
Quando a gente pensa em Egito, a imagem é quase automática: as Pirâmides de Gizé, o deserto dourado e um camelo pronto para “completar o cenário” daquela foto que todo turista sonha em fazer. O passeio parece cultural, tradicional, típico. O problema é que por trás desse cartão-postal existe uma realidade que pouca gente quer enxergar: o turismo no Egito ainda sustenta um sistema cruel de exploração animal, documentado, denunciado e cada vez mais questionado por organizações internacionais.
Isso não é “opinião”. É assunto que já virou manchete em jornais fora do Brasil e foi denunciado por ONGs como a PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), que há anos reúne imagens, vídeos e relatos sobre maus-tratos a animais usados no turismo egípcio, especialmente nas áreas próximas às Pirâmides de Gizé. E quanto mais esse tema aparece no noticiário internacional, mais difícil fica fingir que é “só um passeio inocente”.
Camelo não é cenário. É um animal.
A romantização do passeio de camelo é uma das coisas mais enganosas que o turismo vende. O turista vê o animal ali parado, com aquela aparência de “calma”, e acredita que está tudo bem. Só que camelos usados nesses passeios chegam a ficar horas sob um calor extremo, muitas vezes sem água, sem alimentação adequada e sem descanso.
Existem inúmeros registros de agressões físicas, uso de bastões, cordas e pressão constante para que o animal obedeça. Ferimentos não tratados, exaustão, desnutrição e abandono também aparecem com frequência nos relatos. E aqui vale derrubar um mito: dizer que “camelo não precisa de água” é uma desculpa que serve para normalizar negligência. Camelos são resistentes, sim, mas isso não significa que não sintam sede, dor, cansaço e estresse. Resistência não é sinônimo de bem-estar.
Os cavalos sofrem tanto quanto os camelos.
Quando falamos desse problema, precisamos incluir também os cavalos, que são explorados em um nível igualmente revoltante. Muitos são usados para puxar charretes em áreas turísticas, carregando frequentemente três ou até quatro pessoas de uma vez, por longos trajetos, sob sol forte, em ruas quentes, sem controle veterinário e em condições físicas visivelmente precárias.
E o mais absurdo é que isso acontece em 2025. Não é como se não existissem alternativas. Existe carro, existe van, existe transporte moderno. Ou seja, não estamos falando de necessidade, e sim de conveniência e lucro fácil, sustentados pelo turista que aceita pagar por isso.
Até os gatos viraram ferramenta de “comoção”
E tem mais: o Egito também é um país onde a forma como vários animais são tratados choca, inclusive pelo contraste histórico. Os gatos, por exemplo, foram considerados sagrados por séculos no Egito Antigo. Hoje, o que se vê, principalmente em regiões turísticas, são gatos abandonados, doentes, famintos, usados como parte de um sistema que explora até a sensibilidade humana.
Eu mesmo já passei por uma situação que exemplifica bem isso: vi filhotes extremamente magros, pele e osso, e quando cheguei perto, surgiu um homem oferecendo ração. Não era cuidado, era estratégia. Ele queria dinheiro. Ou seja, o alimento estava ali, mas só seria dado se o turista pagasse. O animal vira isca emocional. A prioridade não é aliviar a fome do bicho. É faturar com a cena.
Animais viraram “acessório do turismo”
Esse conjunto de práticas revela algo maior: no turismo predatório, o animal não é visto como um ser vivo, mas como um objeto, um adereço. E aqui entra uma questão central: enquanto turistas continuarem contratando esses passeios, estarão (mesmo que sem intenção) legitimando esse sistema. É o tipo de aval silencioso que mantém o ciclo funcionando.
Por isso, quando você pensa: “ah, mas eu só queria uma foto”, é preciso lembrar que essa foto financia um modelo inteiro.
Airbnb retirou experiências com animais: não é exagero, é realidade
A repercussão das denúncias foi tão grande que empresas globais começaram a se posicionar. Um exemplo importante é o Airbnb, que anunciou que deixou de vender e promover passeios de camelo e cavalo no complexo das Pirâmides de Gizé, justamente após denúncias e pressão de organizações de proteção animal como a PETA.
Quando uma gigante global faz esse movimento, a mensagem é clara: o problema é real e documentado. Não é “mimimi”, não é sensacionalismo, não é exagero de turista ocidental. Existe crueldade, existe negligência e existe exploração.
O que o turista precisa entender
Dizer “não” a esse tipo de turismo não é radicalismo. É humanidade. Se você testemunhar agressões, animais feridos, amarrados ou abandonados, é possível denunciar às ONGs que atuam internacionalmente, como a própria PETA, registrar imagens, alertar sua agência de viagens e compartilhar informação com outros viajantes. Muita gente ainda participa desse tipo de passeio por desconhecimento. E informação é o primeiro passo para quebrar o ciclo.
Valorizar experiências que não envolvam exploração animal é uma escolha ética que deveria ser óbvia em 2025. Maltratar animais não é tradição. Não é cultura. E não pode continuar sendo normalizado como parte da “experiência turística”.
Um pensamento final
Às vezes, vendo tudo isso, dá a sensação de que o Egito ainda vive preso ao passado. Não apenas ao século passado, mas a algo ainda mais antigo, como se estivesse estacionado nos primórdios da história. Só que, quando a gente para para analisar, percebe que nem essa comparação faz sentido. Porque no tempo dos faraóis os animais eram respeitados, protegidos e, em muitos casos, considerados sagrados. O que vemos hoje é o oposto: um sistema que explora animais da pior forma possível em busca de dinheiro fácil. Dinheiro, dinheiro, dinheiro. E o mais curioso é que esse ciclo não gera prosperidade real. Não desenvolve o turismo de forma saudável. Não melhora a vida das pessoas. Pelo contrário: perpetua miséria e mantém tudo no mesmo lugar.
Fica a impressão de um ciclo vicioso, quase como uma punição moral. Quem tenta ganhar dinheiro enganando turistas e explorando seres vivos acaba preso na mesma miséria, como se nunca conseguisse evoluir. Talvez a grande mudança que o turismo no Egito precise não seja estrutural, mas ética. O turismo tem que evoluir. E nós, como turistas, também.