Grupo junto na entrada do Parque do Aconcagua
Pedro Hauck
Grupo junto na entrada do Parque do Aconcagua

Após o sucesso da escalada do  cume do Cerro Plomo celebrada com uma noite breve, mas gratificante, no restaurante em Santiago, o foco mudou rapidamente para o próximo e monumental desafio: atravessar a fronteira para a Argentina e iniciar a expedição ao Aconcágua, o ponto culminante dos Andes.

A manhã seguinte começou com a urgente arrumação de todo o nosso equipamento e pertences, preparando-nos para a longa travessia de carro entre o  Chile e a Argentina.

O Aconcagua, gigante dos Andes
Pedro Hauck
O Aconcagua, gigante dos Andes


Logo nas primeiras horas, decisões cruciais tiveram de ser tomadas, forçando uma mudança significativa nos planos. Infelizmente, o Wellington havia adoecido no final da ascensão anterior e estava sob suspeita de ter desenvolvido um edema pulmonar. De forma responsável e prudente, decidimos que ele permaneceria em Santiago para receber o tratamento adequado, focar na sua recuperação e descansar completamente. Para preencher sua ausência e garantir a continuidade da expedição, a equipe foi agraciada com a entrada da Yudith, nossa experiente guia peruana que já havia demonstrado seu valor no Cerro Plomo. Ela se juntaria a nós na Argentina para dar suporte às próximas empreitadas.

O desafio na Argentina seria duplo, com duas expedições ocorrendo simultaneamente. Eu seguiria de forma independente com a empresa argentina Grajales, pioneiros em expedições comerciais na montanha mais alta dos Andes com 50 anos de atuação, com quem realizaremos uma expedição mista para o Aconcágua, guiando quatro clientes da minha empresa e mais dois da equipe deles. Paralelamente, o Kaynã e a Yudith assumiriam a liderança de um grupo menor de dois clientes da minha empresa no Cerro Plata. Esta montanha tem um significado especial para mim, pois foi lá que iniciei minha jornada de escaladas nos Andes há exatos 26 anos.

Consolidada a decisão e garantido todo o apoio necessário para a estadia e tratamento do Wellington em Santiago, nós três — eu, Kaynã e Yudith — partimos carregados com todos os nossos pertences em direção à Argentina, não sem antes fazer uma parada no hotel para nos despedirmos dos clientes, revisarmos os transfers e, finalmente, pegarmos a estrada.

A travessia da Cordilheira e a chegada em Mendoza

Cruzamos mais uma vez a Cordilheira dos Andes. A data, 4 de janeiro, era o retorno do feriado de Ano Novo, e a expectativa era de enfrentar uma fila monumental na Aduana chilena para entrar na Argentina. Felizmente, para a nossa surpresa, a fila estava razoável, permitindo uma passagem relativamente rápida. O alívio foi imediato, pois ao darmos a volta e começarmos a descida em direção a Puente del Inca, pudemos observar a fila em sentido contrário, de quem retornava do feriado para o Chile, que era de fato colossal. Passar na hora certa nos permitiu chegar cedo a Mendoza, o que abriu o caminho para uma celebração essencialmente argentina: o tradicional churrasco.

Montanhas com neve
Pedro Hauck
Montanhas com neve


Estando na Argentina, um bom asado é obrigatório. Ao longo dos anos trabalhando nos Andes, Kaynã aperfeiçoou a arte de grelhar, tornando-se um churrasqueiro à altura dos mestres argentinos. Combinei com meus clientes e alguns amigos na casa que alugamos, e assim fizemos, nos reunindo em torno da churrasqueira. Ali tive o prazer de conhecer os quatro clientes que guiaria no Aconcágua: o casal Alan e Bia, de Santa Catarina, o Rene, também catarinense, e o Fernando, de São Paulo, que já possuía histórico de expedições conosco. A noite de confraternização se estendeu; quando o grupo principal se dispersava, o Rui, com quem dividi realizei diversas expedições nos Andes e no Paquistão e seus amigos pilotos de parapente chegaram, incluindo o Noia, que acabara de realizar a façanha de completar sua décima montanha andina acima dos 6000 metros. Eles haviam voado de parapente na província de San Juan e faziam uma parada em Mendoza. Foi neste momento que conhecemos a Marina, que decidiu se juntar a nós, adicionando mais uma pessoa ao grupo do Cerro Plata. Ufa! Uma pessoa a mais…

