
Bate-volta é quase um esporte nacional do brasileiro na Europa. A distância entre as cidades é curta, o trem é barato, e a tentação de colocar mais um carimbo no mapa fala alto. O problema é que nem todo bate-volta se paga. Há os que consomem o dia inteiro em deslocamento para entregar duas horas de cidade, os que exigem acordar às cinco da manhã para ver uma praça e voltar correndo, e há os que roubam de um destino que você ainda nem começou a conhecer direito. Por isso a pergunta certa nunca é se dá para fazer, e sim se compensa fazer. O de Berlim a Poznań é um dos que compensam, desde que você já tenha dado a Berlim o tempo que ela merece e esteja com alguns dias sobrando. São duas horas e meia de trem em cada sentido, sete horas livres na Polônia e nenhuma mala para arrastar.
Poznań é uma daquelas cidades que quase não aparecem no roteiro brasileiro, ofuscada por Cracóvia e Varsóvia, e que justamente por isso surpreende quem chega. É ali que a Polônia começou: foi em Ostrów Tumski, a ilha no meio do rio Warta, que Mieszko 1º se converteu ao cristianismo em 966 e fundou o que viria a ser o Estado polonês, o que faz da cidade o berço oficial do país. Século após século, Poznań foi praça de comércio entre o Báltico e a Europa Central, esteve sob domínio prussiano por mais de cem anos, foi arrasada em 1945 e reconstruída peça por peça, incluindo as fachadas coloridas da praça central, que parecem intactas mas são fruto de restauro minucioso. Hoje tem cerca de meio milhão de habitantes, uma das maiores universidades da Polônia e uma vida urbana jovem, com cafés de torra própria, cervejarias artesanais e antigos galpões industriais virados em centros culturais. Para o turista brasileiro, o apelo é duplo: preços bem mais baixos que os da Alemanha, com almoço completo saindo por menos de dez euros, e um centro histórico compacto, que se percorre a pé sem pressa em algumas horas.
O trem e os bilhetes
Os EuroCity do corredor Berlim, Varsóvia cruzam a fronteira várias vezes ao dia. O EC 43 parte de Berlim às 7h57 e chega à estação Poznań Główny às 10h26. Na volta, há saída às 17h31, com chegada a Berlim às 20h13. A compra é feita direto no site da Deutsche Bahn ou pelo aplicativo DB Navigator, pesquisando Berlin, Poznań Główny. Vale prestar atenção na estação de embarque: o trem para em Berlin Hauptbahnhof, em Ostbahnhof e em Lichtenberg, então escolha a que estiver mais perto da sua hospedagem em vez de atravessar a cidade de manhã cedo. Há tarifas promocionais para grupos a partir de duas pessoas, a Group Super Saver Fare Europe, e é aí que o preço despenca: uma reserva para sete passageiros, ida e volta, saiu recentemente por €279,86, o equivalente a €39,98 por pessoa. Como o valor sobe conforme a data se aproxima, comprar com semanas de antecedência faz diferença real.
Outro ponto prático: Alemanha e Polônia estão no mesmo fuso, então não há ajuste de relógio. Ambos os países são do espaço Schengen e não existe controle de passaportes na fronteira, mas leve documento de identificação, porque fiscalizações por amostragem acontecem. O que muda é o dinheiro. A Polônia não adota o euro e a moeda em circulação é o złoty . Cartão funciona em praticamente tudo, inclusive em bilheterias e cafés pequenos, e costuma render melhor do que trocar notas na estação.
Da estação ao centro histórico
Poznań funciona bem para bate-volta por um motivo simples: a estação central fica a cerca de dois quilômetros da Stary Rynek, a Praça do Mercado Antigo, uma caminhada de uns 25 minutos por ruas planas e movimentadas. Quem preferir economizar as pernas pega um bonde por poucos złoty. No caminho, vale um desvio pelo Zamek Cesarski, o Castelo Imperial construído no início do século 20 para Guilherme 2º, hoje centro cultural e sede do Centrum Szyfrów Enigma, museu dedicado aos matemáticos poloneses que quebraram pela primeira vez o código da máquina Enigma, anos antes de Bletchley Park. É uma visita curta, bem montada e um dos melhores museus interativos do país.
O que ver em um dia
A Stary Rynek é o coração da cidade, com as fachadas coloridas das casas de comerciantes e o prédio renascentista da Prefeitura, obra do arquiteto italiano Giovanni Battista di Quadro, no século 16. É ali que aparecem os cabritinhos mecânicos, que saem na torre do relógio e batem os chifres doze vezes. A apresentação acontece diariamente ao meio-dia e às 15h, e o truque para ver bem é chegar uns quinze minutos antes e se posicionar de frente para a fachada, não embaixo dela.
A poucos passos fica a Fara, a Igreja Paroquial de Santo Estanislau, um dos exemplos mais completos do barroco polonês, com colunas monumentais em mármore rosado e um órgão histórico que às vezes rende concertos gratuitos no início da tarde. Seguindo mais quinze minutos a leste, cruza-se o rio Warta até Ostrów Tumski, a Ilha da Catedral, onde nasceu o Estado polonês. A catedral é a mais antiga do país e guarda, na Capela Dourada, os túmulos de Mieszko 1º e Bolesław Chrobry, os dois primeiros governantes poloneses. No bairro vizinho de Śródka há um mural tridimensional que reconstrói a cidade medieval e virou parada obrigatória de foto.
Na mesa, a especialidade é o rogal świętomarciński, croissant recheado com semente de papoula branca, nozes e frutas cristalizadas, com denominação de origem protegida pela União Europeia. Ele nasceu ligado ao dia de São Martinho, em 11 de novembro, mas as confeitarias do centro vendem o ano inteiro. Para um almoço de verdade, peça pyry z gzikiem, batatas cozidas com queijo branco temperado, prato símbolo da região.
Quando esse bate-volta não faz sentido
Se for sua primeira vez em Berlim e você tiver poucos dias, não troque um dia da capital alemã por Poznań. Berlim é enorme, densa de história e pede tempo. O mesmo vale para quem viaja com crianças pequenas ou com mobilidade reduzida, já que o roteiro polonês é basicamente caminhada sobre paralelepípedo. Fora esses casos, a conta fecha: outro país, outra língua, outra moeda e outra cozinha em um único dia, sem trocar de hotel, sem despachar mala e sem pisar em aeroporto.
Dica do Vitor
Eu sempre digo que, na Europa, antes de pensar em avião você deve olhar o mapa ferroviário. Reserve com antecedência, aproveite a tarifa de grupo se estiver com companhia e saia no trem mais cedo da manhã, não no das dez. Uma hora a mais em Poznań muda a viagem de patamar: dá para incluir o museu da Enigma sem correr e ainda sentar num café da Stary Rynek no fim da tarde, quando as fachadas coloridas pegam a melhor luz do dia.