
Quando pensamos no Palácio de Versalhes, a imagem que vem à cabeça é de luxo extremo, riqueza absoluta e o auge da sofisticação europeia. Lustres gigantes, salões dourados, jardins impecáveis e uma corte que vivia cercada de excessos. Mas existe um detalhe que quase ninguém conta, e que muda completamente a forma como você enxerga esse lugar: Versalhes simplesmente não tinha estrutura de banheiros como conhecemos hoje.
Durante grande parte do tempo, nobres, visitantes e até membros da corte faziam suas "necessidades" em corredores, escadas e até atrás de cortinas. Alguns utilizavam recipientes improvisados, mas muitos simplesmente não se preocupavam com isso. O resultado? Um palácio deslumbrante… e com um cheiro quase insuportável.
No verão, a situação ficava ainda pior. O calor intensificava o odor, as moscas se multiplicavam e o ar dentro do palácio se tornava pesado. Há relatos de que o cheiro era tão forte em determinados dias que o próprio rei ordenava que a corte se mudasse temporariamente.
Para tentar amenizar a situação, os criados do palácio abriam todas as janelas, mesmo contrariando a preferência de Luís XIV (que detestava correntes de ar), mas ainda assim, muitas áreas permaneciam fechadas, o que fazia o odor se acumular a níveis extremos. Os tapetes, por exemplo, nunca eram lavados. Eram apenas sacudidos. E isso em um ambiente onde sujeira, restos orgânicos e umidade estavam constantemente presentes. O ar dentro dos salões ficava tão carregado que havia relatos de nobres passando mal durante eventos.
E a higiene pessoal também estava longe do que imaginamos hoje: Luís XIV, o símbolo máximo da monarquia francesa, teria tomado pouquíssimos banhos ao longo da vida. Na época, médicos acreditavam que a água quente abria os poros e facilitava a entrada de doenças. Por isso, tomar banho era visto como algo perigoso. Em vez disso, a solução era trocar de roupa várias vezes ao dia. Acreditava-se que isso “limpava” o corpo.
Para mascarar o cheiro, a corte usava grandes quantidades de perfume. Versalhes era, provavelmente, o lugar que mais consumia fragrâncias no mundo naquela época. Mas o efeito era limitado, na prática, o que se criava era uma mistura de perfume com odores corporais e ambiente.
As perucas, símbolo de status, também escondiam um problema pouco comentado. Elas eram usadas porque muitas pessoas raspavam o cabelo devido a piolhos. Para fixá-las, utilizava-se gordura animal, como banha de porco. No calor, sem higiene adequada, esse material podia apodrecer, gerando um cheiro ainda mais forte.
Na hora de dormir, era pior, os colchões eram infestados por pulgas e percevejos. De fato, naquela época, dormir não era exatamente confortável e um momento de descanso... pois muitas pessoas passavam a noite inteira se coçando.Até a saúde bucal refletia essa realidade. Aos 40 anos, Luís XIV já havia perdido praticamente todos os dentes. Relatos da época descrevem o hálito do rei como extremamente desagradável, mas ninguém ousava se afastar.
Esse era, ironicamente, o auge da civilização europeia. Versalhes mostra um contraste brutal entre aparência e realidade: por fora, um dos maiores símbolos de luxo da história; por dentro, um ambiente onde higiene, conforto e até o básico estavam longe do ideal. E talvez seja justamente isso que torna a história ainda mais fascinante.