
Ao longo dos últimos dias, em uma série de textos produzidos durante minha viagem aqui pela China, tenho mostrado diferentes aspectos de um país que ainda surpreende muitos brasileiros: a dimensão das cidades, a tecnologia incorporada ao cotidiano, a eficiência dos transportes e diferenças culturais que aparecem até nas situações mais banais. Mas existe uma característica que talvez seja mais difícil de mostrar em fotografias ou vídeos: a sensação de segurança. Caminhar pelas ruas com o celular na mão, utilizar transporte público à noite ou simplesmente circular por regiões movimentadas parece exigir uma preocupação muito menor com furtos e roubos do que aquela à qual estamos acostumados no Brasil.
Um episódio desta viagem acabou ilustrando bem essa diferença. Esqueci meu segundo celular em um restaurante e só percebi posteriormente. Voltei ao estabelecimento no dia seguinte e o aparelho estava guardado, esperando que eu aparecesse para buscá-lo. Quando comentei que havia ficado preocupado com a possibilidade de alguém ter levado o telefone, a resposta veio quase em forma de surpresa: “Mas por que alguém roubaria?”
A frase pode soar curiosa para um brasileiro, mas começa a fazer mais sentido quando se observa a combinação de fatores que ajuda a explicar os baixos níveis de criminalidade e, principalmente, a sensação de segurança encontrada em muitas cidades chinesas.
Encontrou um objeto? A lei determina a devolução
Existe um detalhe jurídico diretamente relacionado ao episódio do celular. O Código Civil da China determina que quem encontra um objeto perdido deve devolvê-lo ao proprietário, avisá-lo ou entregá-lo a órgãos competentes, como a segurança pública. Portanto, encontrar um bem esquecido não significa que ele automaticamente passa a pertencer a quem o encontrou.
A legislação criminal vai além. Apropriar-se ilegalmente de um objeto que outra pessoa esqueceu e recusar-se a devolvê-lo, quando envolvido valor considerado relevante, pode resultar em até dois anos de prisão, detenção ou multa. Em situações envolvendo valores elevados ou circunstâncias mais graves, a pena pode variar de dois a cinco anos de prisão, além de multa.
Ou seja, uma situação aparentemente simples como encontrar um telefone esquecido pode deixar de ser apenas uma questão moral e passar a ter consequências jurídicas.
Furto também pode terminar em prisão
As punições previstas para furto ajudam a entender por que cometer esse tipo de crime pode representar um risco bastante elevado na China. O Código Penal estabelece que furtar valores considerados relevantes, cometer furtos repetidamente, invadir residências para furtar ou praticar determinadas modalidades de furto pode levar a até três anos de prisão, além de multa.
Quando o valor envolvido ou as circunstâncias são considerados graves, a pena pode variar de três a dez anos de prisão. Em situações classificadas como especialmente graves, a legislação prevê dez anos ou mais e até prisão perpétua, além da possibilidade de multa ou confisco de bens.
A própria Justiça chinesa estabelece referências financeiras para diferenciar essas situações. Dependendo da região, valores na faixa de 1.000 a 3.000 yuans já podem ser considerados relevantes para enquadramento criminal. Para categorias superiores, existem faixas que chegam a dezenas ou centenas de milhares de yuans, com penas progressivamente maiores.
Além disso, nem toda ocorrência precisa chegar ao nível de crime para gerar consequência. A legislação de segurança pública também permite aplicação de detenção administrativa e multas em determinadas situações envolvendo furto, fraude ou apropriação de bens.
Roubo com violência tem punições ainda mais severas
Quando existe violência, ameaça ou coerção, as punições aumentam consideravelmente. O roubo mediante violência ou ameaça pode resultar, em regra, em três a dez anos de prisão, além de multa.
Em circunstâncias agravantes, como roubos em residências, transportes públicos, instituições financeiras, uso de armas ou casos que provoquem ferimentos graves ou morte, as penas podem ultrapassar dez anos, chegar à prisão perpétua e, nas hipóteses extremas previstas pela legislação chinesa, até à pena de morte.
Isso ajuda a criar um ambiente no qual a percepção de risco para quem decide cometer determinados crimes é muito diferente de simplesmente calcular se será ou não flagrado naquele momento.
