
O lendário alpinista Reinhold Messner, considerado por muitos o maior nome da história do montanhismo, carregou ao longo de décadas uma das mais dolorosas e controversas páginas do esporte: a morte de seu irmão mais novo, Günther Messner, durante a expedição alemã de 1970 ao Nanga Parbat, no Paquistão.

O Nanga Parbat, um dos 14 picos acima de 8.000 metros, é notório por sua dificuldade técnica e por uma longa lista de tragédias. Ali, em 1970, desenrolou-se um conflito emblemático entre duas eras do montanhismo. A expedição era liderada por Karl Maria Herrligkoffer, figura influente e partidário do tradicional estilo de conquista dos anos 1950: expedições pesadas, militarescas, com grande aparato logístico, longas sequências de cordas fixas e rígida hierarquia, o líder quase como um general.
Em contraste, o jovem Reinhold Messner representava a nova geração, defensora do nascente Estilo Alpino: ascensões rápidas, leves, em cordada reduzida e sem oxigênio suplementar. Messner integrou a equipe e conseguiu incluir seu irmão Günther, seu parceiro habitual. O choque entre as duas filosofias gerou atritos permanentes, ampliados pela presença da dupla rival Felix Kuen e Peter Scholz, fiéis seguidores do método tradicional e da disciplina imposta por Herrligkoffer.
A escalada e o início da tragédia
Em junho de 1970, com o tempo instável e frustrado pela lentidão do avanço na Face Rupal, a maior parede de montanha do mundo, com cerca de 4.500 metros de desnível, Reinhold comunicou ao líder sua intenção de tentar o cume rapidamente. Na madrugada de 27 de junho, apesar do sinalizador vermelho acionado na base indicando mau tempo, Messner iniciou a ascensão solo, em seu estilo veloz, deixando Günther e Gerhart Baur fixando cordas no Campo 5.
Movido pelo desejo de acompanhar o irmão e pela rivalidade com a dupla Kuen–Scholz, Günther tomou uma decisão arriscada: abandonou o trabalho no campo alto e subiu em sua direção, sem equipamento técnico adequado e já próximo da exaustão. Os irmãos se encontraram em altitude elevada e, apesar do estado debilitado de Günther, Reinhold decidiu seguir até o topo.
Os dois alcançaram o cume do Nanga Parbat no fim da tarde de 27 de junho de 1970. A conquista histórica, no entanto, transformou-se imediatamente em drama: foram obrigados a bivacar ao relento, enfrentando frio extremo, desidratação e congelamentos.
A controversa travessia para a Face Diamir
Na manhã seguinte, os irmãos avistaram Kuen e Scholz subindo em sua direção, mas nenhum auxílio foi oferecido. Diante da impossibilidade de retornar pela íngreme Face Rupal e do estado físico crítico de Günther, Reinhold afirmou que ambos concordaram em descer pela Face Diamir, uma travessia até então inédita.
Entre os dias 28 e 29 de junho, a dupla realizou mais um bivac forçado. Exausto, debilitado e sofrendo os efeitos de altitude e desidratação extrema, Günther ficava cada vez mais para trás. Segundo Reinhold, na manhã de 29 de junho ele avançou alguns metros à frente e, ao parar para esperar, Günther já não apareceu. O alpinista relatou ter presumido que o irmão fora atingido por uma avalanche. Incapaz de subir novamente para buscar ajuda, lutou para sobreviver e desceu sozinho até ser encontrado por pastores no Vale do Diamir.
Enquanto isso, Kuen e Scholz chegaram ao cume e a expedição alemã declarou-se vitoriosa pela rota principal. A narrativa oficial passou então a acusar Reinhold de imprudência, ambição, desobediência e até de abandono deliberado do irmão, acusações que marcariam sua vida por décadas.
Décadas de acusações e a confirmação final
Ao longo dos anos seguintes, Reinhold Messner defendeu energicamente sua versão dos fatos: a de que Günther escolhera, com ele, a descida pela Diamir e fora morto por uma avalanche durante a travessia. A controvérsia, porém, foi alimentada por rivalidades internas, disputas pessoais com Herrligkoffer e a ausência de provas físicas — até o início dos anos 2000.

Uma das botas de Günther Messner encontradas no Nanga Parbat
A partir de 2000, restos mortais começaram a emergir na Face Diamir, revelados pelo recuo da geleira. Em 2005, um pé dentro de uma bota de escalada foi identificado por DNA como pertencente a Günther Messner. Em 2022, um segundo pé, compatível com o mesmo local e contexto, foi encontrado.
A localização dos vestígios, em plena Face Diamir e em áreas de deposição glacial, confirmou de forma definitiva a versão de Reinhold: Günther realmente morreu no lado oeste da montanha, provavelmente arrastado por uma grande avalanche. A hipótese de abandono, propagada por décadas, perdeu sustentação.
O destino da expedição e o legado
Ironicamente, o destino dos alpinistas que chegaram ao cume após os irmãos Messner também foi trágico. Peter Scholz morreu em 1972, dois anos após a expedição, em um acidente de escalada na Aiguille Noire de Peuterey, no maciço do Mont Blanc. Felix Kuen faleceu em janeiro de 1974, ceifando sua própria vida. Suas mortes não tiveram relação com o Nanga Parbat, mas ilustram a natureza implacável do alpinismo da época, marcado por riscos permanentes e técnicas então em transição.
Décadas depois, a história finalmente fez justiça a Reinhold Messner. Os vestígios encontrados na Face Diamir encerraram uma das maiores polêmicas do montanhismo e confirmaram o alto preço humano pago pelos pioneiros na “Montanha Nú”, uma das mais temidas e fascinantes do planeta.

Messner por sua vez tem seu capítulo escrito na história do montanhismo. Ele foi o primeiro homem a escalar todas as montanhas acima de 8 mil metros do mundo, realizando todas as ascensões sem oxigênio. O próprio Nanga Parbat foi repetido por ele outra vez, em 1978, de forma totalmente solitária.
