Moradores protestam contra taxa da Ilha Grande
Reprodução / Instragram
Moradores protestam contra taxa da Ilha Grande

A Ilha Grande amanheceu sob tensão no dia 1º de junho. Logo no primeiro dia de cobrança da Taxa de Turismo Sustentável, a TTS, criada pela Prefeitura de Angra dos Reis, moradores e trabalhadores do setor turístico tomaram o cais da Vila do Abraão, formaram um cordão de barcos para impedir o atracamento de embarcações de turismo e penduraram faixas com o lema "Não à Taxa". Na madrugada anterior, os totens de pagamento instalados na ilha já haviam sido incendiados por homens encapuzados. Ao longo do dia houve confusão com a chegada da polícia, e mesmo assim o protesto seguiu. Por trás dele há uma pergunta que ninguém da prefeitura respondeu de forma convincente: para onde vai esse dinheiro?

O que é a taxa
A TTS foi aprovada e sancionada em outubro de 2025 e passou a valer em junho de 2026. Os valores variam conforme a origem do visitante e o tempo de permanência: quem vai passar o dia paga entre R$ 28 e R$ 50, e quem pernoita pode desembolsar de R$ 50 a R$ 100 por pessoa. A operação é inteiramente digital, feita pelo portal Viva Angra, com uma taxa de serviço de 12% cobrada pela plataforma. Moradores, familiares, prestadores de serviço, crianças de até 12 anos e idosos estão isentos, desde que façam cadastro prévio. No papel, é uma medida de turismo sustentável como tantas pelo mundo. O problema mora nos detalhes.

Por que a revolta
O detalhe mais importante é este: um estudo técnico da própria prefeitura, usado como base para a proposta, recomendava uma taxa de apenas R$ 2,70, com os recursos destinados exclusivamente a um fundo de preservação ambiental da Ilha Grande. A lei aprovada não só multiplicou o valor por dezenas de vezes como mudou o destino do dinheiro: em vez de ir para um fundo carimbado para a ilha, a arrecadação cai no caixa geral do município. É uma diferença enorme. Uma coisa é o turista pagar sabendo que cada centavo volta em trilha conservada, praia limpa e saneamento. Outra, bem diferente, é pagar para alimentar um caixa sem prestação de contas clara.

Na audiência pública da Alerj, representantes da comunidade lembraram que a Ilha Grande já é taxada, pela cobrança de embarque e desembarque feita pela TurisAngra, uma fundação que sequer presta contas ao Portal da Transparência do município. Some-se a isso o fato de que tributos já pagos não se traduzem em melhorias básicas, como esgoto e energia, e a desconfiança se explica. A Associação dos Meios de Hospedagem da Ilha Grande calcula que uma família com um filho pode gastar quase R$ 750 só com barco e taxa, sem contar o deslocamento até Angra. Já há relatos de cancelamentos de hospedagem desde o anúncio da cobrança, e a legalidade da medida virou alvo de ação popular movida por um deputado estadual.

A resposta da prefeitura
É justo dar a versão da administração. A prefeitura afirma que o texto final saiu de um processo de diálogo com o trade, moradores e vereadores, e que a arrecadação será destinada prioritariamente a saneamento, preservação ambiental, segurança pública e infraestrutura, com metas como esgoto e lixo zero até 2028, revitalização de cais e um observatório para monitorar o fluxo de visitantes. Tudo isso é desejável. O ponto é que intenção declarada não é o mesmo que garantia legal. Enquanto o dinheiro puder ser usado livremente no caixa geral, a promessa de retorno depende da boa vontade da gestão da vez, e é exatamente isso que move a revolta.

Meu olhar como profissional de turismo
Vou ser direto: o problema nunca foi a existência da taxa. Taxa de turismo pode ser uma das ferramentas mais inteligentes para proteger um destino frágil, e a Ilha Grande (Patrimônio Mundial da Unesco, visitada por mais de um milhão de pessoas por ano) é exatamente o tipo de lugar que precisa de controle de fluxo. O problema é o que se faz com o dinheiro depois que ele entra.

E o que se faz tem que ser uma coisa só: investir na própria ilha e na própria gente que vive dela. Quando um valor é cobrado do turista, isso não pode ser arrecadação pura. Tem que ser investimento na região, e o morador precisa ser o primeiro beneficiário. Isso é turismo comunitário de verdade: o morador com participação ativa, sendo cuidado, e não atropelado pela conta. Ninguém recebe bem um hóspede na própria casa se está insatisfeito dentro dela.

Na prática, esse dinheiro precisa voltar em coisas concretas. O mínimo é saneamento básico digno. Mas a Ilha Grande precisa ir além e construir uma estrutura turística à altura de quem ela recebe:

- Um cais e um porto minimamente decentes, à altura de um destino de nível mundial;
- Capacitação contínua dos profissionais locais, para que atendam com cada vez mais excelência;
- Equipes que falem ao menos inglês, porque a ilha recebe milhares de turistas estrangeiros todos os anos.

É assim que a roda gira: o turista paga, o recurso é investido, a experiência melhora, e a ilha recebe ainda mais e melhor. Sem isso, a taxa é só dinheiro saindo do bolso de quem visita e sumindo no caminho. Por isso não dá para aceitar só a cobrança entrando. Tem que haver fiscalização severa e prestação de contas transparente. É hora de acabar de vez com a ganância e tratar o turismo como o que ele é para a Ilha Grande: a vida da comunidade.

Diferente de Morro de São Paulo, a Ilha Grande está se posicionando
Aqui vai uma comparação que poucos estão fazendo. Em Morro de São Paulo, o aumento da taxa de turismo foi sendo absorvido com pouca reação organizada — e talvez ali estivesse a hora de a comunidade ter se posicionado, exigido transparência e cobrado retorno. A Ilha Grande está fazendo justamente isso. Por mais barulhento que tenha sido, o movimento na Vila do Abraão é a comunidade dizendo, em alto e bom som, que aceita contribuir, mas exige saber para onde vai o dinheiro e quer ser a maior beneficiária da cobrança, não a mais prejudicada.

Esse é o caminho certo. Em Fernando de Noronha, o visitante paga a taxa de preservação e o ingresso do parque sem reclamar, porque vê o retorno na estrutura que mantém a ilha de pé. O que faz uma taxa funcionar nunca é o valor: é o carimbo, a fiscalização e o resultado visível. A Ilha Grande não está rejeitando a ideia de cuidar de si mesma. Está cobrando o básico de qualquer cobrança pública, clareza sobre quanto, por quê e para onde. Enquanto essa conta não fechar, qualquer taxa, por menor que seja, vai ser recebida como o que os moradores já apelidaram: um pedágio. E pedágio ninguém paga de bom grado.

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