantes do Nas Nuvens Montanhismo. Em pé da esquerda para direita, Vinicius, Natan e Juliano. Sentados, Alisson e William. Foto de 2012.
Divulgação NNM
Integrantes do Nas Nuvens Montanhismo. Em pé da esquerda para direita, Vinicius, Natan e Juliano. Sentados, Alisson e William. Foto de 2012.

O projeto do Nas Nuvens era, na verdade, muito mais ambicioso: a meta era finalizar no Pico do Ferraria, ponto inicial da Travessia do Milênio de Elcio, de oito anos antes. Apesar de não terem conseguido — desistindo na Serra da Graciosa após 12 dias, exaustos e castigados pela vegetação implacável —, o feito foi grandioso. Pela primeira vez, duas grandes travessias foram interligadas em uma só. O esforço foi reconhecido e a empreitada foi nomeada Alfa Jakaira (referência a Jakaira, divindade Guarani que representa o Deus da neblina).

O projeto da grande travessia pela Serra do Mar, que começou a tomar forma após a Alfa Jakaira, coincide com minha chegada a Curitiba. Por essa razão, a história do que se tornaria a "Alfa Crucis"(AC) é bastante pessoal para mim, pois fui um coadjuvante nesse esforço. O nome "Alfa Crucis" combina "Alfa", uma referência ao Marumbi, o ponto de partida de tudo, com "Crucis", aludindo à "crucificação" ou à grande dificuldade de abrir caminhos na Serra do Mar, além de ser também a maior estrela da constelação cruzeiro do sul, o que representaria a dimensão do projeto.

Mudei-me para Curitiba em 2007 e logo conheci Hilton Benke, e através dele, Julio Fiori e Elcio, figuras que na época eram conhecidas como “a turma do AltaMontanha”. Outros nomes foram cruciais e participaram ativamente do projeto, como Moisés Lima, Johnny Genvensis, Jurandir Constantino, Otaviano Zibetti, além de membros do Nas Nuvens. Embora outros companheiros tenham participado em investidas pontuais, estes foram os líderes, responsáveis pelo planejamento e pelas ascensões propriamente ditas, que tiveram início em 2010.

É importante destacar que, em 2010, aproximadamente 90% da futura Alfa Crucis era coberta por mata. Ou seja, não havia trilhas abertas, mesmo que os locais já fossem conhecidos e visitados. A frequência de incursões era tão baixa que não era suficiente para manter sequer uma picada. Além disso, haviam áreas completamente inexploradas, incluindo cumes virgens e sem nome, e eu participei das expedições de reconhecimento delas em 2011.

Entre os cumes inexplorados, alguns ficavam na rota entre o Morro do Balança — onde Oseias "Black" havia falecido 14 anos antes — e o Morro dos Macacos, que é a montanha onde nasce o rio da famosa cachoeira de mesmo nome. Lembro-me de iniciar esta “indiada” numa manhã fria e úmida, tão molhada que o Otaviano se perdeu numa curva da Graciosa e bateu o seu carro contra a mureta. O acidente foi o motivo principal para a desistência de todos, que já não estavam motivados com toda aquela neblina. 

Terreno típico do Morro do Balança
Pedro Hauck
Terreno típico do Morro do Balança

Desci sozinho rumo à Prainhas e no caminho cruzei com o Jurandir, um dos montanhistas mais fortes que eu já conheci e que cresceu no meio da Serra. Seu pai trabalhava na RFFSA e ele morou por anos na vila do Marumbi. De poucas palavras, mas muita ação, levei ele no meu carro até a usina do Marumbi, onde iniciamos a trilha que passa pelo Salto Rosário. Porém nosso objetivo era outro: o temido Morro do Balança!

Trabalhávamos na trilha há algum tempo, abrindo uma picada em plena vertente. O Balança é uma montanha de vegetação e umidade tão intensas que, muitas vezes, ao subir, percebíamos que estávamos caminhando sobre a copa das árvores da camada inferior. O perigo era constante e o esforço, enorme, exigindo escalar raízes e agarrar galhos espinhosos.

