Com a reta final da novela Dona Beja, um destino que durante anos ficou fora do radar do turismo de massa volta a ganhar atenção. Estamos falando de Araxá, uma cidade com pouco mais de 100 mil habitantes, conhecida tanto pela história da personagem quanto por um diferencial que moldou completamente o seu desenvolvimento: as águas termais.
Mas o que pouca gente sabe é que o turismo em Araxá não surgiu por acaso. Ele foi pensado, estruturado e incentivado como um projeto estratégico ainda no início do século passado.
Quando o turismo virou estratégia de Estado
No começo do século XX, Minas Gerais enfrentava uma limitação clara dentro do turismo: a ausência de litoral. Diferente de estados como Rio de Janeiro e São Paulo, que tinham no mar um grande atrativo natural, Minas precisava encontrar outra forma de se posicionar como destino turístico.
Foi nesse contexto que surgiu a valorização das estâncias hidrominerais. Regiões conhecidas pelas suas águas com propriedades terapêuticas começaram a ser vistas como uma alternativa viável para atrair visitantes.
E é aí que entra o papel de Getúlio Vargas. Durante seu governo, houve um forte incentivo ao desenvolvimento do turismo nessas áreas, com a criação de uma espécie de circuito de cassinos e estâncias termais que incluía cidades como Araxá, Caxambu e São Lourenço.
A proposta era clara: transformar essas cidades em destinos sofisticados, capazes de atrair a elite da época, oferecendo saúde, lazer e entretenimento em um mesmo lugar.
O nascimento do turismo termal em Araxá
A escolha de Araxá não foi aleatória. A região já era conhecida, desde o início do século XX, pelas suas águas sulfurosas e radioativas, provenientes de formações geológicas profundas associadas a um antigo sistema vulcânico hoje inativo.
Essas águas, ricas em minerais, passaram a ser exploradas não apenas como recurso natural, mas como produto turístico. E isso marcou o início de um modelo de turismo que ainda hoje define a cidade.
O turismo termal em Araxá nasce justamente dessa combinação entre natureza e estratégia. Não se trata apenas de um destino com águas quentes, mas de um local onde essa característica foi transformada em experiência estruturada para o visitante.
O Grande Hotel e o auge desse projeto
O símbolo máximo desse projeto é o Grande Hotel Termas de Araxá, construído como a principal referência desse circuito turístico.
Mais do que um hotel, ele foi pensado como um complexo completo, reunindo hospedagem, cassino (o maior da América Latina, entre 1944 a 1946), lazer e acesso às termas. Na época, era frequentado por políticos, empresários e artistas, funcionando como um dos grandes pontos de encontro da elite brasileira.
Hoje, mesmo sem os cassinos (fechados por Itamar Franco em 1991) o local continua sendo o coração do turismo na cidade, oferecendo banhos termais, tratamentos com lama e experiências de spa que mantêm viva a proposta original do destino.
Turismo termal na prática
Atualmente, o turismo termal em Araxá segue concentrado no Complexo do Barreiro, onde o visitante pode vivenciar essa experiência de forma completa.
As águas, naturalmente aquecidas e ricas em minerais, são utilizadas em banhos de imersão, duchas e tratamentos terapêuticos. Já a lama medicinal, outro destaque da região, é aplicada em protocolos que prometem benefícios para a pele e para o relaxamento muscular. É um tipo de turismo que foge do padrão tradicional. Aqui, a proposta não é correr de um ponto turístico para outro, mas desacelerar e viver o destino.
História, cultura e a presença de Dona Beja
Além das termas, Araxá também oferece uma conexão direta com a história que inspirou a novela. Locais como a Fonte Dona Beja e o Museu Dona Beja ajudam a entender melhor o contexto da personagem e o papel dela na construção da identidade da cidade.
Esse aspecto cultural complementa a viagem e reforça a sensação de que Araxá é um destino que vai além do visual. Ele tem narrativa.
Como chegar e acessos
Araxá também se destaca pela facilidade de acesso. Saindo do Rio de Janeiro, a viagem de carro leva em média entre oito e nove horas. A partir de São Paulo, o trajeto costuma durar entre seis e sete horas. Já de Belo Horizonte, o deslocamento é mais curto, com cerca de cinco horas de viagem.
Essa proximidade com grandes centros faz com que o destino seja uma boa opção para feriados ou viagens de poucos dias.
Aeroporto e conexões
A cidade conta com o Aeroporto de Araxá (Romeu Zema), localizado a cerca de cinco quilômetros do centro. O aeroporto opera voos regionais, principalmente com conexão para Belo Horizonte, o que facilita o acesso para quem prefere viajar de avião.
Além disso, aeroportos próximos, como Uberaba e Uberlândia, ampliam as possibilidades de chegada à região.
Vale a pena conhecer?
Araxá não é um destino de turismo de massa, nem de grandes eventos ou vida noturna intensa. E essa talvez seja a sua maior qualidade. O que a cidade entrega é uma experiência construída ao longo de décadas, baseada em bem-estar, história e identidade. Um destino que nasceu de um projeto estratégico, se desenvolveu com base nas suas características naturais e hoje oferece algo que poucos lugares no Brasil conseguem oferecer com tanta autenticidade.
Não é de hoje que novelas e filmes influenciam o turismo no mundo inteiro. Muitos destinos que hoje são conhecidos globalmente ganharam projeção justamente depois de aparecerem na tela, despertando o desejo de quem assiste de viver aquilo na vida real. E, mesmo com a impressão de que esse impacto diminuiu ao longo dos anos, momentos como esse mostram exatamente o contrário. A reta final de Dona Beija volta a colocar Araxá em evidência e reacende o interesse por um destino que, por muito tempo, passou despercebido por muita gente. No fim das contas, a força da televisão e do audiovisual continua sendo a mesma: transformar lugares em desejo. E Araxá, com sua história, suas águas termais e sua proposta de turismo mais tranquilo e sensorial, é o tipo de destino que só precisa ser redescoberto para surpreender.