No entanto, a alegria da reunião veio acompanhada de uma nota de preocupação: este ano representava o pior em termos de movimento para as expedições argentinas. As recentes políticas cambiais encareceram significativamente o país, elevando os preços a níveis que superam muitos destinos europeus. Este cenário afastou muitos brasileiros e outros clientes estrangeiros, impactando não só as minhas expedições, mas também as empresas locais, que dependem desse fluxo para movimentar a temporada de montanha na região de Mendoza, com Marina teria 3 clientes na expedição do Plata, um número baixíssimo que não vai dar pra fechar todas contas…

A logística e o planejamento final

No dia seguinte, acordei cedo e me dirigi ao hotel dos clientes para finalizar a logística. Lá, conheci meus dois parceiros de expedição: Gerardo, “Gera” e Tommy. O Tommy, um fortíssimo escalador de 27 anos já era um velho conhecido de outras temporadas, um dos gêmeos (o outro sendo Juan) com quem já havia trabalhado no Peru e até mesmo no Aconcágua. O Gera, era uma nova e excelente aquisição; à primeira vista, ele se mostrou extremamente simpático e competente, e a química foi imediata. Entre um gole e outro de chimarrão, começamos a traçar os detalhes do nosso plano de ascensão.

Após a conversa técnica entre os guias, reunimo-nos com os clientes para o briefing final. Em seguida, iniciamos a meticulosa revisão dos equipamentos de cada um para identificar qualquer item faltante. A revisão foi ágil devido ao número reduzido de participantes. Partimos então para a loja El Refúgio para alugar o que era necessário, conseguindo concluir todas essas tarefas essenciais pela manhã. Para selar o dever cumprido, saboreamos as que considero as melhores empanadas da Argentina, em um restaurante simples perto do centro.

O dever de casa estava feito, mas o meu próprio ainda aguardava. Retornei para casa para arrumar meu equipamento, que estava em plena desorganização devido à pressa na volta do Plomo. O Kaynã, por sua vez, já estava envolvido nas compras para a expedição do Cerro Plata, que partiria em apenas dois dias. Demorei, mas consegui deixar tudo pronto e empacotado para a montanha, e ainda organizei a casa para garantir que ficasse habitável para quem permanecesse ou chegasse em nossa ausência.

O início da caminhada: rumo à Confluência

Assim, na manhã de 6 de janeiro, acordei antes do sol nascer. Pedi ao Kaynã que me levasse de caminhonete até o hotel dos clientes. De lá, seguimos juntos no transporte da Grajales, subindo a Cordilheira dos Andes em direção à pequena vila de Penitentes. Este seria o nosso ponto de partida logístico. Deixamos as grandes bagagens que seriam transportadas pelas mulas, e dali partimos com nossas mochilas pequenas, iniciando a trilha em direção ao nosso primeiro acampamento base: Confluência.

Caminhada até a face Sul do Aconcagua
Pedro Hauck
Caminhada até a face Sul do Aconcagua


Esta foi a primeira vez que realizei essa logística saindo diretamente de Mendoza; geralmente, opto por pernoitar em Penitentes para chegar mais cedo ao acampamento. Contudo, tudo correu conforme o planejado. Este trecho inicial do Aconcágua é composto por apenas 8 km de trilha e uma ascensão de pouco mais de 500 metros verticais. O grupo demonstrou grande força e determinação. Além dos quatro brasileiros, tínhamos dois estrangeiros: Kenny, da Bélgica, e Maurice, da Alemanha, um alemão com um ótimo senso de humor que, para nossa surpresa, conhecia bem o Brasil. Com um ritmo constante, lento, porém eficaz, vencemos os 8 km iniciais e chegamos ao Acampamento Confluência, situado a 3400 metros de altitude, que seria nosso refúgio e lar pelos próximos três dias.


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