Gol corta rotas com alta do combustível; entenda
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Gol corta rotas com alta do combustível; entenda

A Gol confirmou que está reduzindo e suspendendo voos em vários trechos da sua malha por causa dos aumentos sucessivos no preço do querosene de aviação, o QAV. Segundo a própria companhia, o combustível dobrou de preço e hoje representa cerca de 40% dos seus custos operacionais. Em 1º de outubro, a Petrobras aplicou mais um reajuste, de 11,8%, e a alta acumulada desde março, quando começou o conflito no Oriente Médio, chegou a 74%.

Os cortes atingem rotas nacionais e internacionais. Fortaleza perdeu os voos para Orlando, Montevidéu e Foz do Iguaçu. A partir de janeiro, saem da malha as ligações de Brasília para Orlando e Miami, além de Belém para Miami. Com isso, a única rota da Gol entre Brasil e Estados Unidos passa a ser Rio de Janeiro e Miami, que também deve ter menos frequências. No mapa regional, Salvador deixa de ter voos para Petrolina, Aracaju e Campina Grande. Antes disso, em 24 de outubro, já termina o voo direto entre Guarulhos e Aruba.

A companhia não divulgou uma lista oficial completa, e circulam no setor outros trechos que podem entrar na conta, inclusive saindo do Galeão. Por isso, quem tem passagem comprada deve acompanhar a reserva de perto nas próximas semanas.

Por que o combustível pesa tanto
O querosene de aviação é, na prática, um produto dolarizado. Ele é derivado do petróleo, uma commodity negociada em dólar no mercado internacional, e o preço cobrado no Brasil acompanha essas cotações. Isso significa que a conta da companhia aérea sobe por dois caminhos: quando o petróleo dispara lá fora e quando o real perde valor frente ao dólar. Neste ano, o primeiro fator falou alto, com o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa boa parte do petróleo do Golfo Pérsico.

E o combustível não é o único custo em moeda americana. O arrendamento dos aviões, as peças de manutenção e os seguros também são pagos em dólar. A companhia, por outro lado, vende a maior parte das passagens em reais. Quando essa equação desequilibra, o primeiro movimento é olhar com lupa para cada rota e perguntar se ela ainda se paga. Para ter uma ideia do tamanho do problema, a associação das companhias aéreas brasileiras calculou, ainda em junho, que o setor já tinha gastado R$ 3,8 bilhões a mais com combustível do que o previsto antes da guerra.

Por que a rota não volta?
Essa é uma das perguntas que mais recebo: por que tal companhia não volta a voar para tal cidade? A resposta raramente é uma só. Um avião é um ativo caríssimo e a frota é limitada, então cada aeronave vai para onde dá mais retorno. Uma rota só se sustenta quando uma série de fatores se combina.

O primeiro é a demanda real, aquela que se transforma em passagem comprada, e não apenas o desejo de quem comenta nas redes que gostaria de ter o voo. O segundo é a taxa de ocupação: não basta lotar o avião no Carnaval e no Réveillon, ele precisa decolar bem ocupado ao longo do ano, inclusive numa terça-feira de maio. O terceiro é o preço médio que esse passageiro está disposto a pagar. Uma rota pode até encher, mas se as passagens precisam ser vendidas muito baratas para isso acontecer, a conta não fecha.

Entram ainda o perfil do público (rotas com viajante corporativo, que compra em cima da hora e paga mais, costumam ser mais resilientes), a concorrência no trecho, as tarifas aeroportuárias e o ICMS cobrado sobre o combustível em cada estado. Não por acaso, muitos governos estaduais oferecem redução desse imposto para atrair e manter voos. Nas rotas internacionais, a lista cresce com autorizações entre países e custos em moeda estrangeira. E há a lógica da malha: um voo que alimenta conexões num grande aeroporto pode valer mais do que o número de passageiros que ele leva sozinho.

Quando o custo do combustível dispara, as rotas que já operavam no limite são as primeiras a sair. Não é uma decisão contra uma cidade, é matemática. A boa notícia é que, se o petróleo recuar e a demanda se mostrar consistente, muitas dessas rotas podem voltar, como já aconteceu várias vezes na história da aviação brasileira.

Dica do Vitor
Se você tem passagem num dos trechos afetados, não espere a companhia te procurar. Entre no aplicativo ou no site, confira o status da reserva e conheça seus direitos: em caso de cancelamento, você pode remarcar, pedir crédito ou o reembolso integral. Para destinos internacionais que perderam o voo direto, vale pesquisar conexões por Bogotá, Panamá ou Buenos Aires, que costumam ser alternativas eficientes para o Caribe e os Estados Unidos. E fica o recado para quem torce pela volta de uma rota: o que mantém um voo no ar é passagem comprada, durante o ano inteiro. Quando a rota existe, usar é a melhor forma de garantir que ela fique.

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