Apesar da neblina inicial — como diz o ditado, "neblina baixa, sol que racha" — o tempo abriu e o dia se tornou perfeito. Caminhávamos encharcados mesmo sem chuva, dada a umidade da mata. Ganhando altitude metro a metro, encontramos uma pequena plataforma de musgos que serviu de bivaque, pois a vegetação abundante tornava impossível montar uma barraca.

No dia seguinte, alcançamos o cume do Balança, abrindo esse novo caminho após mais de uma década sem passagem. É importante notar que o cume já havia sido atingido por outras rotas. Eu e Jurandir não apenas chegamos ao Balança, mas fomos além, desbravando a trilha através de outros dois cumes sem nome. Batizamos provisoriamente (e os nomes acabaram ficando) de Jurapê (fusão de Jurandir e Pedro) e Mojuel (em homenagem a Moises, Julio e Elcio).

Pedro e Jurandir no cume do Balança com o Marumbi ao fundo
Pedro Hauck
Pedro e Jurandir no cume do Balança com o Marumbi ao fundo


Alfa Crucis, se torna realidade


Os esforços para mapear, sinalizar e iniciar a abertura da trilha Alfa Crucis estavam em pleno andamento. A Alfa Ômega, por sua vez, deixou de ser um local inóspito e, com apenas 16 km, transformou-se no trecho mais "fácil", tendo sido percorrida pela primeira vez de ataque em 2011 pelo pessoal dos Nas Nuvens. Com a criação da trilha do Balança, estabelecemos uma rota rápida que conectava o Marumbi à Serra da Farinha Seca. 

Em outra frente, através do Rio do Meio, exploramos e abrimos caminhos na porção central deste maciço montanhoso, unindo o Mojuel ao Mãe Catira, com trilha direta para a estrada da Graciosa, passando por cumes até hoje pouco mencionados, como o 00B e Casfrei (que, aliás, possuem nomes curiosos que merecem ser contados em outra ocasião).

Na Serra do Ibitiraquire, mais ao norte, os protagonistas dessa história já haviam dedicado mais de uma década à exploração exaustiva de todos os percursos possíveis. Com isso, conseguiram mapear os itinerários que culminariam na criação de uma única e audaciosa trilha: a travessia do Morro do Canal ao Ferraria, integrando as principais montanhas da Serra do Mar.

Elcio Douglas Ferreira
arquivos pessoais de Elcio Douglas Ferreira
Elcio Douglas Ferreira

Elcio foi o responsável pela logística. Para garantir agilidade e evitar enroscos na densa vegetação — composta por cipós e muita quiçaça, que rapidamente consumiam as poucas picadas existentes —, ele estrategicamente escondeu barris de suprimentos ao longo da Serra. Isso permitiu que ele viajasse com uma mochila leve que além de possibilitar andar mais rápido, não enroscava na vegetação. Restava, contudo, encontrar o companheiro ideal para realizar esse sonho ao seu lado.

Ao longo do tempo dedicado ao reconhecimento do caminho, várias pessoas se desentenderam com Elcio, que, segundo o próprio Natan, "era muito pilhado". A verdade é que este era o grande projeto dele e Elcio demonstrava um foco intenso e muito compromisso: dormia cedo, acordava cedo, estabelecia e cumpria suas metas rigorosas. Em contraste, muitos outros, com outras preocupações na vida, viam as incursões na serra mais como um “passeio de fim de semana”, preferindo relaxar ao fim da tarde, tomar um vinho, conversar e preparar um jantar mais elaborado. No fim, Jurandir, com sua força e determinação gigantes, e Ivon “Sexta Feira” Sales, amigo e antigo companheiro de trilhas de Elcio, foram os que ficaram.

