O legado de Lito
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O legado de Lito

Existe um momento em todo voo em que o avião vence a pista, as rodas deixam o chão e, por alguns segundos, o coração de muita gente aperta. Durante anos, milhares de brasileiros enfrentaram esse instante pensando na voz calma de um homem que explicava, com paciência infinita, por que estava tudo bem. Esse homem era Lito Sousa, e no dia 1º de outubro ele fez seu último voo, aos 59 anos.

Lito não chegou à internet por acaso, nem por vaidade. Chegou carregando 36 anos de aviação nas mãos. Foi mecânico de aeronaves antes de ser piloto, conheceu os aviões pelo avesso, sabia o que cada ruído significava porque já tinha visto, tocado e consertado cada peça que produzia aquele som. Quando decidiu dividir esse conhecimento com o público, não precisou inventar nada. Bastou contar o que viveu.

E é justamente aí que mora o seu maior legado. Num tempo em que qualquer pessoa pode falar sobre qualquer assunto para milhões de pessoas, Lito nos lembrou do valor de ouvir quem sabe. Um piloto falando de aviação. Uma médica falando de saúde. Um professor falando daquilo que estudou a vida inteira. Parece óbvio, mas não é. As redes sociais se encheram de certezas sem fundamento, de medo vendido como informação, de opiniões disfarçadas de verdade. Lito seguiu o caminho contrário. Falava do que dominava, com humildade, sem sensacionalismo, e com um respeito enorme por quem estava do outro lado da tela.

Talvez por isso tenha conquistado tanta gente. Não era só sobre aviões. Era sobre confiança. Quem assistia aos seus vídeos sentia que estava diante de alguém que jamais diria algo só para ganhar uma visualização a mais. Num ambiente tão barulhento, essa honestidade virou uma raridade, e raridades a gente guarda.

Ele ensinou o passageiro a entender a turbulência, a não se assustar com o barulho do trem de pouso, a confiar na tripulação. Ensinou o filho a se despedir do avô que mora longe, a família a finalmente embarcar para a viagem adiada por anos, o viajante ansioso a olhar pela janela e enxergar beleza onde antes só via perigo. Devolveu o céu a quem tinha desistido dele. Poucas pessoas podem dizer que mudaram a forma como um país inteiro sente o ato de voar.

Lito também pensou no depois. Escreveu livros e criou uma escola para formar novos técnicos de manutenção aeronáutica, porque sabia que conhecimento só faz sentido quando é passado adiante. E é isso que ele fez até o fim, mesmo diante de uma doença rara e cruel, que enfrentou com uma serenidade que comoveu o Brasil.

Penso muito no quanto a vida dele conversa com a palavra que ele mais usou. Lito passou anos falando com passageiros, e no fundo é isso que todos nós somos. Estamos aqui de passagem. Ninguém conhece o horário exato do desembarque, ninguém escolhe quando o voo termina. O que nos cabe é a viagem, e a forma como decidimos vivê-la. Pode soar como clichê dizer que precisamos aproveitar cada minuto como se fosse o último, abraçar mais, adiar menos, dizer o que sentimos enquanto há tempo. Mas alguns clichês existem simplesmente porque são verdadeiros, e partidas como a do Lito fazem questão de nos lembrar disso.

Meu carinho à Mila, ao filho, à família e a cada pessoa que embarcou um pouco mais tranquila graças a ele.

Obrigado por ter nos ensinado a voar, Lito. Um grande abraço e até o próximo voo.

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    Tags: aviação
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