Acampamento base do Salin
Pedro Hauck
Acampamento base do Salin

Desde meados de dezembro, mais precisamente no dia 18, mergulhei de cabeça em uma temporada de alta montanha nos Andes que se revelou tão desafiadora quanto gratificante. Guiando um total de cinco expedições através de paisagens majestosas na Argentina e no Chile, dediquei cada dia a conduzir aventureiros por rotas icônicas oferecidas pela Soul Outdoor, minha empresa de expedições em montanha junto com minha esposa, Maria Tereza Ulbrich. 


Os itinerários incluíram a ascensão ao desafiador Cerro Plomo, nos arredores de Santiago; a épica jornada ao Aconcagua, o Colosso da América; a travessia histórica do Cruce de los Andes, uma trilha histórica por onde passou parte do exército libertador de San Martin; e, por fim, duas imersões extenuantes na região de altitude extrema, com o Nevado San Francisco e o impressionante Ojos del Salado. Estas não foram meras caminhadas; foram provas de resistência contra o frio cortante, ventos incessantes e a rarefação do ar, exigindo planejamento meticuloso e resiliência inabalável. 


Na minha última publicação, detalhei os desafios enfrentados durante a organização da expedição San Francisco e Ojos. A primeira etapa, com um grupo numeroso e de níveis de experiência variados, impôs grandes dificuldades, começando pelos problemas apresentados pelos veículos alugados. Contudo, apesar desses contratempos, superamos as adversidades, cumprindo o cronograma e entregando a expedição conforme planejado, sem atrasos ou falhas.


Na segunda turma, ligeiramente menor, tivemos mais sorte e nenhum imprevisto nos tirou o sono. A turma tinha um perfil diferente também. Todos queriam além de escalar o San Francisco, considerada uma montanha de 6 mil metros para iniciantes e finalizar a expedição só com o cume do Ojos, o vulcão mais alto do mundo, a montanha mais alta do Chile e a segunda dos Andes, com apenas 70 metros a menos que o Aconcagua.

Desta vez, a experiência pode ser resumida em apenas um parágrafo: tudo correu perfeitamente! Quase todos (com apenas uma exceção) alcançaram o cume do nosso objetivo principal. Foi um sucesso tão grande que não preciso de muitas palavras para descrever, afinal, as melhores histórias são sempre sobre experiências mal sucedidas. Mal pude acreditar, ao deixar os clientes no aeroporto, que a longa temporada na Argentina e no Chile, que durou um quarto do ano, havia finalmente chegado ao fim. E o melhor: eu estava apenas cansado, e não exausto!

Todo fim é um novo começo!


A desmobilização levou dois dias: limpar, organizar, catalogar e guardar os equipamentos. Depois, lavar a roupa, comer, descansar um pouco, arrumar o carro e seguir viagem. Mas o destino não é a casa! Todos os anos, o fim da temporada de guias é um convite irrecusável para nós. Aproveitamos a aclimatação residual para perseguir novos objetivos e riscar alguns picos da nossa lista de desejos pessoais. No entanto, o desafio nesta fase vai muito além da altitude ou da dificuldade técnica da montanha em si. A verdadeira batalha é contra o cansaço acumulado de meses de expedições ininterruptas. Além disso, temos que lidar com um "passageiro" inconveniente: o carro, que na volta, está abarrotado com todo o equipamento da temporada. Essas tralhas, essenciais para o trabalho, tornam-se um fardo na estrada, apenas servindo para atrapalhar e encher o saco durante a nossa viagem pessoal.


Partimos tarde de Copiapó, rumo ao Salin e ao Pular, duas montanhas de 6 mil metros situadas ao sul de San Pedro de Atacama, no Norte do Chile. Até cerca de dez anos atrás, o acesso a estes picos andinos era raro. O motivo era a presença de milhares de minas terrestres plantadas na região em 1978, durante um período de quase guerra entre o Chile de Pinochet e a Argentina. Essa situação afastou os montanhistas da área, mesmo estando perto de San Pedro, um destino super turístico, que, ironicamente, permaneceu distante destes gigantes que permaneceram esquecidos e quase intocados. Eles seriam nossos primeiros objetivos.


Tínhamos mais de 800 km de estrada antes de chegarmos ao destino. Fomos em dois carros, e nessa jornada, contamos com a participação do engenheiro Anderson Ronielly. Embora formado em engenharia, Anderson atua mais como topógrafo atualmente. Ele foi meu aluno em um curso de escalada que dei na Pedra da Represa, em Salesópolis, e hoje compartilha o fascínio pela alta montanha. Quando comentei sobre a intenção de usar seu GPS de precisão para medir a altitude de certas montanhas no Chile — aquelas cuja classificação como "seis mil metros" (a cota altimétrica máxima dos Andes) está em dúvida —, ele topou imediatamente.