O trio Elcio, Jurandir e Sexta partiu de Curitiba na manhã do dia 28 de junho de 2012 rumo a Antonina, na baixada litorânea do Paraná, iniciando sua caminhada no Bairro Alto, subindo o antigo caminho da trilha da Conceição, que serpenteia um passo montanhoso entre os picos ao norte do Ibitiraquire rumo ao primeiro planalto. A dupla no primeiro dia bivacou no primeiro cume da empreitada, o pouco conhecido Guaricana, de onde eles partiriam no dia seguinte abrindo um caminho até o Ferreiro e de lá até o cume do Ferraria. 

É interessante notar que, no ano anterior, já havíamos estabelecido uma trilha consolidada na Crista do Ferraria. Eu tive o prazer de participar da última empreitada por esse caminho, agora bem marcado, junto com os "Cachorrões da Serra", um grupo liderado pelo saudoso Jamil (que também merece uma história própria). Em agosto de 2011, Jamil, Juliano, Josafat, Edenilson (meu colega no doutorado em geologia e hoje professor da UFPR), Camila Dias e eu realizamos a quinta ascensão histórica por aquele íngreme espigão. No entanto, Elcio optou por ignorar a nossa trilha e, em vez disso, abriu um novo caminho pelo lado norte do Ferraria para incluir dois cumes adicionais no percurso da Alfa Crucis, deixando-a mais completa.

Pico do Ferraria ao fundo
Pedro Hauck
Pico do Ferraria ao fundo

O terceiro dia da Alfa Crucis foi de altíssima intensidade física, apesar de ter ocorrido por trilhas já estabelecidas. A abertura de trilha do dia anterior havia sido extrema, com Jurandir passando mal. Mesmo assim, o trio cruzou o coração da Serra do Ibitiraquire, ligando os picos mais altos do sul do Brasil. Eles partiram do Ferraria, passaram pelo Taipabuçu, seguiram para o Pico Caratuva e, por fim, chegaram ao maciço do Pico Paraná. Lá, alcançaram os cumes do Ibitirati, União e Tupipiá antes de pernoitar no Itapiroca, preparando-se para o trecho final de trilha consolidada do projeto rumo ao Siririca, que foi realizado no quarto dia.

A partir do quinto dia, os montanhistas se aprofundaram no que chamaram de "filé da Alfa Crucis", o trecho mais selvagem da travessia, que seguiria até o final. Eles desceram o Rio Forquilha e cruzaram a passagem entre o Tangará e o Cotoxós, alcançando o lado da Serra da Graciosa, especificamente as encostas do Pico do Arapongas. 

A jornada os levou ao marco 22, onde foram recebidos por amigos com pizza. Ali foi o final da linha para o “Sexta Feira”, que teve que voltar para casa, já que não tinha mais dias de férias. Elcio e Jurandir, assim que terminaram a refeição e se despediram do parceiro, entraram na trilha rumo ao Mãe Catira. Deste ponto em diante, a dificuldade elevou-se ao nível "o filho chora e a mãe não escuta". 

Região dos Agudos na Serra do Ibitiraquire, Paraná
Elcio Douglas Ferreira
Região dos Agudos na Serra do Ibitiraquire, Paraná

Os dias seguintes incluíram a travessia da Farinha Seca, a descida até a estação Marumbi, a realização do conjunto de picos pela trilha noroeste, a passagem pelo lado de trás do Olimpo e, por fim, a chegada ao Morro do Canal. Foram 8 dias e 17 horas de trilhas, somando 44 cumes escalados e 132,6  quilômetros percorridos. Na época, foi considerada a trilha em montanhas mais desafiadora já realizada no Brasil! Entretanto, apesar do feito, houveram muitas críticas. 

As críticas se concentraram em vários pontos. Primeiramente, questionaram o trecho entre o marco 22 e a casa Garbes, onde a trilha do Ibitiraquire se une à da Farinha Seca, alegando que os envolvidos andaram pela Estrada da Graciosa e até comeram pizza. Em segundo lugar, criticaram o fato de que na junção entre a Farinha Seca e o Marumbi, eles também teriam utilizado caminhos já modificados pelo homem. Por fim, as mais graves foram as acusações de invasão à controversa área intangível do Parque do Marumbi. Foi nesse local que surgiu um "acampamento fantasma", posteriormente associado a Elcio, apesar de ele sempre ter negado qualquer ligação com o equipamento (roupa e material de camping) abandonado.


