
Após um período sem escrever, retomo as crônicas da minha vida como guia brasileiro nas montanhas do exterior, mais precisamente na Cordilheira dos Andes, entre Argentina e Chile, durante a temporada de verão. A última coluna detalhou a histórica Travessia Cruce de Los Andes, uma trilha histórica utilizada por San Martín para libertar o Chile há mais de 200 anos. Desde meu último texto, muita coisa aconteceu.
A temporada caminha para o fim, mas não sem antes mais uma saga: a expedição ao Nevado San Francisco (um vulcão de 6.000m, acessível a iniciantes) e, principalmente, ao Ojos del Salado, a montanha mais alta do Chile e o vulcão mais alto do mundo, com 6.883m.
Assim que encerrei o Cruce de Los Andes, precisei retornar ao Brasil para resolver questões pessoais, deixando a equipe no Chile. Ao regressar, meu destino foi Copiapó, a cerca de 800km ao norte de Santiago. Copiapó é conhecida internacionalmente pelo resgate dos mineiros em 2009. Esta cidade está inserida na paisagem do Atacama, o deserto mais seco do mundo. Contudo, poucos sabem que sua região de fronteira com a Argentina abriga alguns dos maiores vulcões e montanhas mais altas dos Andes, belezas muitas vezes ignoradas pela própria cidade.
Todos os anos, nossa empresa, a Soul Outdoor, realiza esta expedição, uma das mais procuradas. É um trabalho árduo, pois Copiapó carece de serviços de apoio e guias de montanha. Toda a logística é nossa responsabilidade: desde barracas (não só as de dormir, mas as de cozinha e refeitório, equipadas com mesas, cadeiras e fogões, para cozinhar para muitos clientes) até o transporte de centenas de litros de água da cidade para a montanha, um peso gigantesco.
Para enfrentar o terreno precário e perigoso, são essenciais veículos 4x4 bem equipados, o que, ironicamente, adiciona uma camada de dificuldade e risco. Atolar ou quebrar o carro é um perigo constante, exigindo sangue frio e bons motoristas.
Início Tenso: Problemas com os Carros
A primeira grande dor de cabeça surgiu na véspera da chegada dos 16 clientes: a locadora original cancelou a reserva dos veículos. Não era uma questão de dinheiro, mas de viabilidade da expedição – sem os carros, a logística desmoronaria. Meu estômago gelou e o coração disparou. A temporada na Argentina havia sido fraca e deficitária, e o Ojos del Salado era nossa salvação.
Naquela noite, nervoso, consegui reservar um carro pelo aplicativo, um modelo mais robusto. No dia seguinte, no aeroporto de Copiapó, o guichê da empresa que constava na reserva não a encontrava. Descobri que havia errado a data, para dois dias depois. No entanto, ao notar um logotipo diferente no meu comprovante, perguntei no guichê ao lado. Para minha surpresa e alívio, a reserva estava lá, com a data correta. Aproveitei a sorte e fechei o aluguel. Pouco depois, minha esposa e sócia, Maria, conseguiu mais dois carros na locadora original. O problema, que me causou uma noite de pesadelos, foi resolvido em poucas horas.
Da Solução a um Novo Sinistro
Mal havíamos respirado aliviados, um novo revés. Ordeno que dois guias adiantem a carga e levem a cozinheira Francisca e a guia Judith para a Laguna Santa Rosa (3.800m), o primeiro local de pernoite. Ao fim da tarde, quando a calma começava a retornar, recebo fotos: os dois carros recém-alugados, praticamente zero km, batidos no meio da estrada. O desespero foi total.
Apesar da aparência ruim dos veículos, os guias conseguiram completar o adiantamento da carga. De volta a Copiapó, consegui trocar o carro mais danificado (que estava no meu nome) por outro, resolvendo a situação com menos prejuízo do que o esperado. Cheguei ao acampamento atrasado, com a última cliente, Tatiana.
Superando os Percalços e aclimatação
Juro que não aguento mais tamanha pressão. A organização de uma expedição envolve honrar um compromisso gigantesco, onde qualquer erro tem um custo altíssimo (imagine ter que pagar o hotel de 16 pessoas por mais um dia). Resolvi o sinistro, acionei o seguro (com alta franquia) e, finalmente, a expedição começou, com a esperança de que, dali em diante, a normalidade prevalecesse.
No dia seguinte, fizemos uma aclimatação no Cerro Siete Hermanas (4.200m), sem incidentes. Depois, desmontamos a estrutura e seguimos para o Acampamento Base na Laguna Verde (4.300m). A segunda aclimatação nos levou ao Mulas Muertas (5.000m). Enquanto eu liderava a subida, Maria desceu para Copiapó para reabastecer água e comida, regressando à noite.
