Praga: a cidade medieval mais barata da Europa
Reproducao / Vitor Vianna
Praga: a cidade medieval mais barata da Europa

Um almoço completo, com sopa e prato principal, em um restaurante de bairro em Praga sai por volta de 200 coroas, algo em torno de R$ 48. A diária de um hotel três estrelas bem localizado fica entre 45 e 70 euros, de R$ 265 a R$ 410. O bilhete de 90 minutos que vale para metrô, bonde e ônibus custa 50 coroas, cerca de R$ 12, e o passe de 72 horas sai por 350 coroas, menos de R$ 85. São contas assim que explicam por que a capital tcheca segue sendo o centro histórico medieval mais em conta da Europa, mesmo depois de anos seguidos de alta de preços e de turismo em massa.

Praga entrega o que cidades italianas e francesas cobram caro para oferecer: um casario que não foi bombardeado na Segunda Guerra, um relógio astronômico girando desde 1410, uma ponte gótica de 1357 e o maior complexo de castelo antigo do mundo. A diferença está na moeda e no custo de vida local, e é exatamente aí que mora a oportunidade para o viajante brasileiro.

A moeda é a coroa, e o câmbio é onde se perde dinheiro
A República Tcheca é da União Europeia, mas não adotou o euro. A moeda é a coroa tcheca (Kč, ou CZK). Para se orientar rápido, divida o valor em coroas por quatro e você tem uma boa aproximação em reais. Cem coroas ficam em torno de R$ 24. Um euro compra cerca de 24 coroas.

Alguns restaurantes e lojas do centro aceitam euro, mas sempre a uma taxa ruim. Pague em coroa, sempre. Na maquininha, se aparecer a opção de cobrar em real ou em dólar, recuse e escolha coroa, porque a conversão automática do terminal embute um spread alto. Evite os caixas eletrônicos amarelos espalhados pelos pontos turísticos e as casas de câmbio que anunciam "0% de comissão", que costumam compensar na cotação. Prefira bancos ou casas de câmbio bem avaliadas fora da Praça da Cidade Velha. Vale saber de um direito pouco divulgado: a lei tcheca permite cancelar uma operação de câmbio em até três horas, dentro de um limite de valor, se você perceber que levou uma taxa abusiva. Guarde o comprovante.

Quanto custa comer e dormir
Comer bem custa pouco, desde que você saia do eixo óbvio. A regra de ouro é procurar o denní menu, o menu do dia servido no almoço em quase todo restaurante local, que entrega duas ou três etapas por 180 a 250 coroas. À noite, um prato principal em um restaurante de bairro fica entre 250 e 350 coroas, de R$ 60 a R$ 85. O mesmo prato servido de frente para a Ponte Carlos passa fácil de 550 coroas. Cardápio traduzido em quatro idiomas na porta é um bom termômetro de que o preço está inflado. Um orçamento diário de 500 a 800 coroas por pessoa, entre R$ 120 e R$ 190, cobre padaria de manhã, almoço e jantar com folga.

Na hospedagem, a economia é ainda mais evidente. Camas em hostel bem avaliado começam em 250 coroas, cerca de R$ 60. Quartos privativos simples ficam entre 25 e 35 euros. Hotéis três estrelas em Vinohrady, Karlín ou Holešovice, todos a dez minutos de bonde do centro, saem por 45 a 70 euros a diária, com padrão que na Europa Ocidental custaria o dobro. Os maiores gastos da viagem acabam sendo os ingressos: o circuito principal do Castelo de Praga custa cerca de 450 coroas e o roteiro completo do bairro judeu, com seis sinagogas e o cemitério antigo, gira em torno de 500 coroas.

Como chegar
Não existe voo direto do Brasil para Praga. As conexões mais eficientes saem de São Paulo e do Rio via Lisboa, Madri, Paris, Frankfurt, Amsterdã ou Istambul, com tempo total de porta a porta entre 15 e 19 horas. O aeroporto Václav Havel fica a cerca de 15 quilômetros do centro. O caminho mais econômico é o ônibus 119 até a estação Nádraží Veleslavín e de lá o metrô da linha A, tudo dentro do mesmo bilhete. Quem chega com muita bagagem pode pegar o Airport Express, que vai direto à estação central.

