
Mais de R$ 150 em taxas. É isso que uma pessoa pode gastar hoje só para acessar Morro de São Paulo e seus arredores. E a pergunta que precisa ser feita é: esse dinheiro está voltando em estrutura para o turista e para a população local?
Depois do vídeo que eu publiquei em minhas redes sociais mostrando ruas vazias em Morro de São Paulo, a Prefeitura de Cairu entrou em contato comigo dizendo que aquelas imagens não eram de Morro. Só que eram. E eu provei. Peguei o print da pousada que aparecia no vídeo e comparei com a própria pousada no Google, localizada em Morro de São Paulo. Depois disso, não tive mais resposta.
Hoje, para chegar em Morro, o turista já começa pagando antes mesmo de entender direito o que está acontecendo. Tem taxa em Valença, tem taxa de turismo de Morro de São Paulo, que agora passou para cerca de R$ 90 por pessoa, e, se a pessoa quiser seguir para Boipeba, ainda existe mais uma taxa. Somando tudo, a conta pode passar de R$ 150 por pessoa. Em casal, isso já vira mais de R$ 300. Em uma família com duas crianças, pode passar facilmente de R$ 600 só em taxa.
E isso sem contar a lancha rápida, que já é cara e, em muitos casos, também não oferece uma experiência organizada. O turista chega no cais sem informação clara, sem saber exatamente quanto tempo vai esperar, quanto tempo vai durar o trajeto, se a embarcação fará paradas, onde deve aguardar, quem organiza o embarque e qual é o fluxo correto. Ou seja, antes mesmo de chegar ao destino, a experiência já começa com insegurança, improviso e falta de comunicação.
Isso, tecnicamente, é um erro grave de gestão turística. Turismo não começa quando o visitante pisa na praia. Turismo começa no primeiro ponto de contato com o destino. Começa na compra, no deslocamento, no cais, na sinalização, na informação, no embarque, na recepção e na sensação de segurança. Quando tudo isso é confuso, o destino já começa perdendo valor antes mesmo de entregar sua principal atração.
E é aqui que entra o problema das taxas. Taxa de turismo não é absurda por existir. Ela pode ser legítima, necessária e até importante para preservar destinos frágeis, controlar fluxo de visitantes e financiar infraestrutura. O problema é quando a taxa vira apenas arrecadação, sem contrapartida visível, sem transparência, sem melhoria perceptível e sem uma experiência minimamente organizada para quem paga.
Quando um destino cobra uma taxa alta, ele precisa entregar algo em troca. Precisa ter ponto de apoio ao turista, sinalização decente, organização no desembarque, tabela clara de serviços, fiscalização, controle de preços abusivos, acessibilidade, saneamento, limpeza urbana, suporte emergencial, planejamento de fluxo e comunicação eficiente. Não dá para cobrar como destino premium e receber o turista como se tudo fosse improvisado.
Em Morro de São Paulo, o visitante chega e já encontra uma ladeira difícil, carregadores de mala sem uma padronização clara de preço, pouca orientação oficial e uma sensação de que cada um precisa se virar como pode. Para uma pessoa jovem, talvez isso seja apenas desconfortável. Para um idoso, uma pessoa com mobilidade reduzida, uma família com criança ou alguém viajando com muitas malas, isso vira um problema real de acessibilidade e acolhimento turístico.
E quando eu falo em acolhimento, não estou falando de luxo. Estou falando do básico. Um destino que cobra caro para entrar precisa ter um mínimo de organização para receber. Precisa explicar onde o turista está, para onde ele vai, quanto custa cada serviço, quem são os prestadores autorizados, onde buscar ajuda, o que fazer em caso de emergência e como circular com segurança.
O mais grave é que essa falta de estrutura não atinge apenas o turista. Ela atinge principalmente a população local. Porque, quando o visitante começa a achar que o destino ficou caro demais, confuso demais e cansativo demais, ele simplesmente troca de lugar. E quando ele troca de lugar, quem perde não é só a prefeitura. Quem perde é a pousada, o restaurante, o bar, o guia, o vendedor, o barqueiro, o carregador, a cozinheira, o artesão e todo mundo que depende diretamente do turismo.
Por isso, a discussão não pode ser reduzida a “Morro está cheio” ou “Morro está vazio”. O ponto é muito mais profundo. O que está em jogo é a sustentabilidade econômica do destino. Um lugar pode até viver durante anos da fama, da beleza natural e da memória afetiva de quem já foi. Mas nenhum destino turístico sobrevive para sempre se continuar aumentando o custo de entrada sem melhorar a experiência de quem chega.
Morro de São Paulo tem um produto turístico fortíssimo. Tem beleza, tem história, tem praia, tem vida noturna, tem localização estratégica e tem um nome consolidado no imaginário do viajante brasileiro. Mas isso não basta. Destino turístico não se sustenta apenas com paisagem bonita. Se sustentaria assim há 20 anos, quando havia menos concorrência, menos informação e menos redes sociais. Hoje, o turista compara preço, estrutura, acesso, atendimento e experiência em tempo real.
E é exatamente aí que mora o risco. Porque a Bahia tem outros destinos incríveis. Salvador tem estrutura, aeroporto, hotelaria forte, gastronomia, cultura, vida noturna e não cobra essa quantidade de taxas para o turista circular. Porto Seguro, Arraial d’Ajuda, Trancoso, Itacaré, Praia do Forte e tantos outros lugares também entram nessa comparação. Mesmo quando são caros, muitos deles entregam mais previsibilidade e menos barreiras de entrada.
Se Morro de São Paulo continuar transmitindo a sensação de que o turista paga muito e recebe pouco em organização, o destino vai se enfraquecer. Não de uma hora para outra, mas aos poucos. Primeiro diminui o fluxo em períodos que antes eram fortes. Depois, as pousadas começam a sentir. Em seguida, restaurantes reduzem movimento. Depois, trabalhadores informais sofrem. E, quando se percebe, o problema já deixou de ser uma reclamação de turista e virou uma crise econômica local.
O turismo precisa ser pensado como cadeia produtiva, não como caixa automático da prefeitura. Taxa turística precisa ter finalidade, transparência e retorno. Precisa melhorar a vida de quem visita e de quem mora. Se ela não resolve acesso, saneamento, mobilidade, informação, acolhimento e infraestrutura, então ela deixa de ser ferramenta de desenvolvimento e passa a ser apenas mais uma barreira para o destino.
E Morro de São Paulo não precisa de mais barreiras. Precisa de gestão.