As travessias pós Alfa Crucis 


Quando Elcio completou a Alfa Crucis, pensei que ele tinha alcançado o objetivo de sua vida, deixando seu legado no montanhismo. No entanto, eu estava enganado, pois Elcio demonstrou uma determinação notável. As críticas o afetaram profundamente, e ele não as ignorou; nos anos seguintes, em vez de se aposentar — ou, melhor, "pendurar as botas" —, ele dedicou-se a aprimorar a travessia.

Sozinho ou na companhia de poucos, Elcio retomou os estudos do relevo da Serra do Mar para planejar uma travessia perfeita, onde ele poderia ascender o máximo de cumes sem ter que ir e voltar pelo caminho, estabelecendo novas travessias que em si já eram um grande desafio. Em 2018 ele abriu uma travessia que saía do Siririca, e atravessava todos os cumes da Serra dos Agudos que ele denominou de “Inter Agudos”, não contemplada pela AC original, passando pelo cume do Agudo da Cotia, do Lontra e da Cuica, para depois passar pelo cume do Tangará, Cotoxós e mais tarde pelo cume do remoto Arapongas já na Graciosa. 

Elcio realizou uma travessia que priorizou integralmente o ambiente natural, evitando qualquer contato com o asfalto ou a linha férrea. Ele desviou de todos os trechos de rio e abriu trilhas por terra. Nos locais já humanizados, como a estrada da Graciosa e a ferrovia Curitiba x Paranaguá, ele optou por cruzar por baixo de pontilhões e evitar as estações de trem. A travessia, considerada por Elcio como totalmente em ambiente natural e batizada de Alfa Crucis Express (ACE), foi finalizada em 2019. Ela é vista como a evolução e a melhoria da travessia mais desafiadora do Brasil.

Embora Elcio tenha sido o idealizador e tenha liderado o percurso em modo de ataque, ele não estava sozinho nesta empreitada. Israel Silva e André Franzon o acompanharam. Juntos, eles reduziram um dia de itinerário e adicionaram mais montanhas que somadas deu um total de 50 cumes ascendidos. Ivon Cesar Sales também participou, mas não se encontrava bem, e abortou a travessia antes do fim.

Atravessando o Ibitiraquire em direção ao Siririca.
Andre Franzon
Atravessando o Ibitiraquire em direção ao Siririca.

A área intangível do Parque do Marumbi continuou a ser um obstáculo para as travessias. Contudo, após estudar o plano de manejo e interpretar os mapas disponíveis (mesmo que imprecisos), Elcio conseguiu adaptar a travessia ACE. Esta nova versão tangencia a área intangível, sacrificando a passagem pelos cumes da Alfa Ômega, mas garantindo o respeito às regras do parque, por mais polêmicas e questionáveis que sejam.

Finalmente, as grandes travessias se tornaram uma realidade. Após o feito pioneiro, vários grupos já realizaram diferentes versões deste percurso e ele se tornou um grande desafio do montanhismo brasileiro, atraindo pessoas de todo o país.


Os Capivaris e a travessia Charlie Charlie


A Serra do Capivari, o quarto bloco montanhoso da Serra do Mar, está situada ao norte da Serra do Ibitiraquire e imediatamente ao norte do Morro do Guaricana. Este conjunto de montanhas costuma ser menos conhecido em comparação com outras serras mais populares, devido à sua maior distância de Curitiba e a algumas dificuldades logísticas.

A coleta de informações sobre este maciço representou um grande desafio para a elaboração deste artigo. No final dos anos 2000, participei de expedições do Clube Paranaense de Montanhismo, o CPM com Marcelo Brotto e Rafael Völtz com o objetivo de conectar o Capivari Mirim ao Médio. Posteriormente, o grupo NNM uniu todos os cumes do maciço, consolidando a trilha circular que une o Capivari Grande ao Médio e Mirim. Contudo, ao publicarem seus relatos, surgiram contestações sobre a autoria da travessia.