Um país coberto por câmeras
Outro elemento impossível de ignorar é o monitoramento. A China possui uma das maiores estruturas de videovigilância do planeta. Estimativas internacionais recentes trabalham com algo em torno de 700 milhões de câmeras instaladas no país.
Considerando uma população de aproximadamente 1,4 bilhão de habitantes, isso representaria matematicamente algo próximo de uma câmera para cada duas pessoas. É importante destacar que não existe um censo público preciso capaz de confirmar o número exato de equipamentos em funcionamento e, portanto, essa quantidade deve ser tratada como uma estimativa.
Ainda assim, basta circular pelas cidades chinesas para perceber a dimensão desse monitoramento. Câmeras aparecem em ruas, cruzamentos, estações de metrô, terminais ferroviários, transportes, centros comerciais e inúmeros outros espaços. O país também utiliza tecnologias como reconhecimento facial e identificação de veículos.
Com isso, cometer um delito em um ambiente urbano pode significar deixar registros não apenas do momento da ocorrência, mas também do caminho feito antes e depois dela.
As câmeras realmente reduzem crimes?
Há evidências de que esse monitoramento produz efeitos concretos. Um estudo publicado no Journal of Development Economics, que analisou dados de mais de 300 cidades chinesas, encontrou relação entre a expansão das redes de vigilância e uma redução maior da criminalidade.
O impacto foi especialmente perceptível nos crimes praticados em locais públicos e que podem ser captados pelas câmeras, entre eles furtos e roubos. Os pesquisadores também identificaram aumento na sensação de segurança entre moradores de cidades com estruturas de vigilância mais extensas.
Isso não significa que simplesmente instalar câmeras seja suficiente para eliminar crimes. O monitoramento funciona dentro de uma estrutura muito mais ampla, que inclui capacidade de investigação, identificação de suspeitos, policiamento e aplicação das leis.
Os números da criminalidade vêm caindo
Os dados mais recentes divulgados pelo Ministério da Segurança Pública chinês também mostram uma trajetória de redução das ocorrências. No primeiro semestre de 2026, o total de casos criminais registrados na China caiu 16,5% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
No conjunto formado pelos crimes tradicionais de furto, roubo e fraude, a redução foi ainda maior: 38,9%, com 307 mil casos registrados durante os seis primeiros meses do ano. As autoridades também informaram que os homicídios atingiram o menor nível já registrado.
A queda já vinha sendo observada anteriormente. Em 2025, o total de casos criminais havia recuado 12,8%, enquanto as ocorrências tradicionais de furto, roubo e fraude diminuíram 21,2%.
Evidentemente, estatísticas oficiais devem sempre ser analisadas dentro do contexto do sistema que as produz, mas os números ajudam a explicar por que a experiência cotidiana de segurança relatada por moradores e percebida por muitos visitantes é tão marcante.
Não é apenas uma questão de câmeras ou punição
Seria simplista concluir que os chineses não roubam simplesmente porque existem câmeras ou porque as penas podem ser severas. Da mesma forma, seria incorreto afirmar que furtos e roubos não existem na China. Eles existem, assim como golpes, fraudes e outros tipos de crime, e turistas devem continuar tomando os cuidados normais de qualquer viagem.
O que parece explicar melhor essa realidade é justamente a soma de diversos fatores: monitoramento em larga escala, facilidade para identificar suspeitos, presença do aparato de segurança, capacidade de investigação, legislação rigorosa, diferentes níveis de punição e elementos sociais e culturais. Quando esses fatores funcionam simultaneamente, diminuem tanto as oportunidades quanto a percepção de impunidade para quem pensa em cometer um crime.
E talvez seja justamente essa combinação que ajude a entender aquela resposta depois de recuperar o celular. Para quem vem de uma sociedade em que esquecer um telefone sobre uma mesa imediatamente desperta a preocupação de nunca mais encontrá-lo, ouvir “mas por que alguém roubaria?” causa estranhamento.
Mais impressionante do que encontrar um telefone esquecido no dia seguinte é perceber como o medo de ser vítima de um furto parece ocupar um espaço muito menor nas pequenas decisões do cotidiano.