
Nossa tentativa de escalar o Alto Toroni, uma montanha de altitude incerta na fronteira entre Chile e Bolívia, na região de Tarapacá, começou sob pressão. Com um cronograma apertado e apenas dois dias de tempo bom previstos, tínhamos que percorrer mais de 800 km desde São Pedro de Atacama. O Alto Toroni, pouco conhecido e raramente escalado, é ignorado nos mapas oficiais, mas acreditamos que sua altitude ultrapassa os 6000 m, superando o famoso vulcão Isluga (cerca de 5500 m) na região.
A logística era incerta: a montanha fica isolada, longe de qualquer cidade grande. Tivemos que cruzar o deserto do Atacama, uma paisagem monótona e esquecida do norte do Chile, onde a mineração domina. Postos de gasolina e restaurantes são raros e a atmosfera reflete um passado de conflitos e a busca por oportunidades. Essa desolação era agravada pelo clima político hostil aos imigrantes.
Chegamos a Cariquima, uma pequena cidade estilo boliviana já nos Andes, que nos serviu de base. Sua aparência era idêntica à de Vila Sajama, que dá acesso à montanha mais alta do país mais andino de todos. Após uma noite em uma acolhedora pousada, onde a dona aymará se esforçava para falar com sotaque chileno, e um jantar de carne de lhama com quinua, partimos cedo, por volta das 5h. Na base da montanha, instalamos nosso GPS de alta precisão.

O início da subida foi surpreendente: um oásis de verde em meio ao deserto, com muita água e a paisagem digna de um parque nacional, cheia de yaretas. No entanto, o caminho seguia um rio com muitas cachoeiras, forçando-nos a enfrentar um terreno pedregoso e instável.
Apesar da previsão de um dia de sol, o tempo amanheceu nublado, com um pouco de neve no início. Embora a visibilidade tenha melhorado, por volta das 13h o tempo fechou de vez. Às 15h30, avistamos o cume, talvez a apenas uma hora de distância. No entanto, a ameaça de uma tempestade elétrica, agravada pelo equipamento metálico que carregávamos, nos forçou a tomar a difícil decisão de retornar. Não cumprimos a missão de medir o cume, mas a altitude que alcançamos (cerca de 5800 m) reforça a probabilidade de o Alto Toroni ter mais de 6000 m.

Caminho até o Vulcão Pular
Após o insucesso no Alto Toroni, voltamos para São Pedro de Atacama. No dia seguinte, seguimos para o vulcão Pular. Deixamos o carro de Anderson com nosso amigo Emanuel, um guia gaúcho que mora no Chile e prosseguimos apenas com a caminhonete até o ponto definido como acampamento-base, a 4600 metros. Lá, montamos um acampamento confortável, incluindo uma barraca de cozinha que nos permitiu ter uma comida melhorada no jantar.
A ascensão ao Pular começou às 3h da manhã. Dirigimos até o ponto mais alto possível e iniciamos a caminhada na escuridão, guiados apenas pelas lanternas e por um tracklog do amigo Jean, outro brasileiro que mora em San Pedro. O desafio inicial foi a Quebrada Pular, um vale profundo e instável que nos obrigou a perder altitude antes de começar a ganhar novamente, aumentando o desvio topográfico para mais de 1700 m.
Eu e Maria, seguindo a mesma estratégia do Salín, subimos no nosso ritmo, mantendo contato por rádio com o Anderson, que ficou para trás. Ao amanhecer, decidimos abandonar o tracklog e seguir uma crista que se mostrou um caminho mais rápido. Infelizmente, o Anderson comunicou sua desistência devido a problemas com a bota.
Apesar da progressão rápida na crista, o trecho final foi penoso, com muita pedra solta e areia. Conseguimos chegar ao topo e fomos recompensados com uma vista espetacular da cratera, preenchida por um lago congelado. O Pular provou ser uma montanha para poucos: sem trilha, de acesso difícil e com pouquíssimas assinaturas no livro do cume, instalado em 2006.
Comemoramos a conquista: o 40º cume de Maria e meu 67º acima de 6000 m nos Andes. Esta ascensão coroou o fim de nossa temporada Chile-Argentina, que começou em dezembro. De quatro montanhas tentadas, três foram concluídas, sendo duas acima de 6000 m.
Retornamos a São Pedro, celebramos com nossos amigos brasileiros e, no dia seguinte, iniciamos a longa viagem de volta para Curitiba, atravessando a Argentina. Foi uma temporada memorável.
Mas as aventuras não param por aqui. Após um breve descanso, iniciaremos uma nova temporada: Bolívia e Peru, no meio do inverno, a melhor época para escalar por lá, quando o céu azul e o tempo seco dominam. Aguardem novos relatos!