A realidade é que trilhas pouco frequentadas são rapidamente tomadas pela vegetação, tornando difícil determinar se alguém já percorreu o mesmo trajeto antes. A rápida recuperação da natureza apaga os vestígios. Infelizmente, a ausência de relatos e registros escritos impede que se conheça a história de forma precisa.

O Capivari 4 na direita em primeiro plano, logo atrás o Guaricana e ao fundo o Ibitiraquire, com destaque para o Ferraria (montanha pontuda).
Pedro Hauck
O Capivari 4 na direita em primeiro plano, logo atrás o Guaricana e ao fundo o Ibitiraquire, com destaque para o Ferraria (montanha pontuda).


A conexão entre o Capivari e o Guaricana era o elo que faltava para unir todas as quatro principais serras. Em 2021 Guilherme Sabetzki e Paulo César Postal Filho sabiam disso e começaram a trabalhar nessa conexão.

Em 2023, quando voltaram ao maciço para finalizar o projeto, eles encontraram sua trilha já bem batida, o que nas palavras de Paulo era um indício que estavam usando ela ( e de fato, na apuração descobri que Heitor Canale fez essa melhoria para uma corrida de montanha). A dupla subiu o Guaricana e lá se depararam com Jhonatan Carvalho Pereira, o “Caveira”, que estava trabalhando na abertura de sua trilha ao Guaricana. Após o encontro, Guilherme e César continuaram sua travessia, até que entre o Taipabuçu e o Caratuva eles tiveram que desistir devido uma forte chuva.

Com o caminho já estabelecido, Jhonatan Caveira conseguiu, apenas uma semana depois, completar a travessia das quatro cadeias de montanhas de norte a sul da nossa serra. Em 8 dias, ele percorreu aproximadamente 130 km e alcançou 76 cumes, batizando a rota de "Charlie - Charlie". Este nome é uma referência às montanhas de início e fim — o Capivari e o Canal — e, na prática, representa uma extensão de todas as travessias, com suas derivações e com a inclusão da Serra do Capivari.


O Projeto Transparaná

A evolução das travessias na Serra do Mar Paranaense é uma narrativa de expansão e superação contínua. O que se iniciou com a Alfa Jakaira — que ligou o Marumbi à Farinha Seca — foi ambiciosamente ampliado pela Alfa Crucis, unindo os três maciços principais (Marumbi, Farinha Seca e Ibitiraquire). Este projeto foi subsequentemente aprimorado pela Alfa Crucis Express (ACE), que buscou uma rota mais pura e em ambiente natural. Finalmente, a travessia Charlie Charlie integrou o quarto bloco histórico, os Capivaris, completando a união de todas as quatro grandes cadeias montanhosas tradicionalmente exploradas.

Contudo, a Serra do Mar paranaense é muito mais vasta do que apenas esses quatro maciços famosos. Embora Marumbi, Farinha Seca, Ibitiraquire e Capivaris sejam os palcos históricos do montanhismo regional, a região abriga diversas outras serras que, apesar de menores ou menos destacadas, representam desafios significativos sob os critérios de travessia. Montanhistas atentos, como Elcio Douglas e o Clube Paranaense de Montanhismo (CPM), estão agora voltando suas atenções para esses blocos montanhosos adicionais, buscando novas conexões e a continuidade da saga exploratória na região.

Olhando para o futuro, a restrição da área intangível do Marumbi não será mais um impedimento. A experiência adquirida impulsiona a evolução, e agora um esforço maior visa concretizar a "Transparaná". Esta ambiciosa travessia busca cruzar toda a Serra do Mar, desde a divisa com São Paulo, na Serra da Virgem Maria, até a fronteira com Santa Catarina.