Antes de seguirmos para as montanhas, precisávamos dar carona a Yudith e Alex, nossos guias que, após trabalharem arduamente nas últimas expedições, estavam regressando para suas casas no Peru e na Bolívia. Com os dois carros abarrotados de equipamentos, deixamo-los em uma noite quente na rodoviária de Antofagasta, a quinta maior cidade do Chile. Exaustos, procuramos um hotel na cidade litorânea que tivesse garagem para os dois veículos e quartos com preço acessível.


Encontramos acomodação com vaga apenas para um carro. Embora eu estivesse ciente dos riscos, Anderson concordou em deixar o carro dele na rua. Afinal, havia câmeras, estávamos bem em frente à recepção do hotel e o recepcionista ainda nos emprestou uma trava de segurança. No entanto, o que era temido aconteceu: às 5 da manhã, um ladrão tentou arrombar o veículo. Ele fugiu depois que o funcionário do hotel acionou um alarme.

O incidente foi todo filmado, mas o ladrão conseguiu escapar. A polícia sequer compareceu para analisar o material, e tivemos que seguir viagem no dia seguinte com o vidro trincado.

Mineradora la Escondida
Pedro Hauck
Mineradora la Escondida


Com o vidro rachado, iniciamos nossa jornada rumo aos Andes, subindo do nível do mar às grandes altitudes em um único dia. Minha pesquisa indicava que o trajeto cruzaria uma estrada de mineração antes de seguir por estradas de terra remotas até a fronteira argentina. A mina que cruzamos era a Mina La Escondida, a maior mina de cobre a céu aberto do mundo. Até lá, a estrada era de excelente qualidade e intensamente utilizada por caminhões com suprimentos para a mineração e ônibus transportando trabalhadores.


Ao chegarmos à área da mina, pegamos um desvio que margeava as lavras, onde a qualidade da estrada deteriorou-se drasticamente. O caminho virou uma pista precária, feita de terra e poeira. Por vezes, tivemos a sensação de estar dentro da mina, mas tratava-se, de fato, da própria estrada nacional com vista privilegiada aos gigantes caminhões off road. 


Deixamos a mina para trás e atravessamos um extenso trecho de deserto. Em locais tão insólitos, é possível sentir o exato significado da solidão: não há nada, não há ninguém, e sequer entendemos o motivo da estrada existir ali. Foi cruzando essa paisagem remota que fomos nos aproximando dos Andes, com nossos objetivos — as montanhas nevadas! — ficando cada vez mais próximos.


Com foco na paisagem, destacam-se os vulcões Llullaillaco — o sétimo mais alto do mundo e o lar do sítio arqueológico mais elevado do planeta — e o Socompa, outro belíssimo vulcão de 6 mil metros, que escalei com Maria em 2015. Nossos objetivos atuais são o Pular e o Salín. A navegação era crucial, pois tracei o percurso interpretando imagens do Google Earth, procurando nas fotos de satélite por trilhas de carros para tentar alcançar o campo base da montanha.

O Vulcão Salín
Pedro Hauck
O Vulcão Salín


A trilha revelou-se mais bem demarcada do que as imagens de satélite sugeriam. No final da tarde, chegamos ao vale situado entre os dois imponentes vulcões. Além da beleza das montanhas, pudemos observar a vida selvagem: Vicunhas, Guanacos e Emas, que se dispersavam à medida que avançávamos sobre as marcas de pneus deixadas por veículos anteriores.


De repente, uma caminhonete branca surgiu à frente. Inicialmente, senti um entusiasmo, pensando que seriam outros montanhistas com quem poderíamos trocar experiências. Contudo, o veículo desceu em alta velocidade, vindo diretamente em nossa direção pelo mesmo caminho. Parou bruscamente, e quatro homens fortemente armados saíram de dentro! Naquele momento, percebi que o bom estado da trilha provavelmente não se devia a um caminho turístico, mas sim a uma rota utilizada por contrabandistas e traficantes que cruzavam a fronteira entre Argentina e Chile.


Para nosso alívio, apenas o veículo estava descaracterizado. Os homens eram, na verdade, Carabineros do Chile, devidamente uniformizados. Ufa! Eles estavam apenas realizando uma busca por traficantes e contrabandistas. No entanto, o bagageiro de teto e o volume de nossos equipamentos logo indicaram nossa atividade, e não precisamos dar maiores explicações. O encontro, embora incomum, teve um lado positivo: teríamos uma noite tranquila, sem a visita indesejada de bandidos que rondam a área.

Acampamento base do Salin
Pedro Hauck
Acampamento base do Salin


Após esse episódio, encontrei o local ideal para nosso acampamento-base: um vale relativamente protegido do vento, perfeito para montar a barraca. Dali, partiríamos para a escalada do Vulcão Salín.


Continua no próximo capítulo…


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