Sobre documentos, brasileiro continua sem visto para o Espaço Schengen, com o limite de 90 dias dentro de cada período de 180 dias. Desde abril de 2026 o carimbo no passaporte foi substituído pelo registro biométrico do EES, com foto e digitais colhidas na primeira entrada, então reserve mais tempo na imigração. O ETIAS, a autorização eletrônica prévia, ainda não está em operação e não tem data confirmada. Fique de olho antes de embarcar.

Melhor época para visitar
Maio, junho, setembro e o começo de outubro são as janelas mais equilibradas, com dias longos, temperatura agradável e preços de hospedagem abaixo do pico. Julho e agosto concentram calor e multidão, principalmente na Cidade Velha. Dezembro tem os mercados de Natal na Praça da Cidade Velha e na Praça Venceslau, um dos programas mais bonitos do inverno europeu, com frio que costuma bater perto de zero. Janeiro e fevereiro são os meses mais baratos do ano, e a cidade sob neblina tem um charme cinematográfico que compensa o casaco pesado.

A cidade medieval, na prática
Três dias cheios dão conta do essencial. Comece pela Cidade Velha e pelo Orloj, o relógio astronômico, sabendo que a apresentação das figuras dura menos de um minuto e decepciona quem espera espetáculo. O que vale mesmo é subir na torre e ver os telhados vermelhos se abrindo em todas as direções. Atravesse a Ponte Carlos ao amanhecer, antes das sete, quando ela ainda pertence aos moradores e aos fotógrafos.

O outro lado do rio, Malá Strana, leva ao Castelo de Praga, que não é um castelo e sim uma cidadela inteira, com a catedral de São Vito, a Basílica de São Jorge e o Beco Dourado. Reserve meio dia. O bairro judeu, Josefov, guarda as sinagogas e o antigo cemitério com lápides amontoadas em camadas, um dos lugares mais impressionantes da Europa Central. Para fugir do fluxo, suba até Vyšehrad no fim da tarde: fortificação sobre o rio, cemitério com os grandes nomes tchecos e a melhor vista da cidade sem fila.

Roteiros de trem que funcionam
Praga é forte sozinha, mas rende muito mais encaixada em um circuito ferroviário. A malha da Europa Central é pontual, confortável e barata, e dispensa completamente o avião entre as capitais.

Para sete a oito dias, Praga e Viena é a dupla mais óbvia e mais eficiente, com quatro horas de trem direto entre elas e passagens a partir de 400 coroas quando compradas com antecedência. Para dez dias, acrescente Budapeste, que fica a cerca de sete horas de Praga em trem direto, ou pouco mais de duas horas de Viena. E para doze a quatorze dias, o roteiro completo é Budapeste, Viena, Praga e Berlim.

Esse último é o que estou fazendo agora, pela segunda vez, e continua sendo o melhor desenho de viagem para quem quer quatro capitais distintas sem perder um dia inteiro em aeroporto. O trecho Praga a Berlim é o mais bonito de todos: quatro horas e meia margeando o rio Elba, em trens ComfortJet novos, com vagão-restaurante e wi-fi, por volta de 20 euros se comprado com antecedência. Compre os bilhetes de duas a seis semanas antes, porque as tarifas sobem muito perto da data, e faça sempre reserva de assento nos trechos internacionais.

Se sobrar um dia em Praga, três bate-voltas se resolvem de trem: Kutná Hora, a uma hora, com a catedral gótica de Santa Bárbara e a capela de ossos de Sedlec; Dresden, a duas horas, já na Alemanha; e Český Krumlov, a cerca de três horas de ônibus, uma vila medieval encaixada em uma curva do rio Vltava que parece cenário.

Dica do Vitor
Baixe o aplicativo PID Lítačka assim que chegar. Os bilhetes de transporte saem alguns trocados mais baratos que os de papel, você compra na hora e não precisa procurar máquina amarela com moeda na mão. E valide sempre, mesmo em bonde vazio: a fiscalização em Praga é discreta, à paisana, e a multa por viajar sem bilhete válido passa de mil coroas, o que joga fora toda a economia da viagem.

A segunda dica é de ritmo. Praga concentra quase tudo em uma área que se atravessa a pé em 40 minutos, então resista à tentação de encher o roteiro. Reserve uma tarde inteira sem plano, escolha um bairro fora do eixo turístico, como Vinohrady ou Žižkov, e sente em um café de esquina para ver a cidade funcionar. É ali, e não na praça principal, que você entende por que Praga continua imbatível na relação entre beleza e preço.

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