Elcio Douglas no começo de sua carreira como montanhista. Hoje com quase 60 anos se dedica ao projeto Transparaná
Arquivos de Elcio Douglas
Elcio Douglas no começo de sua carreira como montanhista. Hoje com quase 60 anos se dedica ao projeto Transparaná

Para concretizar a "Transparaná", o percurso, infelizmente, terá que contornar o Parque Estadual Pico do Marumbi, o berço histórico do montanhismo paranaense, tangenciando seus limites. A exclusão do Marumbi dos futuros projetos de montanhismo, na minha opinião, merece uma reflexão, pois ela é cheia de significados.

Enquanto o Instituto Água e Terra do Paraná (IAT) não atualizar o conflituoso plano de manejo do Parque do Marumbi, a trilha Transparaná seguirá um novo trajeto. Ela passará por baixo da BR-277 e entrará na Serra da Guaricana (sem relação com o morro do Guaricana), um território vasto e pouco explorado, rico em paredes para escalada, cumes e novas possibilidades. O ponto final será a união da Pedra Branca do Araraquara com o Morro do Araçatuba e a travessia desta montanha até o Monte Crista, já em Santa Catarina. Esta nova travessia representa um novo horizonte não somente para o montanhismo no Paraná, mas para o montanhismo brasileiro.


O Futuro: Velocidade e Travessias Mistas

Houve uma época em que praticar montanhismo no Paraná era tão restrito e localizado que quem subia uma montanha era chamado de “marumbinista”. Hoje, o Marumbi é apenas um dos locais que frequentamos, pois com todas estas conquistas o horizonte se ampliou e aquilo que antes era só mato, hoje já é frequentado por muita gente e aquela antiga picada agora já consolidou-se como uma trilha. Isso, na minha opinião, é positivo, pois nos dá alternativas às saturadas trilhas do Marumbi, Pico Paraná, Tucum e Anhangava e a popularização destes destinos hoje alternativos, poderão solucionar a saturação dos points mais tradicionais, ajudando a amenizar os impactos ambientais.

Com a popularização do trail run, vemos que os desafios não são mais explorar, mas sim se superar através da performance física, fazendo com que o montanhismo se torne um esporte de rendimento e não mais de navegação e estratégia. Isso é evidenciado pelo recorde de  Cristiano Tedeski no Pico Paraná (1h21m54s - 2025) e a redução do tempo da Travessia da Farinha Seca para apenas 6 horas!

Não podemos ignorar que a própria Alfa Crucis já foi repetida de ataque em 71h25m e a Charlie Charlie em 80 horas! 

Como foi a travessia King Kong
Gabriel Tarso
Como foi a travessia King Kong

O montanhismo exploratório ainda terá terreno fertil até que a Transparaná seja concluída, mas a tendência é inegável que o desafio seja bater recordes de velocidades nestas travessias, sendo que quanto maior for a trilha e mais rápido for o tempo a ser percorrido, melhor!

Projetos recentes também indicam a ascensão das Travessias Mistas, que combinam caminhada pesada com escalada em rocha técnica nas paredes mais inclinadas das montanhas. Este tipo de travessia é exemplificada e tem seu conceito resumido no que foi a “travessia King Kong”.

A Travessia King Kong, realizada em 2018 e vencedora do prêmio Mosquetão de Ouro 2019, consistiu em conectar três grandes paredes na Serra do Mar do Paraná em uma única expedição de 5 dias. Os protagonistas foram Edemilson Padilha, Valdesir Machado, Willian Lacerda e Gabriel Tarso.

O itinerário da travessia começou no Pico Ibitirati, onde a equipe escalou a via "Três Chapas", uma das vias de "parede" mais clássicas e isoladas do estado. O Ibitirati possui uma das maiores paredes de rocha do Brasil, e a via Três Chapas percorre seu imenso paredão vertical e tem este nome porque tem apenas três proteções fixas em toda sua extensão. Em seguida o grupo foi em direção ao Pico Paraná, rapelou de volta para o fundo do vale do Cotia e de lá escalaram a via "Musguenta" para acessar o Ferraria e escalar a via "Deus e o Diabo", uma via extremamente técnica e comprometedora, com cerca de 500 metros de extensão.

