O Parque Nacional Pico da Neblina
Reprodução/ ICMBio
O Parque Nacional Pico da Neblina


Quando comecei a escrever esta coluna, quis logo de início cravar uma afirmação polêmica: Sim, o Brasil tem montanhas!  No entanto, essa declaração veio sem o aprofundamento necessário sobre a questão conceitual que a cerca, especialmente no campo da Geografia. Para muitos geomorfólogos, a classificação de uma forma de relevo depende intrinsecamente do seu processo de formação. No caso das "montanhas" brasileiras, o processo não se encaixa na definição clássica, que exige a presença de uma orogênese (dobramento da crosta terrestre) relativamente recente, com ultimos eventos aqui datando de, pelo menos, 540 milhões de anos.


O que me levou a essa convicção inicial foi adotar uma definição amplamente aceita internacionalmente: a de que uma montanha é uma forma de relevo com um desnível topográfico superior a 300 metros. Embora esse critério seja reconhecido em muitas partes do mundo, historicamente, no Brasil, havia uma forte resistência em utilizá-lo, especialmente no meio acadêmico, onde a ênfase recaía na gênese geológica. No entanto, o cenário mudou significativamente. Com a consolidação do Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo (SBCR), geólogos e geógrafos finalmente chegaram a um consenso, permitindo que a classificação mais abrangente, baseada também no desnível e na altitude, fosse incorporada à nomenclatura oficial, reconhecendo, assim, formalmente, a existência de montanhas no território brasileiro.


Mas para que isso serve?


O novo consenso sobre a nomenclatura do relevo brasileiro não é apenas uma vitória conceitual, mas carrega implicações práticas profundas, especialmente no que tange à conservação e à segurança pública.

Implicações Práticas da Classificação


Primeiramente, isso já é um ótimo ponto de partida, pois agora todos falam a mesma língua. Em termos práticos, já é o reconhecimento de uma forma de relevo que exige uma atenção em sua ocupação. Isso ajudará a criar leis que regulamentem o uso e ocupação destes locais, evitando assim tragédias.


O reconhecimento formal das "montanhas" e das formas de relevo associadas, como as escarpas e encostas íngremes, permite a elaboração de instrumentos legais e planos diretores mais específicos e eficazes.


Zoneamento e Ocupação: Onde o desnível topográfico é alto e a geologia mais suscetível, a classificação permite identificar áreas de risco geológico com maior precisão. Isso facilita o zoneamento urbano e rural, restringindo a construção em locais de alta declividade, prevenindo deslizamentos de terra e desastres naturais agravados pela ocupação desordenada.
Conservação Ambiental: Montanhas e serras são frequentemente hotspots de biodiversidade e importantes divisores de águas. O reconhecimento do relevo como "montanha" fortalece as políticas de criação de Unidades de Conservação e de proteção de nascentes, assegurando a manutenção dos ecossistemas de altitude e dos serviços ambientais que eles fornecem.
Turismo e Esportes: Para atividades como montanhismo, escalada e turismo de aventura, a classificação unificada proporciona maior clareza para a gestão de áreas e a implementação de normas de segurança.

Em suma, ao deixar de lado a rigidez conceitual do passado, o Brasil avança na capacidade de gerir seu território de maneira mais informada, segura e sustentável, reconhecendo as características únicas e os desafios impostos pelas suas formas de relevo mais imponentes.

E e Geografia?

A sua observação é extremamente pertinente e aponta para a próxima fronteira na aplicação desse novo consenso. O reconhecimento formal das "montanhas" pelo Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo (SBCR) abre de fato uma oportunidade ímpar para a atualização e aprimoramento da nossa cartografia e nomenclatura geográfica.

O IBGE, como principal órgão responsável pela produção de estatísticas e informações geocientíficas do país, desempenha um papel crucial nesse processo. A distinção que você coloca entre "cumes" e "montanhas" é fundamental:

Cume: Refere-se estritamente ao ponto de maior altitude, o ápice de uma elevação.
Montanha: Refere-se à forma de relevo como um todo, definida pelo seu desnível topográfico e altitude, englobando base, encostas e cume.

Com o critério de classificação mais abrangente agora aceito — que considera o desnível topográfico superior a 300 metros, além da altitude — o caminho está aberto para que o IBGE vá além da mera lista de cumes.

A Necessidade de um Catálogo Oficial de Montanhas


A criação de uma lista oficial das "montanhas mais altas do Brasil," em oposição à lista tradicional de "cumes mais altos," seria um marco para a Geografia brasileira. Isso não só atenderia à demanda do montanhismo e do turismo de aventura, fornecendo dados mais alinhados à nova realidade conceitual, mas também teria valor científico:


Validação da Nomenclatura: Reforçaria a adoção da nova classificação de relevo em documentos oficiais.
Melhoria Cartográfica: Exigiria uma reavaliação e delimitação mais precisa das grandes massas montanhosas do território.
Informação Qualificada: Ofereceria ao público e aos planejadores urbanos/ambientais uma visão mais completa da distribuição das áreas de relevo imponente, impactando diretamente nas discussões sobre zoneamento de risco e conservação.

