Acampamento yaretas
Pedro Hauck
Acampamento yaretas


A descida do Aconcágua costuma sugerir um repouso merecido, mas a realidade do montanhismo profissional é menos romântica. O "descanso" durou apenas algumas horas; logo no dia seguinte, mergulhei nos preparativos para uma nova expedição: o Cruce de los Andes. Trata-se de um trekking de sete dias, cruzando a cordilheira de leste a oeste por um caminho que é, simultaneamente, um desafio geográfico e um monumento histórico vivo.

O Contexto Histórico: A Audácia de San Martín

Para entender por que este caminho é sagrado para argentinos e chilenos, precisamos voltar a 1808. Quando Napoleão Bonaparte invadiu a Península Ibérica, o vácuo de poder na Espanha acendeu a chama da independência nas colônias americanas.

É aqui que surge a figura de José de San Martín. Nascido em Corrientes, mas educado militarmente na Espanha, ele retornou à Argentina em 1811 com um objetivo claro: a libertação total do continente. Como governador da região de Cuyo (Mendoza), San Martín transformou a província em um laboratório de guerra.

A Estratégia de Mestre: San Martín sabia que a independência argentina seria efêmera se o Chile e o Peru continuassem sob domínio espanhol. Em 1817, ele utilizou táticas de contrainformação (as famosas "fake news" da época) para enganar os realistas, fazendo-os acreditar que atacaria pelo Alto Peru (atual Bolívia). Na verdade, ele lançou seis frentes simultâneas pela cordilheira — um feito logístico que, até hoje, desafia a imaginação.

Logística: O Trabalho Invisível

Se hoje cruzar os Andes com tecnologia moderna é complexo, imagine fazê-lo com 5.000 homens e milhares de animais. Mas, mesmo em uma expedição comercial moderna, o esforço de bastidores é colossal.
Os dias que antecedem o trekking são mais exaustivos que a própria caminhada.

A logística para uma expedição moderna é um trabalho colossal e invisível, que precede a própria caminhada. Os dias iniciais são mais exaustivos que o trekking em si. É preciso elaborar o cardápio nutritivo para dias de isolamento, e o meticuloso processo de guardar as provisões em caixotes para o transporte em mulas, pesando milimetricamente cada lado para não ferir os animais. Soma-se a isso o desafio de proteger carnes congeladas e legumes frescos do calor de Mendoza, onde o termômetro na altitude de 800m ultrapassa facilmente os 30°C no verão. Preparar cargas pesadas sob aquele sol inclemente da tarde exige um sacrifício de bastidores que raramente é visível aos clientes.

A Equipe e o Cenário Atual

Nesta jornada, contei com uma equipe resiliente: Judite, minha parceira de Cerro Plomo; Wellington, já recuperado de problemas de saúde anteriores; e Maria, que veio do Brasil para somar forças. O grupo de clientes era reduzido, apenas seis pessoas. O momento econômico da Argentina, com preços elevados, acabou afastando o público brasileiro nesta temporada, mas o entusiasmo da equipe permanecia intacto. Para mim, era uma estreia pessoal: apesar de organizar o roteiro há anos, era minha primeira vez percorrendo este traçado histórico.

O Início da Jornada: Tempestades e Burocracia

A logística exigiu que eu atravessasse para Santiago de caminhonete um dia antes, levando equipamentos extras para as expedições futuras no norte do Chile. Cruzei a fronteira sob chuva forte, temendo os frequentes deslizamentos de lama dos "Andes Secos". Felizmente, deu certo. Deixei o carro em Santiago, voei de volta para Mendoza e, sem tempo para respirar, iniciamos a marcha.

O clima, porém, resolveu testar nossa determinação. No dia 24 de janeiro, tempestades de granizo castigaram Mendoza. Partimos sob um céu cor de chumbo.

O Posto Portinari e o Vale de Yaretas

A primeira parada foi em Portinari, um refúgio humilde que serve como controle de fronteira. É surreal encontrar agentes carimbando passaportes no meio do nada, mas a importância histórica do local justifica a presença do Estado.
Dali, seguimos para o acampamento Yaretas (3.400m). Optamos por caminhar os 8 km iniciais (que poderiam ser feitos em 4x4) para permitir que o corpo se adaptasse à altitude. Passamos pelo Vale de Arenales, o paraíso da escalada clássica em Mendoza, onde até reencontramos amigos brasileiros.

Encontramos uma ruína de ônibus enferrujado no caminho. Sob a neblina e os flocos de neve que começavam a cair, a cena lembrava o filme "Na Natureza Selvagem", criando um clima quase fantasmagórico.

Após 15 minutos de caminhada final, a partir do ônibus abandonado, avistamos nossas barracas. O domo da cozinha já estava montado, com petiscos e o calor necessário para nos dar as boas-vindas ao mundo da altitude.

A travessia que unirá Argentina e Chile apenas começou. Nos próximos dias, o relato continuará por estas trilhas onde a história foi escrita com sangue e coragem.

Continua...

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