O grande feito dessa equipe não foi apenas escalar cada uma dessas vias separadamente, mas unir as três paredes por terra, atravessando vales profundos e sem trilhas, carregando todo o equipamento pesado de escalada tradicional (ferragem, cordas, bivaque). Eles percorreram o que chamaram de "território King Kong", devido à brutalidade do terreno e à força necessária para completar o desafio.

Paredão do Ibitirati, onde fica a via Mar de Caratuvas
Elcio Douglas Ferreira
Paredão do Ibitirati, onde fica a via Mar de Caratuvas

Outra travessia mista foi protagonizada pelo próprio Natan Fabricio e seus parceiros do Nas Nuvens, Adriano Safiano e Juliano P. Santos. Em 2021, eles conectaram dois dos blocos mais imponentes da Serra do Mar paranaense. 

A travessia começou no Pico Ibitirati, onde escalaram a imensa parede leste pela via Mar de Caratuvas. Após atingirem o cume deste ponto secundário do Pico Paraná, seguiram em travessia por terra em direção ao próximo objetivo, o Itapiroca, onde escalaram a via “10 anos”. Na sequência, após cruzarem os vales que separam os maciços, finalizaram com a ascensão de outra grande parede, no Morro do Tucum, pela via “10 Anos Depois”. Esta expedição consolidou o conceito de "travessia mista", que une o montanhismo clássico (caminhadas de longa distância e navegação) com a escalada técnica de grandes paredes (escalada tradicional) em uma única investida autônoma. 

Cronologia das travessias no Paraná


1947 – A semente da Alfa Ômega: José Zanlute e Benedito Perdoncin idealizam a travessia entre o Marumbi e o Canal ("Alfa Ômega"). Na época, apresentaram um relatório ao Círculo de Marumbinistas de Montanhismo (CMC), mas o projeto não avançou imediatamente.
1962 – Primeira tentativa do Vitamina: Junto com Ronaldo Cruz "Bigode".
1966 – Morro do Canal é batizado: Vitamina, Arlindo Toso, Nelson "Farofa" Penteado, Dalio Zippin e Ney Munhoz tentam realizar a travessia AO, mas são impedidos por uma forte tempestade.
1985 - Marumbi Trophy: A primeira corrida de aventura do Brasil antes deste conceito existir, popularizou parte da Alfa Ômega, em trecho denominado de “Free Way”.
1991 – Conquista da Alfa Ômega: Paulo César "Máfia", Dálio Zippin Neto, o “Dalinho”, Gilson Bongio e Maurício Vão finalmente concretizam a travessia do Marumbi para o Canal após a mesma já ter alcançado o status de “mito”.
1992 – Siririca x Graciosa: Conquista realizada por Evandro e Paul, utilizando cartas topográficas de escala 1:50.000 e bússola.
1993 – Conexão Caratuva x Ferraria: Primeira ligação entre esses pontos, expandindo a exploração no Ibitiraquire.
1995 – Serro Verde x Última Chance e Fechamento do Marumbi: Ligação fundamental que começou a conectar toda a região central da serra do Ibitiraquire. No mesmo ano, a região atrás do Olimpo no Marumbi torna-se área intangível, proibindo oficialmente o trânsito por ali.
1996 – Exploração dos Capivaris: Relatos falados de exploração na Serra do Capivari. 
1998 – Travessia da Farinha Seca: Conquista realizada por Canídia, Cover, Tavinho, Emerson e Lauro, ligando o trilho do trem à Graciosa via Campo dos Ciprianos.
2000 – Travessia do Milênio: Elcio Douglas, Paulo Marinho e outros realizam a primeira travessia completa do Ibitiraquire, do Ferraria à Graciosa.
2006 – Reabertura da Alfa Ômega: Após anos de abandono, a rota é refeita pelo grupo Nas Nuvens Montanhismo e Vitamina passa a condecorar quem a completa com medalhas.
2007 – Projeto Alfa Jakaira: Expedição de 14 dias realizado pelo Nas Nuvens Montanhismo varando mato para conectar a Alfa Ômega à Graciosa.
2010 – Padronização da Alfa Ômega: O grupo do AltaMontanha, liderado por Elcio Douglas, realiza um trabalho intenso de abertura e sinalização da trilha, estabelecendo a linha usada até hoje.
2011 – Alfa Ômega de ataque: Natan, Vinicius e Alisson, do NNM fazem a primeira travessia sem pernoite.
2012 – A Primeira Alfa Crucis: Consolidação da junção das três serras (Ibitiraquire, Farinha Seca e Marumbi) em um único projeto por Elcio Douglas e Jurandir Constantino.
2019 – Alfa Crucis Express: Após 6 anos de novos trabalhos de abertura, é lançada a versão "Express", eliminando estradas e trechos de rio. Elcio, Israel Silva e André Gauer Franzon.
2019 – Travessia King Kong: Edemilson Padilha, Valdesir Machado, Willian Lacerda e Gabriel Tarso uniram o montanhismo clássico (caminhadas de longa distância e navegação) com a escalada técnica de grandes paredes (escalada tradicional) em uma única investida autônoma.
2021 – Travessia Mista: Natan Fabricio, Adriano Safiano e Juliano P. Santos conectaram o Pico Ibitirati, onde escalaram Mar de Caratuvas e depois seguiram em travessia pelo Itapiroca , onde escalaram a via 10 anos e de lá, por terra em direção ao Morro do Tucum, onde escalaram via 10 Anos Depois. Difusão do conceito de Travessias Mixtas.
2021 - Elo entre os Capivaris e o Ibitiraquire: Guilherme Sabetzki e Paulo César Postal Filho começam a trabalhar na extensão da Alfa Crucis, abrindo a trilha entre o Guaricana e o Capivari 4. Sua trilha serve de base a vários outros montanhistas que, de forma anônima, consolidam o caminho nos anos seguintes.
2023 – Travessia Charlie x Chalie: Jhonatan Carvalho Pereira, o “Caveira das Montanhas”, une todas as serras e realiza uma travessia, através de quatro cadeias de montanhas de norte a sul em nossa serra por 8 dias, abrangendo 76 cumes e aproximadamente 130 km.
2024 – TPR: Início dos esforços para conquista da Travessia Transparaná, da divisa de São Paulo até a divisa com Santa Catarina.

