
O Brasil oficializou nesta sexta-feira (16) o fim da escala 6x1. O Congresso Nacional promulgou a mudança que garante aos trabalhadores dois dias de descanso remunerado por semana e reduz gradualmente a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial. A transformação, no entanto, não será imediata: em até 60 dias, a jornada máxima cai para 42 horas e passa a valer a escala de cinco dias de trabalho para dois de descanso. Doze meses depois, completando uma transição de 14 meses, o limite chega a 40 horas semanais. A regra geral será, portanto, de até oito horas por dia durante cinco dias da semana, embora acordos coletivos possam estabelecer formas diferentes de compensação desde que respeitem as novas garantias de descanso.
Com a mudança, o Brasil se aproxima de um movimento que já ocorre há décadas em diferentes partes do mundo: a tentativa de diminuir o tempo dedicado ao trabalho e ampliar os períodos de descanso. Em boa parte da Europa, jornadas menores e mais reguladas ganharam espaço principalmente a partir das últimas décadas do século XX, enquanto países da América Latina começaram mais recentemente a seguir caminho semelhante. O Chile, por exemplo, reduziu sua jornada de 45 para 44 horas em 2024, chegou a 42 horas em abril deste ano e deverá alcançar 40 horas em 2028. A Colômbia aprovou a redução de 48 para 42 horas semanais, enquanto o México também iniciou um processo gradual para passar de 48 para 40 horas até 2030, sem redução de salários ou benefícios.Europa trabalha menosOs números europeus ajudam a mostrar como a discussão sobre jornada já está em outro estágio em alguns países. Segundo os dados mais recentes do Eurostat, considerando trabalhadores de 20 a 64 anos, em período integral e parcial, a média de horas efetivamente trabalhadas na União Europeia foi de 35,9 horas semanais em 2025. Há dez anos, eram 36,9 horas. Mesmo dentro do bloco, entretanto, existem diferenças importantes: enquanto a Grécia registrou média de 39,6 horas semanais, seguida por Bulgária e Polônia, com 38,7 horas, outros países já apresentam médias significativamente menores.A Holanda aparece na outra ponta desse levantamento. O país registrou a menor média de horas efetivamente trabalhadas de toda a União Europeia em 2025: apenas 31,9 horas por semana. Na sequência aparecem Dinamarca e Alemanha, ambas com 33,9 horas, e Áustria, com 34 horas. Isso não significa que todos os holandeses estejam submetidos por lei a uma escala obrigatória de quatro dias de trabalho e três de descanso. A média também é influenciada pela forte presença do trabalho em tempo parcial no país. Ainda assim, jornadas distribuídas em quatro dias são comuns e o modelo holandês tornou-se uma das principais referências quando se discute trabalhar menos horas sem necessariamente perder competitividade.E a semana de quatro dias?
É justamente aqui que aparece uma diferença importante. Uma coisa é reduzir a jornada semanal para 40, 35 ou 32 horas; outra é estabelecer oficialmente uma escala 4x3 para toda a população. Não existe hoje uma grande lista de países onde todos os trabalhadores sejam obrigatoriamente submetidos a quatro dias de trabalho e três de descanso. O que existe são diferentes experiências: empresas que adotam voluntariamente quatro dias, governos que realizam projetos-piloto, setores com jornadas diferenciadas e países nos quais a flexibilidade permite que uma parcela significativa da população concentre o trabalho em menos dias.Na Holanda, por exemplo, a jornada média de 31,9 horas se aproxima matematicamente de quatro dias tradicionais de oito horas, mas isso não representa uma escala 4x3 estabelecida nacionalmente. O país construiu um mercado de trabalho caracterizado pela flexibilidade, pelo uso expressivo do trabalho em tempo parcial e por uma cultura que dá mais espaço à conciliação entre vida profissional e pessoal. Por isso, dizer que “a Holanda trabalha oficialmente 4x3” seria uma simplificação; mais correto é dizer que o país apresenta uma das menores jornadas médias da Europa e que a semana de quatro dias já faz parte da realidade de muitos trabalhadores.Na contramão
Enquanto diferentes países caminham para a redução da jornada, a Argentina seguiu recentemente uma direção diferente. A reforma trabalhista promovida pelo governo de Javier Milei passou a permitir jornadas diárias de até 12 horas, desde que sejam respeitados os períodos obrigatórios de descanso. O modelo também possibilitou a utilização de banco de horas e folgas compensatórias em lugar do pagamento tradicional de determinadas horas extras, mediante acordo. É um contraste importante com movimentos recentes registrados no Brasil, Chile, Colômbia e México, que optaram por reduzir ou iniciar processos de redução do limite semanal de trabalho.Japão tenta mudar cultura
Na Ásia, o Japão representa talvez um dos exemplos mais simbólicos dessa transformação. O país ficou mundialmente conhecido por uma cultura de jornadas extensas e pelo termo karōshi, associado à morte decorrente do excesso de trabalho. O próprio governo japonês reconhece hoje as longas jornadas como um problema e mantém uma política de reforma das relações de trabalho que tem entre seus objetivos corrigir o excesso de horas, ampliar formas flexíveis de emprego e permitir que os trabalhadores conciliem melhor a carreira com responsabilidades como criação dos filhos e cuidados familiares.Uma das medidas adotadas pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão é justamente incentivar empresas a garantir um intervalo adequado entre o fim de uma jornada e o início da seguinte. Desde abril de 2019, as empresas são estimuladas a implementar esse período mínimo de descanso para que o trabalhador tenha tempo suficiente para sua vida pessoal e para dormir, preservando a saúde e evitando situações de excesso de trabalho. O governo japonês também mantém programas de apoio às empresas dentro de sua política mais ampla de reforma do trabalho, justamente em um país que durante décadas foi símbolo de uma cultura profissional marcada por jornadas exaustivas.O movimento observado em diferentes partes do mundo mostra que a discussão deixou de ser apenas sobre quantos dias uma pessoa deve trabalhar. Ela passou a envolver produtividade, saúde física e mental, convivência familiar e qualidade de vida. O Brasil não adotou uma semana nacional de quatro dias e três de descanso: a mudança promulgada agora estabelece cinco dias de trabalho e dois de folga, com jornada máxima chegando a 40 horas após o período de transição. Mas o país entra em uma tendência que já levou outras nações a diminuir o tempo dedicado ao trabalho e, em alguns casos, a experimentar semanas ainda mais curtas. A pergunta que começa a ganhar espaço no mundo já não é apenas quanto uma pessoa consegue trabalhar, mas quanto tempo de sua vida precisa ser dedicado ao trabalho.