
A jornada de ascensão continuava. No dia 13 de janeiro, partimos com as mochilas ajustadas pela trilha já familiar, a mesma que havíamos percorrido para o nosso porteio. A familiaridade do caminho tornou a progressão fluida e até mesmo fácil, levando-nos a chegar ao Acampamento Canadá, a 5.000 metros de altitude, por volta das 15h. As barracas de nossos clientes já estavam prontas, e logo nos instalamos para um breve descanso, seguidos por um lanche e o jantar.
Inicialmente, o tempo estava agradável, mas por volta das 18h, o céu começou a fechar, trazendo consigo a neve. O menu da noite, no entanto, apresentava um desafio: hambúrguer. Fritar a carne dentro do domo seria uma receita certa para sujeira e gordura por toda parte. Assim, tivemos que improvisar, fritando os hambúrgueres na área externa, sob a neve. Esta foi uma missão executada com precisão e maestria por Tommy, que demonstrou ser não apenas um guia excepcional, mas também um cozinheiro de mão cheia. Montamos os sanduíches e os levamos para nossos clientes no domo, onde, como esperado, fizeram o maior sucesso. Curiosamente, mal tínhamos terminado o jantar, o tempo se abriu novamente, e as estrelas surgiram no céu, coroando a noite com um pôr do sol espetacular.
Nós, os guias - eu, Tommy e Gerardo – dormimos juntos em um domo. Além de nossa expedição, unimos forças com a equipe da Grajales, guiada por Julian e Diego, que acompanhava um grupo de franceses. A noite transcorreu com a tranquilidade que se pode esperar em altitude. Contudo, minha noite foi marcada por sonhos estranhos, uma ocorrência comum nesses ambientes elevados, e desta vez, consegui me lembrar deles.
Sonhei que estava a bordo de um avião da Air Europa, uma companhia espanhola, mas subitamente, a aeronave estava parada em um pátio, longe de qualquer pista de pouso. Naquele momento, entendi que o avião havia caído, mas sem que eu tivesse sonhado com o impacto ou qualquer sofrimento. Todos os passageiros estavam ali, e então, um funcionário, que se identificou como um agente do Céu, começou a entrevistar todos os mortos, inclusive eu. Ele me pediu para rezar uma Ave Maria, mas eu a rezei de forma incorreta. Como punição, ele me enviou para o purgatório: os Estados Unidos, onde eu precisava fugir do ICE (Immigration and Customs Enforcement) para evitar a deportação. O sentimento de estar correndo e fugindo de um agente de imigração em um sonho maluco era intenso.
Acordamos cedo e iniciamos a preparação do café da manhã. Apesar de ser uma tarefa que consome tempo – aquecer pão, fazer ovos mexidos, preparar café e água quente – nossa equipe de cinco guias agilizou o processo. Em pouco tempo, os clientes estavam tomando café, e na sequência, desmontamos as barracas, arrumamos as mochilas e partimos para o próximo objetivo: o Acampamento Nido de Cóndores, nosso acampamento dois de altitude, situado a 5.500 metros.
A princípio, a travessia da região do Acampamento Canadá, onde ficava o acampamento da Grajales, transcorreu tranquilamente. Foi lá que reencontrei Adriana Browlee, que me reconheceu. Ela é uma das poucas mulheres a ter escalado as 14 montanhas com mais de 8.000 metros e tem uma história curiosa no Paquistão, onde, sem querer, acabou queimando uma barraca que eu havia emprestado para ela e seu Sherpa.
Continuamos nossa jornada e, até aproximadamente 5.250 metros de altitude, o terreno estava livre de neve e fácil de caminhar. A partir desse ponto, em um local conhecido como "cambio dependentes," a trilha começou a ganhar neve. Em alguns trechos, a neve pisoteada formava gelo, exigindo cuidado para evitar escorregões.
Com a cabeça baixa e passos constantes, fomos ganhando altitude, até que encontramos uma expedição de americanos e canadenses que estavam descendo. Eles nos trouxeram uma ótima notícia: haviam chegado ao cume, embora a ascensão tenha sido extremamente difícil, levando 14 horas, pois tiveram que abrir a trilha na neve virgem. Esta era uma surpresa encorajadora, já que desde a grande nevasca do dia nove, nenhuma equipe havia conseguido chegar ao cume, e uma tentativa anterior havia falhado devido a uma perigosa formação de neve na travessia a 6.700 metros, com risco de uma avalanche de placa. A chegada bem-sucedida dos americanos sinalizava que o caminho estaria, em tese, aberto.
Prosseguimos a caminhada até Nido de Cóndores. Montamos as barracas e entramos no domo para descansar, nos hidratar e comer. Lá fora, o tempo estava muito ruim, com um vento intenso que levantava a neve do chão, chicoteando nossos rostos no que chamamos de "vento branco," algo extremamente desagradável e extenuante, somado ao efeito da altitude.
No acampamento, uma equipe da Grajales que havia tentado o cume sem sucesso estava descendo, o que liberou uma barraca individual só para mim, proporcionando um conforto muito bem-vindo. Após o jantar, nos recolhemos, antecipando uma noite de muito vento. No meio da madrugada, a situação estava relativamente calma, mas ao amanhecer, com os primeiros raios de sol, o vento se tornou violento. A barraca tremia inteira, e a minha respiração condensada no teto congelava, "nevando" sobre mim. Acabei acordando com uma leve dor de cabeça, o que exigiu tomar um remédio. Em seguida, fui ajudar os colegas guias no preparo do café da manhã, embora eu tenha ficado mais observando do que propriamente ajudando, devido à noite mal dormida.

Barracas Domo em Nido de Condores
Felizmente, quando os clientes vieram tomar café, todos estavam fisicamente bem. Ninguém havia tido uma noite espetacular, mas nessas altitudes, isso é o normal. Após o café da manhã e a organização do acampamento, eu e os guias tomamos a decisão final: faremos o ataque ao cume no dia 17 de janeiro. O dia 15 seria de descanso, pois o vento lá fora era implacável, impedindo qualquer atividade significativa. Já no dia 16, a previsão indicava uma diminuição da intensidade do vento, o que nos permitiria subir ao último acampamento, o Acampamento Cólera, a 6.000 metros. No dia 17, então, atacaremos o cume. Que tudo corra bem.