Considerações finais

A história das travessias do Paraná está em constante evolução, e novos capítulos ainda serão escritos. No entanto, muitas das experiências vividas na Serra do Mar não são divulgadas, o que pode ter resultado na omissão de alguns fatos neste artigo.

Há várias ascensões históricas e lendárias que merecem mais detalhes, como a Face Norte do Agudo da Cotia (1989) e a Face Norte do Siririca (1991) por Tiaraju Fialho, Edson Struminski e Julio Nogueira. O paredão do Morro do Sete (preciso de mais informações sobre os escaladores e data), além da recente  Travessia frontal do conjunto Pico Paraná, pelo filo Noroeste  por Ollyver Rech Bizarro, Oliver Peppes e Danilo Vidal Blasi. Entretanto há que se pontuar que uma travessia mista não é apenas ascender por um lado e descer por outro a mesma montanha, nela está intrinseco a ideia de conectar várias montanhas numa empreitada só.

Para elaborar este texto, entrevistei muitos de seus protagonistas, selecionei as informações que considerei mais relevantes para ilustrar essa evolução, baseando-me também em livros, artigos online, vídeos, publicações em mídias sociais e relatos orais. É possível que, por desconhecimento, ou lapso de memória, eu tenha deixado de mencionar alguns fatos importantes. Há também nomes omitidos pelo medo dos mesmos em serem penalizados pela proibição da Alfa Ômega.

Aproveito esta oportunidade para enfatizar: histórias não contadas caem no esquecimento. Daí a importância de registrar suas realizações. Caso encontre informações incorretas ou ausentes, por favor, entre em contato pelo e-mail falecom(arroba)pedrohauck.net.

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