Cume no Nevado San Francisco
Pedro Hauck
Cume no Nevado San Francisco

Após um período sem escrever, retomo as crônicas da minha vida como guia brasileiro nas montanhas do exterior, mais precisamente na Cordilheira dos Andes, entre Argentina e Chile, durante a temporada de verão. A última coluna detalhou a histórica Travessia Cruce de Los Andes, uma trilha histórica utilizada por San Martín para libertar o Chile há mais de 200 anos. Desde meu último texto, muita coisa aconteceu.


A temporada caminha para o fim, mas não sem antes mais uma saga: a expedição ao Nevado San Francisco (um vulcão de 6.000m, acessível a iniciantes) e, principalmente, ao Ojos del Salado, a montanha mais alta do Chile e o vulcão mais alto do mundo, com 6.883m.


Assim que encerrei o Cruce de Los Andes, precisei retornar ao Brasil para resolver questões pessoais, deixando a equipe no Chile. Ao regressar, meu destino foi Copiapó, a cerca de 800km ao norte de Santiago. Copiapó é conhecida internacionalmente pelo resgate dos mineiros em 2009. Esta cidade está inserida na paisagem do Atacama, o deserto mais seco do mundo. Contudo, poucos sabem que sua região de fronteira com a Argentina abriga alguns dos maiores vulcões e montanhas mais altas dos Andes, belezas muitas vezes ignoradas pela própria cidade.


Todos os anos, nossa empresa, a Soul Outdoor, realiza esta expedição, uma das mais procuradas. É um trabalho árduo, pois Copiapó carece de serviços de apoio e guias de montanha. Toda a logística é nossa responsabilidade: desde barracas (não só as de dormir, mas as de cozinha e refeitório, equipadas com mesas, cadeiras e fogões, para cozinhar para muitos clientes) até o transporte de centenas de litros de água da cidade para a montanha, um peso gigantesco.


Para enfrentar o terreno precário e perigoso, são essenciais veículos 4x4 bem equipados, o que, ironicamente, adiciona uma camada de dificuldade e risco. Atolar ou quebrar o carro é um perigo constante, exigindo sangue frio e bons motoristas.


Início Tenso: Problemas com os Carros


A primeira grande dor de cabeça surgiu na véspera da chegada dos 16 clientes: a locadora original cancelou a reserva dos veículos. Não era uma questão de dinheiro, mas de viabilidade da expedição – sem os carros, a logística desmoronaria. Meu estômago gelou e o coração disparou. A temporada na Argentina havia sido fraca e deficitária, e o Ojos del Salado era nossa salvação.


Naquela noite, nervoso, consegui reservar um carro pelo aplicativo, um modelo mais robusto. No dia seguinte, no aeroporto de Copiapó, o guichê da empresa que constava na reserva não a encontrava. Descobri que havia errado a data, para dois dias depois. No entanto, ao notar um logotipo diferente no meu comprovante, perguntei no guichê ao lado. Para minha surpresa e alívio, a reserva estava lá, com a data correta. Aproveitei a sorte e fechei o aluguel. Pouco depois, minha esposa e sócia, Maria, conseguiu mais dois carros na locadora original. O problema, que me causou uma noite de pesadelos, foi resolvido em poucas horas.


Da Solução a um Novo Sinistro


Mal havíamos respirado aliviados, um novo revés. Ordeno que dois guias adiantem a carga e levem a cozinheira Francisca e a guia Judith para a Laguna Santa Rosa (3.800m), o primeiro local de pernoite. Ao fim da tarde, quando a calma começava a retornar, recebo fotos: os dois carros recém-alugados, praticamente zero km, batidos no meio da estrada. O desespero foi total.


Apesar da aparência ruim dos veículos, os guias conseguiram completar o adiantamento da carga. De volta a Copiapó, consegui trocar o carro mais danificado (que estava no meu nome) por outro, resolvendo a situação com menos prejuízo do que o esperado. Cheguei ao acampamento atrasado, com a última cliente, Tatiana.


Superando os Percalços e aclimatação


Juro que não aguento mais tamanha pressão. A organização de uma expedição envolve honrar um compromisso gigantesco, onde qualquer erro tem um custo altíssimo (imagine ter que pagar o hotel de 16 pessoas por mais um dia). Resolvi o sinistro, acionei o seguro (com alta franquia) e, finalmente, a expedição começou, com a esperança de que, dali em diante, a normalidade prevalecesse.


No dia seguinte, fizemos uma aclimatação no Cerro Siete Hermanas (4.200m), sem incidentes. Depois, desmontamos a estrutura e seguimos para o Acampamento Base na Laguna Verde (4.300m). A segunda aclimatação nos levou ao Mulas Muertas (5.000m). Enquanto eu liderava a subida, Maria desceu para Copiapó para reabastecer água e comida, regressando à noite.


