
Há 25 anos, a Bolívia se tornou um destino recorrente em minha vida, um país pelo qual nutro um profundo carinho, apesar do preconceito que ainda o cerca. Inegavelmente, esta nação andina é belíssima, oferecendo paisagens que parecem de outro mundo e que contrastam de forma estonteante com a realidade brasileira, geograficamente tão próxima, mas cultural e visualmente tão distante.
Minha primeira expedição, em 2001, quando eu era jovem, aventureiro e com poucos recursos, começou com uma longa jornada terrestre. Saí de São Paulo de ônibus até Corumbá (MS) e, após cruzar a fronteira a pé, embarquei no famoso "trem da morte", que adentra o território boliviano. Longe de ser horripilante, este trem, apesar de suas diferentes classes — da luxuosa à apertada e superlotada quarta classe, na qual viajei —, marcou o início da aventura até Santa Cruz, uma cidade a apenas 200m de altitude, ainda úmida e quente.
A Transformação Andina
A verdadeira Bolívia que se espera conhecer começa a surgir à medida que subimos a Cordilheira dos Andes. Em Cochabamba, já acima dos 2.000m, a paisagem se transforma, tornando-se mais seca, cercada de montanhas e com uma nova realidade climática, tanto urbana quanto natural.
Contudo, é ao se aproximar de La Paz que o mundo se transforma de verdade. Conhecida como a capital mais alta do mundo, La Paz é, na verdade, um vale, um "buraco" protegido no meio da paisagem montanhosa circundante. Essa geografia singular permitiu que a cidade florescesse, com altitudes que variam de 2.800m a 4.100m (no limite com El Alto, onde fica o aeroporto e se inicia o Altiplano). El Alto, por sua vez, é uma realidade à parte, uma cidade dormitório e periférica.
As Montanhas Majestosas

O Nevado Huayna Potosi, montanha de 6 mil metros mais popular dos Andes e suas rotas
La Paz é circundada por montanhas nevadas que dominam o horizonte. O imponente Illimani, com 6.430m, possui um formato único e é onipresente na paisagem da cidade, um espetáculo de beleza magnífica. Outras montanhas notáveis incluem o Nevado Huayna Potosí, um dos picos acima de 6.000m mais escalados da Cordilheira, e o Chacaltaya, com 5.400m. No passado, Chacaltaya abrigava a pista de esqui mais alta do mundo, mas o degelo causado pelas mudanças climáticas a transformou em um centro importante para a aclimatação de montanhistas.
O Caos Vibrante de La Paz
Muitas pessoas têm preconceito com a Bolívia, que, sim, é um país com dificuldades financeiras e, às vezes, apresenta desleixo na conservação de suas belezas. La Paz pode ser caótica e, em muitos locais, suja, mas isso não a torna menos interessante. Pelo contrário, é fascinante perambular por suas ruas estreitas, ver edifícios coloniais antigos e, de repente, emergir em um centro com construções modernas.
Essa diversidade é a essência de La Paz, onde a modernidade coexiste com o tradicional, como as "cholitas" — mulheres indígenas que vestem suas roupas típicas por cultura, e não para turistas. A natureza caótica da cidade abriga o centro antigo, a Rua das Bruxas (com artesanato), a Zona Sul (mais moderna e rica), e a experiência imperdível de passear de teleférico.

Uma Cholita, mulher indígena. A maior parte da população da Bolívia é originária.
Bolívia Acessível e Evoluída
O teleférico também leva a El Alto, onde acontece uma das maiores feiras do mundo aos domingos, vendendo de tudo. Um grande atrativo da Bolívia é o custo: mesmo com a valorização recente do peso boliviano, o país continua muito barato.
Além disso, a Bolívia evoluiu nas últimas décadas. Em meio ao caos, é possível encontrar restaurantes muito bons, com gastronomia de primeira qualidade — já provei comida italiana e carne argentina no país que foram muito elogiadas por clientes e amigos. A hospitalidade é notável, especialmente para quem busca conhecer os melhores lugares.
Minhas experiências aqui variaram desde os "perrengues" da juventude, viajando sem dinheiro e dependendo de caronas, até os tratamentos de hoje, quando viajo com grupos, através de meu trabalho como guia na Soul Outdoor e me hospedo em melhores hotéis. Gosto muito da Bolívia, identifico-me com as pessoas e tenho muitos amigos bolivianos.
A partir de agora, dedicarei mais artigos a este belíssimo país, começando no próximo texto com foco na beleza caótica da cidade de La Paz.
