Cume do Cerro Plomo
Pedro Hauck
Cume do Cerro Plomo


O dia dois de janeiro começou na escuridão. Acordamos às 2h30 da manhã: eu, Wellington, Yudith e Kaynã. Enquanto Kaynã e Wellington preparavam o café da manhã dos clientes, eu organizava o restante do equipamento. Em uma hora, tomamos o café e partimos rumo ao cume do Cerro Plomo . Wellington permaneceu no acampamento para cuidar de Igor, que não estava em condições físicas para a tentativa.

O restante do grupo iniciou a ascensão. O trecho inicial da trilha era íngreme e coberto por muitas rochas soltas, e logo fomos ultrapassados pelo grupo americano. Mantivemos um ritmo lento, mas constante, a máxima do montanhismo para evitar problemas com a altitude. Amanheceu, revelando um verdadeiro espetáculo nos Andes: o nascer do sol tingindo o horizonte entre as montanhas, um festival de cores no céu. A partir desse ponto, o grupo se dividiu naturalmente. Os mais rápidos seguiram com Kaynã, enquanto eu acompanhava o casal Bruno e Vanessa, e Jorge ficou um pouco mais atrás com Yudith. Seguíamos cada um em seu próprio ritmo, nos reencontrando apenas nas paradas para descanso e hidratação.

Alcançamos o Refúgio Agostini, a 4.600 metros de altitude. A trilha dali seguia em uma longa diagonal para a direita e depois para a esquerda, passando por cima do Glaciar Yver, notoriamente derretido pelas mudanças climáticas. Davi, Carlos e Felipe, com um ritmo mais rápido, seguiam à frente, mas a separação do grupo permitia que cada um respeitasse seu limite. A trilha se aplanou em um ponto com grande concentração de neve, e logo adiante, chegamos às ruínas. Este era o local de onde, em 1954, foi retirada a criança inca, deixada ali em um ritual religioso chamado Capacocha cerca de 500 anos antes. A criança está hoje em um museu em Santiago, mas no local permanecem as ruínas, uma plataforma aplainada e uma semiabóbada de pedra que abrigava a oferenda. A região dos Andes Centrais foi a mais ao sul que os incas alcançaram, em um breve império por volta dos anos 1500.

Local onde foi encontrada a múmia inca no Cerro Plomo em 1954
Pedro Hauck
Local onde foi encontrada a múmia inca no Cerro Plomo em 1954


A subida continuou em nosso ritmo. Comecei a sentir a dor de cabeça aumentar. Tomei um remédio e me hidratei, mas a persistência do mal-estar fez com que meu estômago reagisse, resultando em um vômito que, na verdade, trouxe alívio. Não era diretamente a altitude, mas a combinação de óculos apertados, gorro e o sol forte. Sentindo-me melhor, a subida para o cume se revelou mais simples, com pouca inclinação. Encontramos o grupo de Kaynã nos esperando. A vista era espetacular: o Aconcágua, Cerro Mercedario, Cerro Ramada, Cerro Negro, Cerro Lá Mesa, Nevado Plomo, Polleras, Tupungato, Cerro Alto San Juan e Cerro Piuquenes, além do Marmolejo e do Vulcão San José, preenchiam o horizonte. Comemoramos a ascensão e iniciamos a descida.

O princípio da descida foi tranquilo, mas ao chegarmos ao atalho, descemos por um trecho de pedras soltas, que nos Andes, chamamos de Acarreo. Embora seja um terreno fácil de descer para quem tem prática, Vanessa, em sua primeira experiência, sentiu alguma dificuldade, o que é compreensível. O trecho mais difícil, no entanto, foi o inicial da subida, percorrido de madrugada, que estava agora inclinado e escorregadio, exigindo cautela. Felizmente, após superarmos essa parte, estávamos de volta ao acampamento.

Um imprevisto nos aguardava: Wellington, que estava perfeitamente bem, adoeceu, apresentando tosse e queda na saturação. O lado positivo era que este era o último dia de viagem, mas o desafio imediato era a devolução dos equipamentos alugados em Santiago antes das 15h00. Com a mudança de planos, acordei mais cedo no dia 3 de janeiro, organizei minhas coisas e parti sozinho rumo ao carro. O arriero ajudou, chegando cedo com uma única mula para transportar a carga de equipamentos. Desci em menos de três horas e, após uma breve espera pelas mulas, coloquei tudo no carro e rumei para Santiago, conseguindo entregar o material antes do fechamento da loja.

Retornei para buscar o restante da equipe. O único contratempo foi ter agendado a van dos clientes muito cedo, o que deixou o motorista irritado pela espera. Paguei uma taxa extra, e os clientes que chegaram primeiro desceram com ele. Os demais desceram comigo na caminhonete, com toda a carga de equipamentos. Chegamos a Santiago tarde da noite e fomos celebrar a ascensão em um restaurante. Sem tomar banho após cinco dias na montanha, a equipe acabou sendo "expulsa" do restaurante ao fechar as portas. Santiago, uma cidade que acorda tarde e dorme cedo, nos deu uma última lição.

O cerro Plomo, no Chile
Pedro Hauck
O cerro Plomo, no Chile


Apesar do caos, tudo deu certo. Foi uma imensa satisfação guiar no Cerro Plomo, uma montanha clássica e famosa da região de Santiago, que provou ser uma ascensão muito bonita e gratificante. Mesmo sendo uma data nobre como o Ano-Novo, não estava superlotada. Foi minha primeira vez guiando o Plomo e, certamente, voltarei. Com dificuldade mediana, a montanha exige bom preparo físico devido ao longo tempo de caminhada e ascensão, mas não requer grande experiência técnica. É um roteiro seguro, que pode ser feito em cerca de oito dias, e tem como base a atrativa cidade de Santiago.

A próxima coluna de relatos será dedicada aos preparativos para escalar a montanha mais alta dos Andes: o Aconcágua.

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