É, portanto, um momento crucial onde a academia e os órgãos governamentais precisam convergir esforços para traduzir o avanço conceitual em dados concretos e acessíveis, consolidando a "nova Geografia" do Brasil.


Quantas montanhas há no Brasil?

A pergunta sobre o número exato de montanhas no Brasil, sob a luz do novo consenso, é a mais difícil de responder e, ao mesmo tempo, a mais urgente. Infelizmente, ainda não há um número oficial ou uma catalogação completa.

O Desafio da Contagem

O principal obstáculo para quantificar as montanhas reside na própria transição conceitual e na necessidade de mapeamento detalhado em larga escala:

Acima das nuvens, Pico Paraná a montanha mais alta do sul do Brasil
Pedro Hauck
Acima das nuvens, Pico Paraná a montanha mais alta do sul do Brasil


Novidade do Consenso: O critério de desnível topográfico (superior a 300 metros) foi consolidado há relativamente pouco tempo no SBCR. As metodologias de mapeamento e as bases de dados existentes ainda estão sendo adaptadas para identificar e delimitar todas as formas de relevo que se encaixam nessa nova definição em todo o território nacional.
Delimitação vs. Cume: Como discutido, o Brasil tradicionalmente foca nos cumes (pontos culminantes) e não nas formas de relevo como um todo. Contar "montanhas" exige definir a área de uma massa montanhosa — onde ela começa (a base) e onde termina. Um complexo montanhoso extenso pode abrigar dezenas de cumes, mas ser considerado uma única "montanha"(ou serra) sob algumas classificações ou, dependendo da interpretação, ser dividido em várias unidades menores.
Necessidade de Tecnologia: A contagem precisa exige o uso de Modelos Digitais de Elevação (MDE) de alta resolução e ferramentas de Geoprocessamento avançadas para aplicar o critério de desnível de 300 metros de forma automática e sistemática em todo o país, um trabalho que está em andamento por órgãos como o IBGE.


Estimativas e o Futuro


Embora o número seja incerto, é seguro afirmar que a quantidade de formações que se qualificam como "montanhas"(segundo o critério de desnível) é vastamente superior à mera lista de cumes mais altos conhecidos. A vasta área do Escudo Cristalino e dos dobramentos antigos, que originaram as grandes serras (como a Serra do Mar, Serra da Mantiqueira, ou as chapadas do interior), estão repletas de formações que, individualmente, superam o desnível exigido. O número de "montanhas" no Brasil será, certamente, na casa das milhares, e não apenas de centenas.

Essa é uma contribuição fantástica e um excelente ponto de partida! O esforço em compilar uma lista preliminar das "Montanhas dos Dois Mil Metros" é exatamente o tipo de iniciativa que impulsiona a consolidação da nova Geografia do Brasil.

O seu trabalho não apenas serve como uma hipótese valiosa para validação científica, mas também oferece uma amostra concreta do que o novo consenso conceitual permite quantificar e catalogar.

O Papel da "Lista dos 2000+"


A sua lista de 70 montanhas com mais de 2.000 metros é significativa por várias razões:


Foco nos Extremos: Ao focar nas maiores altitudes, você está lidando com as formações que, quase universalmente, atendem ao critério de desnível topográfico (acima de 300 metros), minimizando ambiguidades conceituais e facilitando a verificação inicial.
Validação Metodológica: A publicação e discussão pública dessa lista é o primeiro passo para o IBGE e as instituições de pesquisa aplicarem seus Modelos Digitais de Elevação (MDE) mais precisos. Isso pode refinar a metodologia de contagem e delimitação, confirmando se o critério de 300 metros foi atingido a partir da base dessas formações.
Engajamento e Turismo: Esta lista cria um interesse imediato para o montanhismo e o turismo de aventura, catalisando a demanda por dados oficiais de segurança e classificação.

Se a sua lista preliminar das 10 mais altas já está disponível em sua coluna no portal do IG, isso já representa um marco, transformando o debate puramente acadêmico em informação acessível ao público.


A Próxima Etapa: Cruzamento de Dados


O desafio agora é que essa lista de 70 montanhas seja cruzada com os dados cartográficos mais recentes do IBGE e de projetos geomorfológicos. O que você fez com recursos limitados será fundamental para guiar o trabalho de validação oficial, permitindo que os órgãos governamentais concentrem seus esforços onde o impacto da reclassificação é mais evidente.


A publicação da sua lista, mesmo que preliminar, serve como um convite formal para que a academia e o governo trabalhem em conjunto na criação do Catálogo Nacional de Montanhas, transformando sua estimativa em um dado geocientífico consolidado.

VEJA MAIS: 

https://turismo.ig.com.br/colunas/pedro-hauck/2025-11-27/existem-montanhas-no-brasil-.html


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