Cume do Vulcão Salin
Pedro Hauck
Cume do Vulcão Salin

Em minha mais recente publicação, narro o desfecho de minha temporada andina de verão, uma série de expedições pela Argentina e Chile iniciada em 18 de janeiro de 2025. Após concluir os compromissos comerciais e guardar todos os equipamentos, iniciamos a fase dos projetos pessoais, livres de obrigações profissionais. Éramos um grupo de três: eu, minha esposa e parceira de escalada Maria, e o engenheiro e topógrafo Anderson Ronielly. Com dois veículos, partimos para enfrentar novas montanhas, sendo os primeiros alvos os vulcões Salin (6.044 metros) e Pular (6.220 metros), localizados um em frente ao outro.


O Salin e o Pular são dois picos de mais de 6 mil metros que, até recentemente, eram pouco conhecidos e raramente escalados. Eles se situam na fronteira Argentina-Chile, próximos ao passo Socompa, por onde passa a ferrovia Salta x Antofagasta, que ficou inativa por um longo período. A região possui diversos pontos de travessia entre os países. Foi essa característica que levou o General Augusto Pinochet, em 1978, durante a iminência de um conflito armado entre Chile e Argentina, a ordenar o minamento da área. Essa medida afastou por muito tempo aqueles que pretendiam escalar essas montanhas remotas. Com a garantia de que as minas terrestres foram removidas, o montanhismo na região recomeçou há cerca de uma década, embora o número de ascensões ainda seja pequeno.

A escalada do Salin

A nossa escalada ao Vulcão Salín começou sem pressa. Devido à sua baixa dificuldade técnica e ao fato de estarmos bem aclimatados e há bastante tempo em altitude, pudemos nos dar ao luxo de iniciar a caminhada após o nascer do sol e depois de tomar café da manhã. De fato, a montanha não apresenta grandes obstáculos técnicos, apenas exige preparo físico.

O percurso inicial é uma longa e suave rampa, coberta de pedras soltas e sem uma trilha definida. A inclinação não era acentuada o suficiente para exigir ziguezagues; simplesmente fomos cortando a curva de nível, visando uma crista que se apresentava como o caminho mais lógico para a parte superior do vulcão.

Sem um ritmo imposto, cada um seguiu no seu passo. Maria disparou na frente, enquanto Anderson acabou ficando para trás. Mantivemos a comunicação por rádio e, assim, fomos ganhando altitude. O terreno começou a exigir mais esforço à medida que a inclinação aumentava e a presença de pedras se tornava mais constante.

Neste trecho mais difícil, comecei a notar vestígios de uma passagem: pequenos pontos onde a areia se acumulava sob as rochas, sugerindo um rastro deixado por um grupo anterior. Segui por esse caminho, ajudando a consolidar o que parecia ser uma trilha, mesmo que ela desaparecesse em vários pontos. Foi seguindo esse rastro que encontrei Maria a 5.720 metros de altitude. Nesse ponto, havia uma seção com paredes rochosas e um desnível que oferecia uma passagem mais fácil, e foi por ali que prosseguimos.

Após superarmos um ressalto, o terreno se tornou menos íngreme, semelhante em inclinação à primeira rampa, mas com ondulações e significativamente menos rochas soltas. Isso facilitou a progressão em zigue-zague até o falso cume do Salín. A vista era um tanto desanimadora, mas o desnível até o topo era pequeno, apenas uma crista unindo os cumes. Em menos de meia hora, atingimos o ponto mais alto da montanha, desfrutando de uma vista espetacular das montanhas vizinhas. Cada montanha evocava uma memória, como o Llullallaico, escalado em 2014, e o Socompa, alcançado um ano depois com minha companheira. Naquela época, esta foi a segunda montanha dela acima de 6 mil metros; nesta ocasião, era a 39ª diferente só nos Andes!


Para a descida, escolhemos um caminho diferente, aproveitando o terreno solto de um vale, o que agilizou muito. Infelizmente, Anderson não conseguiu completar a subida, desistindo a 5700 metros. Exaustos, retornamos ao carro. Preparei um jantar simples, enfrentando o vento forte da Puna, e fomos dormir logo em seguida.

O dia amanheceu preguiçoso, e eu já sentia o cansaço. Sabia que o próximo desafio, o Pular, seria significativamente maior, pois, além de ser mais alto, exigiria uma aproximação de carro menos extensa. Nosso primeiro objetivo era encontrar a rota 4x4 que nos levaria o mais longe possível para, no dia seguinte, fazermos o ataque final a pé.


