
Os últimos dias foram marcados por intensas atividades de trekking, muitas realizações e um trabalho árduo na majestosa Cordilheira dos Andes. Venho, através deste relato, compartilhar a experiência inesquecível da nossa travessia, o Cruce de Los Andes, um trekking desafiador que conecta a Argentina e o Chile através do coração dos Andes Centrais. Esta é uma região notavelmente despovoada, sem estradas, mas agraciada com paisagens de beleza estonteante, estendendo-se entre Mendoza e Santiago.
Minha última comunicação se deu com a chegada ao Acampamento Yaretas, situado a 3.200 metros de altitude. No dia seguinte à nossa chegada, a equipe composta por Maria, Well e Judith conduziu os clientes em uma caminhada de aclimatação por um vale secundário, o Vale do Manantiales. Tendo descido recentemente do Aconcágua, optei por permanecer no acampamento, aproveitando o tempo para um merecido descanso e, inclusive, para escrever minha última coluna, que foi ao ar na semana passada. O retorno dos clientes após o trekking de aproximação foi celebrado com petiscos e, em seguida, preparamos uma das refeições mais apreciadas em nossos acampamentos: hambúrguer. Os hambúrgueres argentinos, famosos por sua suculência, ficaram deliciosos, coroando o final do dia.
A segunda noite em Yaretas transcorreu de forma muito mais tranquila que a primeira, um benefício direto do processo de aclimatação. Acordamos bem cedo no dia seguinte, focados em preparar o café da manhã e nos aprontar para o dia mais exigente de toda a travessia. Nosso objetivo era cruzar o Portillo Argentino, um passo que alcança 4.300 metros de altitude, e percorrer uma distância total de 19 km até o próximo ponto de pernoite, o acampamento La Olla.
Dividimos a equipe para otimizar a logística: eu e Maria nos encarregamos de conduzir os clientes pela trilha, enquanto Wellington e Judith ficaram responsáveis por desmontar toda a nossa estrutura. Por termos apenas uma mula extra selada (além daquelas que carregavam a bagagem), Judith precisou se adiantar com o grupo após cerca de 30 minutos de organização, deixando Wellington com mais três arrieros (tropeiros) para finalizar a desmontagem e iniciar o transporte da carga.
A subida começou. Inicialmente, parte do caminho até o Portillo ainda conta com uma estrada precária, remanescente de uma antiga e frustrada tentativa do governo argentino de construir uma rota alternativa para o Chile, diferente da atual Estrada Internacional do Passo Libertadores. Essa estradinha, utilizada parcialmente por nós, já que a pé é possível cortar os inúmeros ziguezagues, facilitou um pouco o início.
Apesar da subida ser longa e a altitude considerável, nosso grupo manteve um ritmo de caminhada surpreendentemente bom. Isso, por um lado, era positivo para o cronograma, mas por outro, me gerava uma tensão crescente: a tropa de mulas, com toda a nossa estrutura móvel, não aparecia no horizonte. As mulas são animais incrivelmente fortes. Sei que há críticas ao uso dessa logística, mas reitero: em nossas expedições, as mulas são tratadas com o máximo respeito e cuidado. Um animal de cerca de 600 kg carrega no máximo 60 kg, o que equivale a apenas 10% do seu peso. Por não estarem sobrecarregados, eles tendem a caminhar em um ritmo rápido.
No entanto, a ausência da tropa continuava a me preocupar. Atravessamos o passo por volta das 13h00, e desde que iniciamos a caminhada antes das 8h00, não havíamos avistado nossos pertences. A falta de comunicação com os arrieros por rádio VHF agravava a situação, já que o relevo montanhoso irregular impedia o contato visual necessário para a transmissão do sinal.
Chegamos ao Portillo Argentino (4.300 m). O grupo estava bem, com pouca diferença de tempo entre os mais rápidos e os mais lentos. A frieza da altitude nos obrigou a nos abrigarmos rapidamente antes de iniciar a descida. A natureza selvagem se manifestou de forma impressionante: avistamos pelo menos quatro condores, sendo que dois deles passaram rentes às nossas cabeças.
A descida seguiu sem grandes dificuldades técnicas, mas a preocupação com as mulas e o Wellington persistia. Finalmente, entre 15h30 e 16h00, consegui avistar a tropa atravessando o passo, o que trouxe um alívio imediato, mas momentâneo. Montar toda a nossa estrutura leva cerca de duas horas, e a nossa prioridade é sempre chegar ao acampamento e ter tudo pronto para o jantar e o descanso.
Chegamos a La Olla quase simultaneamente com as mulas, por volta das 18h00. O tempo gasto na montagem da estrutura atrasou nosso jantar, mas, felizmente, a preparação foi simplificada. Tínhamos reservado algumas carnes argentinas, e foram os arrieros (que é o termo em espanhol para tropeiro, e que representa a cultura tropeira que ainda resiste nos confins dos Andes) que se encarregaram de assá-las para nós, transformando a refeição em um verdadeiro churrasco.

