
A influenciadora brasileira Malévola Alves foi liberada nesta quarta-feira (21) após ser detida ao lado de uma amiga em Alexandria, no Egito. Segundo o Ministério do Interior egípcio, a prisão ocorreu depois da repercussão de vídeos publicados nas redes sociais nos quais as brasileiras aparecem dançando, fazendo gestos considerados pelas autoridades locais como de conotação sexual e interagindo com pessoas nas ruas. O governo egípcio também alegou suposto assédio a pedestres. Segundo as autoridades, durante o interrogatório elas reconheceram ter produzido e publicado as imagens com o objetivo de conseguir visualizações nas redes sociais. A defesa e a assessoria de Malévola confirmaram sua liberação, enquanto os procedimentos para o retorno ao Brasil ainda estão sendo tratados.
O episódio, porém, traz uma discussão que vai muito além de Malévola e deveria servir de alerta para qualquer pessoa que viaje internacionalmente: viajar muito não significa necessariamente conhecer o mundo. Carimbar o passaporte, visitar dezenas de países ou produzir conteúdo em diferentes destinos não garante conhecimento, discernimento ou compreensão cultural. Viajar também exige observar, estudar e, sobretudo, entender que atravessar uma fronteira significa entrar em um país com leis, costumes, valores e códigos sociais que podem ser radicalmente diferentes dos nossos.
Pelo que venho acompanhando de alguns conteúdos de Malévola que circularam pelas redes sociais, vejo justamente aí uma questão importante. Determinados comportamentos que fazem parte da linguagem e do entretenimento produzido por ela no Brasil foram transportados para países com contextos culturais completamente diferentes. Não estou discutindo se esses costumes são melhores ou piores que os nossos, tampouco defendendo legislações que restringem liberdades individuais. Estou dizendo algo básico para quem viaja: não podemos desembarcar em outro país imaginando que continuamos no Brasil.
É muito diferente viajar para Buenos Aires, Lisboa, Paris ou Miami e chegar a um país onde as normas sociais e jurídicas relacionadas a comportamento em público, sexualidade, gênero, vestimentas e demonstrações de afeto podem ser muito mais restritivas. Aquilo que poderia ser encarado simplesmente como brincadeira, irreverência ou conteúdo para as redes sociais em uma festa no Rio de Janeiro pode ser interpretado de maneira completamente diferente em outro lugar, e, dependendo da legislação local, pode inclusive trazer consequências policiais ou judiciais.
Isso não significa endossar essas leis. Respeitar uma regra para preservar sua própria segurança enquanto está em determinado território não significa concordar com ela. Eu posso ser absolutamente contrário à perseguição de pessoas LGBTQIA+, à discriminação contra mulheres e a qualquer violação de direitos humanos e, ao mesmo tempo, alertar um viajante de que aquela realidade existe. Aliás, esconder essa realidade em nome de uma imagem bonita do destino é justamente o contrário de fazer turismo com responsabilidade.
No caso específico de Malévola, existe ainda uma camada que não pode ser ignorada: ela é uma mulher trans. O Egito é apontado por organizações internacionais por violações e perseguições contra pessoas LGBTQIA+. Embora relações entre pessoas do mesmo sexo não sejam nominalmente criminalizadas por uma lei específica, dispositivos relacionados à moralidade e à chamada “debauchery” têm sido usados contra integrantes da comunidade LGBTQIA+. Portanto, uma pessoa trans precisa considerar essa realidade antes de viajar e avaliar com muito mais cuidado sua exposição, seus documentos, seu comportamento público e até o conteúdo que publica enquanto está no país. Metrópoles
Também é preciso deixar uma coisa muito clara: nada disso significa que uma eventual discriminação sofrida por Malévola seja justificável. Se houve tratamento degradante ou transfóbico durante sua detenção, isso precisa ser apurado e condenado. Mas a informação disponível até agora aponta que a justificativa apresentada oficialmente pelo Ministério do Interior egípcio para a detenção foram os vídeos e as condutas que as autoridades classificaram como obscenas, de conotação sexual e de suposta importunação de pessoas nas ruas. Antes da confirmação oficial da prisão, Malévola havia relatado que os policiais perguntaram sobre a identidade de gênero das brasileiras. São duas questões que precisam ser apresentadas separadamente para não transformar uma hipótese em fato.
O viajante precisa estudar o destino antes de embarcar
Trabalho com turismo há mais de duas décadas e existe uma orientação que repito constantemente: antes de comprar uma passagem, estude não apenas o que visitar, mas o país que você vai visitar. As pessoas passam horas pesquisando hotel, preço de passagem, restaurante e ponto turístico, mas às vezes dedicam poucos minutos para conhecer as leis e os costumes do destino. Em determinados países isso pode fazer uma diferença enorme.
Isso vale para o Egito e para diversos outros destinos. Pesquise como a sociedade local encara demonstrações públicas de afeto, bebidas alcoólicas, fotografias de pessoas, locais religiosos, roupas, sexualidade e comportamento nas ruas. Para viajantes LGBTQIA+, é indispensável verificar também a legislação e a situação dos direitos dessa população. O mesmo vale para medicamentos: algo vendido normalmente em uma farmácia brasileira pode ser controlado ou proibido em outro país. Viajar internacionalmente pressupõe aceitar que a legislação brasileira termina na fronteira.
No Egito, especificamente, eu sempre recomendo uma viagem muito bem estruturada, especialmente para mulheres viajando sozinhas e para viajantes LGBTQIA+. O país vai muito além das Pirâmides e da Esfinge. Um roteiro completo pode envolver Cairo, Alexandria, Aswan, Luxor, Vale dos Reis, cruzeiro pelo Nilo, região núbia e destinos do Mar Vermelho, como Sharm el-Sheikh. É uma viagem complexa, com grandes deslocamentos e enormes diferenças culturais. Ter uma agência receptiva confiável, traslados organizados e profissionais locais acompanhando determinadas etapas não elimina riscos, mas ajuda bastante na logística e na compreensão do destino.
Viajar não é apenas estar em muitos países
Talvez essa seja a principal reflexão deixada pelo episódio. Existe uma diferença enorme entre colecionar países e conhecer culturas. Viajar deveria ampliar nossa percepção de mundo justamente porque nos obriga a entender que aquilo que consideramos normal não é universal.
Não precisamos abandonar nossa identidade para viajar. Uma mulher não deixa de ser mulher; uma pessoa gay não deixa de ser gay; uma mulher trans não deixa de ser trans. Ninguém deveria precisar esconder quem é para ter sua dignidade respeitada. Mas existe uma diferença entre identidade e comportamento, e compreender o ambiente em que estamos inseridos faz parte da responsabilidade de qualquer viajante.
Malévola está livre, e isso é uma boa notícia. Que consiga deixar o Egito em segurança e retornar ao Brasil. Mas espero que o episódio também produza uma reflexão, nela e em quem acompanha milhões de conteúdos de viagem nas redes sociais. O mundo não é uma extensão do nosso bairro, da nossa cidade ou do nosso país. Viajar exige curiosidade, mas também informação, discernimento e responsabilidade.
Porque uma das primeiras coisas que o mundo ensina a quem realmente aprende viajando é justamente esta: não basta saber chegar a outro país. É preciso saber onde você chegou.