
Nas últimas horas, meu celular foi inundado por dezenas de mensagens. A notícia de uma catástrofe nas montanhas do Nepal correu o mundo rapidamente e, sabendo que estou em meio a uma expedição no Himalaia, a preocupação de quem acompanha meus passos foi imediata. Aproveito o espaço desta coluna para, antes de tudo, tranquilizar a todos: acabo de descer em segurança do cume do Monte Kun. Estou na Índia, a mil quilômetros de distância do local da tragédia, e me encontro bem.
O desastre ocorreu no Nepal, um país pelo qual tenho um carinho imenso e onde gosto muito de estar. O epicentro da tragédia foi a região de Syabrubesi, um vilarejo que funciona como a principal porta de entrada para o famoso trekking do Vale de Langtang, nas proximidades de Katmandu.
O local também dá acesso ao Yala Peak, uma montanha bastante popular e de menor dificuldade técnica. É justamente por essa acessibilidade e popularidade que, infelizmente, há relatos de muitos estrangeiros entre os desaparecidos.
Ainda estamos lidando com informações preliminares, mas a dinâmica do evento é algo que nós, que vivemos a montanha e estudamos as formas do relevo, compreendemos com grande apreensão. Tudo indica que um terremoto de magnitude 4.4 na escala Richter desencadeou um colossal deslizamento de rochas.
Todo esse material despencou vertente abaixo em direção ao rio no fundo do vale, expulsando violentamente um volume gigantesco de água. O resultado foi um fluxo letal — uma avalanche de lama, pedras e árvores que arrasou implacavelmente tudo o que havia pela frente.
Paralelo com outras tragédia
Para quem conhece a história do montanhismo e da ocupação humana em áreas de altitude, essa dinâmica geológica remete imediatamente a um dos episódios mais tristes da América do Sul: a destruição da cidade de Yungay, no Peru, na década de 1970.
Naquela ocasião, um forte terremoto desestabilizou uma enorme massa de gelo e rocha no Huascarán, a montanha mais alta do território peruano. O colossal bloco despencou, atingiu as lagoas glaciares e a força do impacto gerou um aluvión — um gigantesco e incontrolável fluxo de detritos.
Essa avalanche de água, lama e pedras desceu o vale em altíssima velocidade, soterrando completamente a cidade de Yungay em questão de minutos. As semelhanças físicas e destrutivas com o que acabou de acontecer em Syabrubesi são assustadoras.
A montanha é um ambiente de beleza indescritível, mas regido por forças brutais e incontroláveis. Fico aqui, seguro do lado indiano da cordilheira, acompanhando as notícias que chegam do país vizinho com o coração apertado. As imagens que circulam são estarrecedoras. A torcida agora é para que o número de vítimas não seja tão catastrófico quanto o cenário inicial desenha.
Agradeço imensamente o carinho e a preocupação de cada um de vocês. Sigo na Índia, respeitando a força da natureza e me recuperando para os próximos passos da nossa jornada.
