Mulheres viajando sozinhas
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Mulheres viajando sozinhas

Viajar sozinha deixou de ser uma exceção e já faz parte da realidade de milhões de brasileiras. Um levantamento inédito do Ministério do Turismo, elaborado em parceria com a UNESCO, revelou que quatro em cada dez mulheres participantes já realizaram viagens desacompanhadas algumas vezes, enquanto 31,4% afirmaram fazer esse tipo de viagem com frequência. A pesquisa foi realizada entre agosto e setembro de 2025 e ouviu 2.712 mulheres de todas as regiões do país, reunindo informações sobre motivações, preferências, preocupações e estratégias adotadas durante as viagens. Os resultados integram o Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas, lançado em março de 2026.

Os dados mostram que a viagem solo feminina não está necessariamente relacionada à falta de companhia. Para 72,6% das entrevistadas, a principal motivação é o lazer, enquanto 65,1% mencionaram a busca por independência e liberdade. O autoconhecimento foi apontado por 41,4%, seguido pelas viagens a trabalho, com 37,6%, e pelas visitas a familiares e amigos, com 34,7%. Na prática, muitas mulheres estão decidindo não adiar uma viagem simplesmente porque não encontraram alguém disponível para acompanhá-las. Viajar sozinha permite escolher o destino, definir horários, alterar o roteiro e aproveitar cada experiência no próprio ritmo, sem precisar negociar todas as decisões com outra pessoa.

A maneira como essas mulheres viajam também revela mudanças importantes no consumo turístico. As atividades culturais aparecem entre as principais preferências, mencionadas por 68,3% das participantes, seguidas pelo ecoturismo, com 64,2%, e pelas experiências gastronômicas, com 30,1%. O maior grupo de viajantes está na faixa dos 35 aos 44 anos, que representa 34,6% das entrevistadas, seguido pelas mulheres de 45 a 54 anos e pelas que têm entre 25 e 34 anos. A maioria não tem filhos, mas o levantamento também mostra que muitas mães conciliam a maternidade com momentos individuais de viagem.

Apesar do crescimento desse perfil de viajante, a segurança continua sendo um dos fatores mais importantes na escolha de um destino. Seis em cada dez entrevistadas afirmaram que já deixaram de fazer uma viagem por medo ou por questões relacionadas à violência. Além disso, 60,6% relataram ter passado por alguma situação que provocou sensação de insegurança enquanto viajavam desacompanhadas. As preocupações não estão limitadas à violência física: furtos, golpes, fraudes e o roubo de documentos, celulares e cartões também podem comprometer completamente uma viagem.

Como profissional do turismo, recomendo que o planejamento comece pela escolha cuidadosa da hospedagem. Antes de fazer a reserva, é importante pesquisar a localização, verificar como será o deslocamento até os principais pontos turísticos e analisar se a região continua movimentada e bem iluminada durante a noite. Também vale ler avaliações recentes e, quando a plataforma permitir, filtrar os comentários por tipo de viajante, procurando principalmente relatos de pessoas que viajaram sozinhas. Embora não exista necessariamente um filtro exclusivo para mulheres, os comentários costumam trazer informações importantes sobre segurança, transporte, iluminação das ruas, atendimento e facilidade para chegar ao hotel.

Também recomendo evitar hospedagens muito isoladas apenas para economizar. Em muitos casos, pagar um pouco mais para ficar perto de uma estação de metrô, de uma avenida movimentada ou de uma região turística pode reduzir deslocamentos longos, gastos com transporte e situações de vulnerabilidade. É importante verificar como será a chegada ao destino, principalmente quando o voo ou o ônibus chega durante a madrugada. Quando possível, o transporte entre o aeroporto, a rodoviária e o hotel deve ser organizado com antecedência, utilizando empresas ou aplicativos conhecidos.

Outro cuidado fundamental é não divulgar a localização em tempo real nas redes sociais. A viajante pode publicar as fotografias depois de deixar o local, evitando informar publicamente onde está hospedada ou qual será o próximo passo do roteiro. Também é recomendável compartilhar com uma pessoa de confiança os dados da hospedagem, os deslocamentos planejados e os horários aproximados de chegada. Documentos, cartões e dinheiro não devem ser guardados todos no mesmo lugar, e cópias digitais do passaporte, da identidade, das reservas e do seguro-viagem podem facilitar a solução de imprevistos.

Em restaurantes, bares, festas e casas noturnas, a recomendação é observar o ambiente, não aceitar bebidas de desconhecidos e não deixar copos desacompanhados. Em locais muito turísticos, é necessário manter atenção especial a abordagens insistentes, falsas ofertas, cobranças indevidas e distrações criadas para facilitar furtos. No Brasil, passeios, transportadoras turísticas, guias e outros prestadores de serviços podem ser consultados no Cadastur, cadastro oficial do Ministério do Turismo. O levantamento reforça que a segurança não deve ser considerada uma responsabilidade exclusiva da mulher, mas de toda a cadeia turística, incluindo hospedagens, transportes, bares, restaurantes, empresas e destinos.

Também considero essencial que alguns telefones importantes estejam salvos no celular antes do início da viagem. No Brasil, a Polícia Militar deve ser acionada pelo número 190 em situações de emergência policial; o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o SAMU, atende pelo 192; e o Corpo de Bombeiros, pelo 193. A Central de Atendimento à Mulher funciona pelo Ligue 180, oferecendo gratuitamente orientações sobre direitos, serviços de acolhimento e registro de denúncias de violência contra a mulher. Já o Disque 100 recebe denúncias relacionadas a violações de direitos humanos.

O crescimento das viagens solo mostra que o turismo também precisa se adaptar. As mulheres procuram hospedagens com protocolos claros de segurança, meios de transporte confiáveis, informações acessíveis sobre trajetos e profissionais preparados para atender esse público. O Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas integra uma iniciativa do Ministério do Turismo voltada à construção de um turismo mais seguro, responsável e inclusivo, reconhecendo que a liberdade de viajar precisa ser acompanhada de acolhimento, respeito e estrutura.

Viajar sozinha não deveria ser encarado como um ato extraordinário de coragem, mas como uma escolha pessoal. Com informação, planejamento e atenção, a experiência pode proporcionar independência, autoconhecimento e liberdade. Ao mesmo tempo, não se pode normalizar a ideia de que as mulheres precisam viver em estado permanente de alerta. O poder público, as empresas e os destinos também têm responsabilidade na criação de ambientes nos quais qualquer mulher possa circular e viajar com segurança.

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