Pico do Ferraria ao fundo
Pedro Hauck
Pico do Ferraria ao fundo

Dois jovens foram resgatados na última semana após uma intensa busca que se estendeu por cerca de 48 horas na perigosa e fria região do Pico do Ferraria, um dos pontos notórios da Serra do Mar no Paraná. A dupla havia iniciado uma trilha na manhã de segunda-feira (8) e se perdeu, desencadeando uma complexa operação que mobilizou um vasto contingente de profissionais.

O alerta do desaparecimento foi dado após os trilheiros não cumprirem o horário de retorno nem conseguirem entrar em contato. As condições climáticas adversas, com neblina densa, chuva e quedas bruscas de temperatura durante a noite, foram um desafio constante para as equipes de resgate.

A operação mobilizou mais de 50 pessoas, incluindo militares do Corpo de Bombeiros (GOST), do Batalhão de Operações Aéreas (BPMOA) e grupos de socorristas voluntários. Para varrer a área de mata fechada, foram empregados drones com tecnologia termográfica durante as madrugadas e técnicas avançadas de busca e resgate em montanha (SAER).

Os jovens foram finalmente localizados na manhã de terça-feira, em uma zona de difícil acesso do Pico do Ferraria. Eles apresentavam exaustão extrema, sinais de desidratação severa e leve hipotermia, resultantes da longa exposição ao ambiente selvagem.

Após receberem os primeiros socorros no local e serem estabilizados, a dupla foi levada a um hospital e depois foram liberados.


Sobre o resgate no Ferraria: Meu comentário!


Embora qualquer pessoa possa se perder e precisar de resgate em uma montanha, este caso se apresenta como uma lição valiosa. Ele oferece uma oportunidade de debater atitudes de risco e reforçar a importância de fomentar uma cultura de segurança no montanhismo, sem o intuito de constranger os envolvidos (por isso, seus nomes não serão mencionados).

Informações obtidas extraoficialmente, que não constavam na comunicação oficial dos Bombeiros, trouxeram novos fatos. Primeiramente, a dupla de montanhistas iniciou a ascensão na segunda-feira pela manhã, adotando uma estratégia de ataque — rápida, leve e sem previsão de pernoite. Essa abordagem é, de fato, a recomendada para a época. Contudo, o Pico do Ferraria é uma montanha desafiadora, com uma trilha densa e acidentada. Para executá-la rapidamente, é aconselhável ter conhecimento prévio do percurso. A estratégia foi sensata, mas houve uma clara subestimação da dificuldade da montanha. Aqui temos um erro que anula o acerto.

É crucial destacar que nos aproximamos do verão, e dezembro é um mês tipicamente marcado por forte calor e chuvas. Estamos, portanto, em plena temporada de baixa de montanhismo, com grande probabilidade de precipitação. Além desse fator sazonal desfavorável, a previsão do tempo era péssima: o INMET havia emitido um alerta meteorológico de chuva e ventos fortes, amplamente divulgado na imprensa. A falha em consultar essa previsão constituiu um erro crasso.

Em períodos de verão, a recomendação para a travessia de montanha é sempre a incursão rápida, exatamente o plano da dupla. No entanto, é fundamental estar preparado para imprevistos, o que exige equipamento adequado. Isso inclui roupas impermeáveis e para frio, lanterna com pilhas extras e, essencialmente, comida. Um grande erro da dupla foi a falta de lanternas e o suprimento limitado a poucas frutas.

Apesar da imprudência com o equipamento, os montanhistas demonstraram bom senso na interpretação do caminho de ida. Eles alcançaram o topo do Pico do Taipabuçu, ponto obrigatório para o Ferraria, cruzaram o vale entre as duas montanhas, uma área notória por trilhas confusas e vegetação densa e fizeram cume no Ferraria.

A volta revelou um cenário drasticamente alterado. Após um dia de chuva intensa, a dupla se perdeu, desorientada pelo cansaço, umidade, falta de alimentos e ausência de sinal de celular. Eles decidiram seguir o curso de um rio que, de fato, levava à BR-116. No entanto, a falta de uma trilha tornou a descida extremamente exaustiva para corpos já enfraquecidos pela má alimentação. A noite foi passada entre pedras, em uma tentativa de manter o calor corporal.

Durante a descida, um dos montanhistas caiu em uma cachoeira, ficando completamente molhado e aumentando o risco de hipotermia. O resgate foi dificultado pela escolha do caminho, exigindo um esforço adicional da equipe que conseguiu interpretar a rota e localizá-los no meio do nada, muito distantes da trilha original e da civilização. Tiveram sorte!

Considerações finais


A dupla de montanhistas de Curitiba cometeu todos os erros possíveis em uma expedição na montanha, literalmente gabaritando tudo o que você não pode fazer na montanha:

. Escolheram a época inadequada para a incursão.
. Ignoraram a checagem da previsão do tempo.
. Enfrentaram uma forte tempestade, optando por prosseguir sob chuva intensa.
. Não levaram equipamentos essenciais, como lanterna e provisões.
. Em vez de buscar a trilha original quando se perderem, tentaram abrir caminho pela mata, rumo a um local desconhecido.
. Selecionaram uma montanha difícil e distante, com pouca margem para erro, em vez de uma opção mais fácil e conhecida.


Conclusão:

Tiveram sorte por serem resgatados a tempo. A intervenção de uma equipe de resgate qualificada e bem treinada foi crucial para localizá-los antes que entrassem em estado de hipotermia.

O verão é considerado a baixa temporada para o montanhismo. Nesse período, o ideal é deixar projetos mais ambiciosos de lado e priorizar saídas com o objetivo de apenas manter a forma física.


Dicas de segurança para o montanhismo no verão:

. Saia e volte cedo: Comece a caminhada nas primeiras horas do dia e encerre antes do meio-dia, quando o calor e as chuvas de verão costumam começar.
. Escolha trilhas fáceis e conhecidas: Evite rotas complexas.
. Fique atento às mudanças no tempo: Retorne imediatamente ao primeiro sinal de mudança repentina nas condições atmosféricas.
. Esteja bem equipado: Mesmo saindo cedo leve lanterna, roupa impermeável, blusa e comida

Principais riscos e cuidados na montanha durante o verão:

Raios: Risco de acidentes.
Hipotermia: Embora pareça contraditório, é um risco real, pois as pessoas se molham nas chuvas e podem sofrer uma queda brusca de temperatura corporal.
Animais peçonhentos: Tornam-se mais comuns com o aumento do calor.


Seja sempre prudente e evite erros!


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