Forte Amber em Jaipur
Pedro Hauck
Forte Amber em Jaipur

Agra ficou para trás com o despertar do sol. Naquela manhã, o motorista do aplicativo nos deixou na mão, mas a Índia tem uma regra não escrita: quando um plano digital falha, a rua resolve em segundos. Pegamos um táxi comum acenando da calçada e seguimos cortando a poeira matinal até a estação ferroviária.

Quem viaja pelos trilhos indianos sabe que decifrar plataformas, números de trem e letras de vagão costuma exigir paciência e um certo talento para a adivinhação. Desta vez, no entanto, a engrenagem funcionou com precisão surpreendente.

Como comprei os bilhetes em cima da hora, a única opção disponível era uma classe leito, organizada em pequenas cabines abertas com quatro camas sobrepostas. A  Maria olhou com ressalvas, acostumada com padrões mais privativos, mas o cansaço acumulado falou mais alto. Estiquei o corpo no beliche e apaguei por quase todo o trajeto, sendo despertado perto do destino final pelo choro estridente de um bebê. Na Índia, com sua densidade demográfica monumental e núcleos familiares numerosos, a presença infantil é uma constante ubíqua: onde houver gente, haverá crianças.

O desembarque em Jaipur e o choque de realidade


Chegamos a Jaipur com a lição de Agra decorada: cabeça erguida, passo firme e nenhuma brecha para abordagens. Cortamos a plataforma desviando de agenciadores e motoristas com a firmeza de quem conhece o terreno.

Ainda assim, a vulnerabilidade social do país nos alcançou. Uma menina pedindo esmolas correu em nossa direção e literalmente se atirou aos nossos pés, implorando por moedas com um desespero comovente e desconcertante. Diante daquela cena dolorosa, sequer abri o aplicativo de transporte. Negociei um tuk-tuk ali mesmo na saída da estação, embarcamos às pressas e cortamos a avenida para encerrar o cerco.

No quesito hospedagem, a Índia guarda gratas surpresas para o bolso ocidental. Os hotéis têm diárias muito acessíveis. Desta vez, assumindo o controle das reservas, a Maria escolheu um três estrelas de bandeira internacional. O calor de setembro no Rajastão é implacável, seco e pesado. Conseguimos a liberação do quarto antes do horário regular, tomamos um banho gelado revigorante e nos preparamos para explorar a chamada "Cidade Cor-de-Rosa", apelido que remonta a 1876, quando o marajá Ram Singh mandou pintar toda a cidade de terracota para receber a visita do Príncipe de Gales britânico.

O Palácio da Cidade e os Marajás do Rajastão


Deixamos o hotel de tuk-tuk rumo ao coração histórico: o Palácio da Cidade (City Palace).

Palácio da Cidade
Pedro Hauck
Palácio da Cidade

O complexo foi fundado em 1727 pelo marajá Sawai Jai Singh II, quando ele decidiu transferir a capital do antigo forte de Amber para uma planície planejada com traçado em grade geométrica, uma vanguarda urbanística para a época. O palácio funde a arquitetura clássica dos rajaputes (Rajputs) com os refinamentos ornamentais mogóis, exibindo pátios monumentais, arcos entalhados e o célebre pátio Pritam Niwas Chowk, com quatro portais decorados representando as quatro estações do ano.

Os marajás de Jaipur não eram apenas figuras decorativas. Antes da independência da Índia, em 1947, os governantes rajaputes exerceram enorme peso geopolítico. Eram negociadores hábeis: mantiveram autonomia interna aliando-se estrategicamente aos imperadores mogóis e, mais tarde, firmaram pactos com a Companhia Britânica das Índias Orientais. Eram mecenas das artes, astrônomos de renome e guerreiros diplomáticos, preservando dinastias que detinham controle absoluto sobre o Rajastão.

Enorme pote de prata é observado pelos guardas no Palácio da Cidade em Jaipur
Pedro Hauck
Enorme pote de prata é observado pelos guardas no Palácio da Cidade em Jaipur

Almoçamos no restaurante Baradari, instalado dentro de um dos pátios de mármore do palácio. É um dos endereços mais badalados e elegantes de Jaipur. Embora tenha custado mais do que nossas refeições triviais, o custo de vida na Índia é tão camarada que sentar em um restaurante de alta gastronomia está longe de ser proibitivo para o orçamento de um viajante independente. A experiência foi impecável.

Um encontro carioca e o Palácio dos Ventos


Ao cruzarmos os portões externos do palácio, fomos surpreendidos por uma voz familiar em meio ao burburinho de hindi: "Tudo bem com vocês? De onde vocês são no Brasil?"