Pneus Perdidos no Deserto
A próxima etapa foi a subida com os 4x4 até o Refúgio Teros (5.840m). Essa incursão é crucial para a aclimatação e para o reconhecimento do acesso, que eu já sabia estar mais difícil neste ano. Logo no início, atolamos em um areal. Após desatolar, olho no retrovisor e vejo o carro de Maria com um pneu vazio. Não era um, eram dois pneus vazios, em carros de modelos diferentes, o que aumentou a apreensão sobre os estepes. Felizmente, um estepe (embora com numeração diferente) serviu na caminhonete L200, e seguimos, exigindo o máximo dos veículos no trecho mais complicado. Cheguei ao refúgio estressado, mas conseguimos a aclimatação sem mais acidentes.
Eu estava preocupado: Maria teria que descer novamente para consertar os pneus. Decidi esperar dois dias, mantendo o plano de descida e evitando mais riscos e gastos com uma descida extra e solitária dela.
Sucesso Rápido no Peñas Blancas
Nesta expedição, tínhamos a Ana Lícia, uma cliente especial que já havia escalado o San Francisco e o Ojos. Ela queria aproveitar nossa infraestrutura para escalar outros "seismil" da região. Ofereci o Peñas Blancas. Convidei também a Isabela, que tentava o Ojos novamente. Saí de madrugada com as duas e a guia Judith. O caminho 4x4 até a base do Peñas Blancas é tenso, com pedras afiadas, mas chegamos em tempo hábil para iniciar a ascensão cedo. As meninas caminharam muito rápido, e fizemos o cume (6.000m) em apenas 5h30. Foi uma grande alegria. Na descida, as meninas sofreram com bolhas nos pés devido às botas duplas e à ausência de neve (muita pedra solta).
O Terceiro Pneu Perdido
Durante a descida de volta ao acampamento, um novo imprevisto: o pneu que eu estava dirigindo estourou. Terceiro pneu perdido na expedição. Chegamos ao acampamento e eu tinha poucas horas de descanso antes de iniciar a ascensão ao Nevado San Francisco com o restante do grupo.
O Cume do San Francisco e o Grande Desafio
Acordei de madrugada e ajudei os guias a levarem o grupo ao topo do vulcão San Francisco. Graças a Deus, tudo deu certo: todos fizeram cume com tranquilidade e um bom ritmo. Retornamos ao Acampamento Base felizes, mas com as pendências batendo à porta.
Na manhã seguinte, Maria e Wellington desceram com os clientes para Copiapó, também encarregados de resolver a questão dos pneus. Saíram tarde e chegaram tarde, conseguindo resolver apenas dois problemas: compraram dois pneus de segunda mão em boas condições, mas um foi perda total. Chegaram de volta faltando apenas uma hora para partirmos para o ataque ao Ojos del Salado, o ponto alto (e mais difícil) da expedição.
Ojos del Salado: A Cereja do Bolo e o Prejuízo Final
Sem descanso e sem dormir, iniciamos a subida ao vulcão mais alto do mundo durante a madrugada. A tensão era constante. Em um dos trechos perigosos, bati em uma pedra e destruí o estribo do meu carro. Mesmo assim, chegamos à base e iniciamos a ascensão propriamente dita. O tempo estava ótimo – pouco vento e frio – o que ajudou.
Cheguei à cratera com quatro guias. Maria desceu com os clientes que desistiram. Muitos que chegaram à cratera estavam exaustos. Sabendo que o trecho final (a escalaminhada até o cume) era o mais complicado, e que os mais cansados não teriam energia para retornar, optei por não insistir. Eles esperaram, descansando, enquanto os mais energéticos (eu e os guias) seguiram para o cume do Ojos del Salado.

Muita comemoração, mas o trabalho só termina com todos em segurança. Descemos, nos encontramos com o restante do grupo na cratera e iniciamos a descida final, que levou cerca de 4 horas, chegando aos carros ao pôr do sol e ao acampamento já à noite.
A expedição foi um sucesso, com todos os problemas resolvidos rapidamente. Este trabalho exige, além de preparo físico de atleta, a experiência para tomar decisões corretas sob pressão. Conseguimos resolver todas as pendências, mas o custo total ainda não chegou.
O Preço de Ser Guia de Montanha
No final, descendo com os clientes, perdi mais um pneu. Quatro pneus, basicamente o equivalente a uma caminhonete inteira em prejuízo.
Muitos pensam que tenho a melhor profissão do mundo. A verdade é que ser guia de montanha é extremamente difícil e exigente. Muitas vezes, perdemos mais dinheiro do que ganhamos. Mas, sim, é divertido, contanto que você goste de ficar exausto, de se superar e de fazer com que as pessoas se superem.
