Governo da China quer entender o motivo pelo qual seus turistas se comportam tão mal
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Governo da China quer entender o motivo pelo qual seus turistas se comportam tão mal

Quando postei sobre esse assunto em meu instragram (@vitor.vianna) a caixa de comentários não parou. Brasileiros de todo o país relatando experiências vividas em destinos ao redor do mundo: filas desrespeitadas, monumentos históricos tratados como cenário de selfie sem qualquer reverência, barulho excessivo em espaços sagrados, empurra-empurra em museus, descaso com as regras mais básicas de convivência. O tema tocou em algo que muita gente que viaja carrega, mas raramente fala em voz alta.

O assunto, no entanto, não é novo, e o próprio governo chinês sabe disso há muito tempo....

Quando tudo começou a virar caso de Estado
Um dos episódios que mais causou constrangimento internacional foi protagonizado por um adolescente de 15 anos chamado Ding Jinhao, que gravou seu nome em um templo egípcio de 3.500 anos em Luxor. O escândalo foi tão grande que o próprio porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China se viu obrigado a se pronunciar publicamente. 

Mas esse foi apenas o estopim de uma série de incidentes que se acumulavam havia anos. Turistas chineses atacaram aeromoças em aviões, abriram portas de emergência em pleno voo e protagonizaram motins a bordo. Um grupo causou escândalo na Tailândia ao secar roupas penduradas no aeroporto, defecar em público e chutar um sino em um templo histórico. Uma mãe deixou os filhos defecarem no chão do aeroporto de Kaohsiung, em Taiwan, a poucos metros de um banheiro, estendendo um jornal no chão antes.

A resposta do governo, que existe desde 2015
Em maio de 2015, aproveitando o feriado do Dia do Trabalho, a Administração Nacional de Turismo da China colocou em prática um cadastro oficial de turistas banidos. Quem entra nele enfrenta dificuldades para contratar viagens ao exterior em agências e para obter cartão de crédito, com penalização de dois anos. Os responsáveis por alimentar o cadastro são os próprios guias de turismo. 

Entre os comportamentos considerados inadequados estão atitudes antissociais em transportes públicos, danos à propriedade pública ou privada, desrespeito a costumes locais, vandalismo em sítios históricos e participação em jogos de azar ou atividades pornográficas. O governo chegou a publicar um guia de boas maneiras recomendando, entre outras coisas, não colocar o dedo no nariz e não urinar na piscina.

Dez anos depois da criação do cadastro, o problema continua na pauta. O volume de viajantes só cresceu: em 2024, os chineses realizaram 291 milhões de viagens internacionais, e qualquer percentual pequeno de comportamentos inadequados nesse universo é suficiente para virar manchete em qualquer parte do mundo.

O contexto que explica, mas não justifica
Para Liu Simin, pesquisador do Centro de Pesquisas do Turismo da Academia China de Ciências Sociais, "objetivamente falando, os turistas chineses são personagens relativamente pouco civilizados." Segundo ele, "a viagem internacional é um luxo novo, e muitos turistas chineses estão só agora indo para o exterior, com frequência sem experiência ou familiaridade com as regras e normas de outros países." É uma classe média gigantesca viajando em massa pela primeira vez. Não é desculpa. Mas é contexto.

O personagem que ninguém menciona: o guia de turismo
Eu fui guia de turismo. Conduzi grupos por anos. E posso dizer com conhecimento de causa: boa parte do problema que vemos nesses grupos massivos passa pela ausência de um trabalho sério de orientação por parte de quem conduz essas viagens.

O papel do guia vai muito além de apontar monumentos e recitar datas. O bom guia estabelece as regras antes de entrar em qualquer lugar. Orienta sobre o que pode e o que não pode, sobre como se comportar em um templo, em um museu, em uma comunidade local. Cria uma dinâmica de respeito com o grupo desde o primeiro dia. Quando isso não acontece, cinquenta ou sessenta pessoas ficam completamente à deriva, e cada um faz o que quer.

O pior é que tem guia por aí que se comporta pior do que os próprios turistas. E aí o problema se multiplica de forma assustadora.

Existe ainda um modelo de turismo que facilita tudo isso: os grandes grupos massivos vendidos por operadoras que não têm qualquer compromisso com a qualidade da experiência ou com o respeito ao destino. O objetivo começa e termina na venda. O que acontece depois, com o patrimônio histórico, com os outros turistas ao redor, com a comunidade local, simplesmente não faz parte da conta.

A pergunta que fica
Os comentários que recebi nas minhas redes foram reveladores. Brasileiros relatando experiências em Roma, em Paris, no Japão, na Tailândia, sempre com histórias parecidas, sempre com o mesmo personagem central. E isso me fez pensar numa questão que não tem resposta simples:

Será que tudo isso tem a ver com cultura, com uma sociedade que ainda está aprendendo a se relacionar com o mundo além das próprias fronteiras? Ou é simplesmente falta de educação mesmo?

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