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Pedro Hauck

Com Sharik em Jaipur

Era o Sharik, um indiano nascido em Jaipur que morou anos no Rio de Janeiro, fala um português carioca perfeito e mantém inclusive um  perfil no Instagram voltado a turistas brasileiros. O encontro improvável quebrou qualquer resquício de desconfiança. Sentamos juntos para tomar um masala chai fumegante. Sharik nos levou até seu ateliê, onde trabalha com lapidação e produção artesanal de joias em prata e pedras naturais, uma das maiores vocações históricas de Jaipur. Compramos algumas peças excelentes por um preço honesto, sem a pressão teatral das lojas de comissão turística, e pegamos dicas valiosas para o restante do roteiro.

No fim da tarde, caminhamos até a fachada mais icônica da cidade: o Hawa Mahal, o Palácio dos Ventos. Erguido em 1799 com arenito vermelho e rosa, sua estrutura vazada lembra a cauda aberta de um pavão, composta por 953 pequenas janelas em balcão (jharokhas). O desenho foi milimetricamente pensado para criar um efeito venturi de refrigeração natural e, principalmente, permitir que as mulheres da corte real assistissem aos desfiles e à vida do mercado nas ruas sem serem vistas pelos olhares de fora.

Subimos ao terraço de um restaurante em frente e jantamos ali mesmo, apreciando a iluminação suave destacar a textura recortada do palácio. Voltamos de tuk-tuk para o hotel e simplesmente capotamos na cama.

O Palácio dos Ventos
Pedro Hauck
O Palácio dos Ventos

As muralhas de Amber e o silêncio de Gaitor


No dia seguinte, fechamos a conta, deixamos as cargueiras guardadas na recepção e partimos cedo para nosso principal objetivo arquitetônico fora do centro: o magnífico Forte de Amber.

Encravado em uma colina rochosa debruçada sobre o lago Maota, a 11 quilômetros do centro, Amber foi o quartel-general da dinastia Kachwaha antes da fundação de Jaipur. Suas muralhas de arenito amarelo e calcário serpenteiam as cristas serranas lembrando uma muralha chinesa em miniatura. Por dentro, o forte é um labirinto monumental de palácios suntuosos, como o Sheesh Mahal (Palácio dos Espelhos), revestido com milhares de fragmentos de espelhos convexos importados da Bélgica que refletem a luz de uma única vela iluminando todo o salão.

Desta vez, optamos por visitar sem guias. Subir rampas, cruzar baluartes e desbravar as galerias em silêncio, no nosso próprio ritmo, trouxe a sensação de liberdade que o assédio constante das ruas muitas vezes sufoca.

Forte Amber em Jaipur
Pedro Hauck
Forte Amber em Jaipur

No caminho de volta, fizemos uma parada estratégica em uma joia pouco visitada: Gaitor ki Chhatriyan. O complexo abriga os cenotáfios memoriais de cremação dos antigos marajás de Jaipur. É um vale sereno, com mausoléus abertos (chhatris) em mármore branco entalhado com representações mitológicas refinadas. Sem ônibus de excursão, sem vendedores e sem assédio, sentar sob a sombra daquelas cúpulas foi uma das pausas mais contemplativas da viagem.

Gaitor ki Chhatriyan
Pedro Hauck
Gaitor ki Chhatriyan

O último trem, o caldo de Delhi e a despedida


Retornamos ao hotel para resgatar as mochilas e ainda deu tempo de fechar a passagem pelo Rajastão com o melhor da culinária de rua: devorei deliciosos afghani kebabs tostados na brasa e, quebrando qualquer receio higiênico, saboreei o tradicional lassi (o iogurte artesanal batido servido em copos de terracota descartáveis) — com o estômago resistindo ileso, sem nenhuma intercorrência digestiva.

Corremos para a estação ferroviária e embarcamos no último trem rumo a Nova Déli. Chegamos à capital tarde da noite e usamos a excelente rede de metrô para alcançar nosso hotel com agilidade e segurança.

O plano original era aproveitar o dia seguinte para explorar os recantos históricos de Déli, mas o corpo cobrou a conta da expedição no Monte Kun somada à maratona pelos trens e palácios. Fiquei descansando no quarto. Quando finalmente me aprontei para sair e almoçar em um restaurante conceituado nos arredores, o céu fechou em segundos e desabou uma tempestade monçônica monumental, alagando ruas e sepultando qualquer plano de caminhada urbana.

No fim daquela tarde chuvosa, peguei um táxi rumo ao aeroporto internacional Indira Gandhi para embarcar em um voo com destino à Tanzânia, no leste africano, enquanto a Maria embarcou de madrugada de volta ao Brasil.

Assim se encerrou nossa jornada pela Índia: uma travessia intensa que começou no ar rarefeito e no silêncio gélido do Himalaia em Ladakh, passou por perrengues, assédios, trens lotados e banquetes de especiarias, e terminou diante das muralhas grandiosas de uma terra de extremos que não deixa ninguém indiferente.


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