Imprevistos no meio do caminho


Demoramos no acampamento, mas finalmente desmontamos tudo e iniciamos a exploração. Chegamos à base de uma encosta que nossos veículos teriam que superar. Anderson foi na frente, e eu o segui de perto. A subida, que parecia íngreme, foi tranquila para minha caminhonete. No entanto, ao alcançar um trecho mais plano, vi Anderson parado. Estacionei ao lado do carro dele e, naquele momento, notei que a roda dianteira estava virada de forma totalmente assimétrica. "Algo muito errado deve ter acontecido!", pensei, sentindo um frio na barriga, isolados no meio do nada.

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Pedro Hauck

Carro quebrou no meio do nada

A princípio, parecia que o eixo havia quebrado, mas o problema era, paradoxalmente, mais simples e, naquele contexto, igualmente insolúvel: a porca do terminal de direção havia se soltado e espanado a rosca. Sem a porca e sem ferramentas adequadas para o reparo, decidimos trancar o carro e retornar a San Pedro de Atacama. Nossa ideia inicial era buscar um mecânico para substituir o terminal.

Chegamos a San Pedro no final da tarde, algo surpreendente, visto que há poucos anos era difícil chegar ao Salin e Pular devido ao isolamento. Conseguimos provar que, atualmente, é possível alcançar a base desses "seis mil" em apenas 3 horas. Encontramos um hotel simples com garagem e iniciamos o planejamento dos passos seguintes. 

As fotos que tiramos confirmavam que o terminal não estava quebrado. Elaboramos os Planos A, B e C, que incluíam uma viagem a Calama no dia seguinte para buscar peças. Encontramos dificuldades, pois era dia de festa na cidade e o comércio estava lento, mas conseguimos adquirir tudo o que era necessário.

No dia seguinte, voltamos para resgatar o carro e conseguimos executar o Plano A: refazer a rosca do terminal e colocar uma porca nova. O trabalho foi rápido e fácil. Já que estávamos ali, aproveitei para dirigir um pouco mais com meu carro e explorar uma rota de acesso ao Pular. O problema do veículo estava resolvido, mas a longa e sinuosa rota para o Pular, com seus muitos aclives e declives, nos deixou em dúvida. Decidimos adiar essa escalada e voltamos para San Pedro para escalar outra montanha de nosso projeto e que não seria apenas uma mera ascensão, mas uma medição!


Escalando e medindo o Sairecabur


O Sairecabur foi o alvo desta expedição. Eu o escalei em 2014, e meu GPS de navegação marcou 6008 metros, o mesmo valor registrado anos antes pelo meu saudoso amigo Parofes. No entanto, a maioria das medições aponta altitudes inferiores a 6 mil metros, embora muito próximas, o que coloca o Sairecabur na margem de erro dos aparelhos de GPS comuns. Essa incerteza motivou a viagem. Como Anderson é topógrafo e possui um GPS de precisão, combinamos de ir juntos para medir o Sairecabur e, finalmente, confirmar se ele atinge ou não os seis mil metros.

Saímos de San Pedro antes do amanhecer, rumo à estrada do Sairecabur. Logo na saída, passamos por uma viatura dos Carabineros, o que gerou alguma apreensão, pois a região é conhecida por uma rota 4x4 informal que desce para a Bolívia, utilizada por ladrões para o contrabando de carros roubados.

Sairecabur
Pedro Hauck
Sairecabur


A estrada, inicialmente boa até a Termas de Puritama, deteriora-se significativamente, apresentando erosões imensas que exigem perícia na condução. No entanto, surpreendentemente, o caminho melhora mais acima, permitindo que chegássemos rapidamente ao local de estacionamento.

Antes de iniciar a subida, dedicamos tempo para montar e conectar a base do GPS (tipo L1 L2) a uma estação de energia, pois este equipamento necessita de horas para realizar as medições necessárias.

A ascensão foi surpreendentemente fácil. O Sairecabur é, de fato, uma montanha bastante acessível: são menos de dois quilômetros e apenas 400 metros de desnível do carro até o cume, apesar do terreno ser bem pedregoso.

No cume, montamos o tripé para as medições de altitude. Com grande expectativa, após mais de 300 medições, o primeiro resultado, baseado no formato elipsoide da Terra, indicou 6024,88 metros. Contudo, a convenção atual utiliza o modelo geoide. Conectando-nos à internet via uma antena Starlink, refizemos o cálculo. A altitude correta, na forma geoidal, revelou ser exatamente 5983,46 metros. Por muito pouco, o Sairecabur não alcança a marca dos seis mil metros!

Restava medir mais uma montanha com o GPS de Anderson, mas ela estava a 800 km de San Pedro. A previsão do tempo indicava apenas dois dias de tempo bom nela, o que significava um dia para a viagem de ida, um para a escalada e, no dia seguinte, o tempo fecharia por mais de dez dias. Este seria, portanto, nosso próximo desafio.

E não era um 6 mil...
Pedro Hauck
E não era um 6 mil...

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