Pneus Perdidos no Deserto


A próxima etapa foi a subida com os 4x4 até o Refúgio Teros (5.840m). Essa incursão é crucial para a aclimatação e para o reconhecimento do acesso, que eu já sabia estar mais difícil neste ano. Logo no início, atolamos em um areal. Após desatolar, olho no retrovisor e vejo o carro de Maria com um pneu vazio. Não era um, eram dois pneus vazios, em carros de modelos diferentes, o que aumentou a apreensão sobre os estepes. Felizmente, um estepe (embora com numeração diferente) serviu na caminhonete L200, e seguimos, exigindo o máximo dos veículos no trecho mais complicado. Cheguei ao refúgio estressado, mas conseguimos a aclimatação sem mais acidentes.


Eu estava preocupado: Maria teria que descer novamente para consertar os pneus. Decidi esperar dois dias, mantendo o plano de descida e evitando mais riscos e gastos com uma descida extra e solitária dela.


Sucesso Rápido no Peñas Blancas


Nesta expedição, tínhamos a Ana Lícia, uma cliente especial que já havia escalado o San Francisco e o Ojos. Ela queria aproveitar nossa infraestrutura para escalar outros "seismil" da região. Ofereci o Peñas Blancas. Convidei também a Isabela, que tentava o Ojos novamente. Saí de madrugada com as duas e a guia Judith. O caminho 4x4 até a base do Peñas Blancas é tenso, com pedras afiadas, mas chegamos em tempo hábil para iniciar a ascensão cedo. As meninas caminharam muito rápido, e fizemos o cume (6.000m) em apenas 5h30. Foi uma grande alegria. Na descida, as meninas sofreram com bolhas nos pés devido às botas duplas e à ausência de neve (muita pedra solta).


O Terceiro Pneu Perdido


Durante a descida de volta ao acampamento, um novo imprevisto: o pneu que eu estava dirigindo estourou. Terceiro pneu perdido na expedição. Chegamos ao acampamento e eu tinha poucas horas de descanso antes de iniciar a ascensão ao Nevado San Francisco com o restante do grupo.


O Cume do San Francisco e o Grande Desafio


Acordei de madrugada e ajudei os guias a levarem o grupo ao topo do vulcão San Francisco. Graças a Deus, tudo deu certo: todos fizeram cume com tranquilidade e um bom ritmo. Retornamos ao Acampamento Base felizes, mas com as pendências batendo à porta.


Na manhã seguinte, Maria e Wellington desceram com os clientes para Copiapó, também encarregados de resolver a questão dos pneus. Saíram tarde e chegaram tarde, conseguindo resolver apenas dois problemas: compraram dois pneus de segunda mão em boas condições, mas um foi perda total. Chegaram de volta faltando apenas uma hora para partirmos para o ataque ao Ojos del Salado, o ponto alto (e mais difícil) da expedição.


Ojos del Salado: A Cereja do Bolo e o Prejuízo Final


Sem descanso e sem dormir, iniciamos a subida ao vulcão mais alto do mundo durante a madrugada. A tensão era constante. Em um dos trechos perigosos, bati em uma pedra e destruí o estribo do meu carro. Mesmo assim, chegamos à base e iniciamos a ascensão propriamente dita. O tempo estava ótimo – pouco vento e frio – o que ajudou.


Cheguei à cratera com quatro guias. Maria desceu com os clientes que desistiram. Muitos que chegaram à cratera estavam exaustos. Sabendo que o trecho final (a escalaminhada até o cume) era o mais complicado, e que os mais cansados não teriam energia para retornar, optei por não insistir. Eles esperaram, descansando, enquanto os mais energéticos (eu e os guias) seguiram para o cume do Ojos del Salado.

montanhas vistas do cume do Ojos del Salado
Pedro Hauck
montanhas vistas do cume do Ojos del Salado


Muita comemoração, mas o trabalho só termina com todos em segurança. Descemos, nos encontramos com o restante do grupo na cratera e iniciamos a descida final, que levou cerca de 4 horas, chegando aos carros ao pôr do sol e ao acampamento já à noite.


A expedição foi um sucesso, com todos os problemas resolvidos rapidamente. Este trabalho exige, além de preparo físico de atleta, a experiência para tomar decisões corretas sob pressão. Conseguimos resolver todas as pendências, mas o custo total ainda não chegou.


O Preço de Ser Guia de Montanha


No final, descendo com os clientes, perdi mais um pneu. Quatro pneus, basicamente o equivalente a uma caminhonete inteira em prejuízo.


Muitos pensam que tenho a melhor profissão do mundo. A verdade é que ser guia de montanha é extremamente difícil e exigente. Muitas vezes, perdemos mais dinheiro do que ganhamos. Mas, sim, é divertido, contanto que você goste de ficar exausto, de se superar e de fazer com que as pessoas se superem.

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