Apesar do atraso, o jantar valeu a pena. A noite estava espetacular, com a lua começando a ficar cheia, proporcionando um visual pitoresco. Estar no meio do nada, convivendo com esses homens que vivem de maneira tão tradicional, nos remete a 200 anos atrás, à época do General San Martín e sua travessia para lutar pela independência do Chile. Tirando poucas facilidades modernas, a experiência se assemelha muito àquela vivida por ele.
Após um breve descanso noturno, acordamos antes do sol nascer para o café da manhã. O frio era intenso, com cerca de 2°C. Servimos o café e nos preparamos para mais um dia de longa jornada. O plano original previa a chegada ao Refúgio Real de La Cruz, um refúgio militar a 2.800 metros, que estava a apenas uma hora do acampamento anterior. No entanto, a grande distância de Yaretas nos impediu de alcançá-lo no terceiro dia, adicionando este trecho ao nosso quarto dia, tornando-o mais longo.
Reforcei o pedido aos arrieros e a Wellington para que fossem mais ágeis na desmontagem e saída, a fim de evitar mais um atraso. Saí em frente com Maria e os clientes e chegamos ao Refúgio Real de La Cruz sem grandes problemas. Contudo, dali em diante, teríamos que encarar um dos trechos mais desafiadores: a travessia do Rio Tunuyán.
Este é um rio de montanha extremamente caudaloso, com forte correnteza e profundidade que pode chegar próxima ao umbigo. Atravessá-lo a pé representava riscos: molhar-se por completo poderia causar bolhas nos pés, além do perigo de ser arrastado pela correnteza. Aguardamos na margem por cerca de uma hora até a chegada dos arrieros com as mulas, que nos permitiram atravessar montados nos animais.

Superado o Tunuyán, continuamos a caminhada, subindo o vale oposto, o Vale do Rio Palomar, que nasce na montanha fronteiriça com o Chile. Este vale se revelou muito mais verde do que os anteriores, mas impôs seus próprios desafios, como a necessidade de atravessar vários rios menores. Em alguns, usamos as mulas; em outros, tiramos as botas e enfrentamos a água gelada, oriunda do derretimento das geleiras andinas.
Toda esta região, com vales profundos ladeados por montanhas nevadas, algumas acima dos 6.000 metros, é absolutamente inóspita. A única forma de explorá-la é através de longas caminhadas, exigindo o transporte de suprimentos para vários dias. Para isso, o uso de cavalos e mulas é fundamental, permitindo o transporte de alimentos e equipamentos.
Após mais de 18 km de caminhada, alcançamos o acampamento Chocolate, nome curioso que se deve a uma montanha de cor característica que se ergue à frente. Para nossa sorte, os arrieros já haviam montado um domo, o que aliviou parte da nossa logística. No entanto, a saga da cozinha, lavagem de louça e organização nos manteve ocupados até tarde. Nesses bastidores de expedição, somos guias, cozinheiros, resolvedores de problemas logísticos e, até mesmo, cuidadores de saúde dos clientes, exigindo que sejamos "um pouco de tudo".
Mais uma noite de sono tardio para acordar cedo no dia seguinte, que seria, felizmente, o último. Partimos do acampamento Chocolate após o café e os preparativos finais, iniciando o último dia em território argentino. O objetivo era atravessar o Portillo Chileno, um passo um pouco mais baixo que o argentino, com 4.000 metros, para finalmente chegar ao Chile.

Apesar de não ser extremamente difícil, a caminhada é longa. Eu, sentindo o cansaço dos dias anteriores, aproveitei a mula selada disponível e pude, pela primeira vez, cavalgar. As mulas são animais incríveis e inteligentes, e essa cultura de turismo e trabalho com elas é vital para a sobrevivência da espécie na região. Montado na mula, cheguei até a fronteira, onde fomos recebidos pelos arrieros chilenos.
Fizemos a troca da carga das mulas argentinas para as chilenas e iniciamos a descida pelo lado oposto da Cordilheira dos Andes, em direção às Termas del Plomo, o ponto final da nossa travessia, que alcançamos por volta das 18h00. A chegada, porém, reservava um último desafio: a travessia do Rio Yeso. Desta vez, sem as mulas, atravessamos a pé, com a água chegando até a cintura. A compensação veio em seguida: a água termal para aquecer e, sendo o último dia, a contratação de um serviço de alimentação terceirizado.
Encerramos nosso trekking com um verdadeiro banquete e fomos dormir sob um céu estrelado, imersos na Cordilheira dos Andes e distantes de tudo. No dia seguinte, após desfrutar um pouco das águas termais, arrumamos tudo e pegamos uma van para a capital chilena, onde pudemos descansar e nos despedir dos clientes.
Embora ofereçamos este roteiro há bastante tempo, esta foi a primeira vez que tive a oportunidade de percorrê-lo. Geralmente, nesta época, estou envolvido nas expedições mais desafiadoras, as que buscam o cume das montanhas. Mesmo não sendo um trekking fácil, o Cruce de Los Andes não envolve ascensão a cumes, o que me afastava da sua realização.
Gostei muito da experiência. Com a minha vivência em trekkings ao redor do mundo, achei o Cruce de Los Andes de uma beleza singular e que vale muito a pena. No entanto, a título de refinamento, faria algumas alterações no roteiro, buscando dividir os dias longos de caminhada em trechos menores. Isso permitiria um melhor aproveitamento da paisagem e um descanso mais adequado entre os dias.
E assim, encerramos a história do nosso Cruce de Los Andes de 2026. Felizmente, foi mais uma expedição que se completou com sucesso. É claro que surgem percalços e dificuldades, mas, neste caso, foram pequenos, dada a excelente organização que permitiu a todos finalizar a travessia sem grandes problemas, o que é um resultado excelente.
Ao finalizar o trekking, fui com Maria até o estacionamento próximo ao aeroporto de Santiago, onde deixamos nosso carro na semana anterior. Ela me deixou no aeroporto, pois decidi tirar uns dias de férias para voltar para casa. No entanto, "descanso" é um termo relativo, pois em casa terei palestras, encontros com clientes, trabalho de escritório e, claro, tempo para o meu cachorro.
Em breve, após este breve recesso, retornarei ao Chile para a nossa quinta expedição do ano: a ascensão ao vulcão mais alto do mundo, que é também a montanha mais alta do Chile. Compartilharei em breve um pouco mais sobre essa nova experiência. Fico por aqui, e até o próximo relato!
