Trekking ao acampamento base do Everest
Pedro Hauck
Trekking ao acampamento base do Everest

Uma notícia sobre fraudes de seguradoras por agências e guias nepaleses no Monte Everest, envolvendo resgates e evacuações por helicóptero, teve grande repercussão na mídia brasileira recentemente. O caso mais chocante noticiado indicava que clientes eram supostamente "envenenados" para forçar resgates, gerando lucro para os resgatistas. Muitos me procuraram pedindo uma opinião sobre o assunto, dada a alta visibilidade da notícia.

Esta notícia, longe de ser novidade, é mais um reaquecimento de um tema antigo: a fraude nos resgates na região do Everest. É crucial salientar que esta fraude não ocorria na montanha em si, mas sim no famoso e acessível trekking que leva ao seu Acampamento Base.

Trekking ao Acampamento Base do Everest é um destino de aventura de baixa dificuldade, com ótima infraestrutura, conhecido por sua beleza e acessibilidade, ideal para qualquer pessoa que não seja sedentária. A fraude, que já resultou em multas e condenações de guias e agências, começou justamente para tirar proveito da inexperiência ou falta de preparo de alguns trekkers que se metiam em apuros nesse trajeto, numa receita muito comum: Pessoas sem o devido preparo físico não suportam as caminhadas, chegando a um ponto em que não conseguem mais avançar nem recuar. No entanto, "exaustão" não é considerada um acidente, e as seguradoras não cobrem esse tipo de evacuação. Por isso, os guias subornavam os médicos, que emitiam laudos falsos de  Mal Agudo de Montanha para seus "pacientes", garantindo assim que o helicóptero os levasse até Kathmandu.

Há cerca de 10 anos, esse cenário elevou o preço do seguro resgate, que saltou de aproximadamente 150 dólares para cerca de 500, gerando a indignação de várias agências sérias. O seguro de evacuação aérea era algo que pagávamos para nunca usar, apenas em casos de emergência real. Sua finalidade era cobrir acidentes graves, como a evacuação de alguém com uma perna quebrada ou que estivesse sofrendo com o mal da altitude.

No entanto, o aumento de preço pelas seguradoras motivou muitos guias a utilizarem os serviços de helicóptero com mais frequência, transformando-o em um "clube da evacuação aérea": pague antecipadamente e seja resgatado de helicóptero quando o cliente estiver apenas cansado.

Começaram a abusar cada vez mais do sistema, e a taxa se tornou, na prática, um "seguro contra o cansaço". Não importa mais se o cliente está fora de forma: se ele não aguenta mais, aciona-se o helicóptero! Por apenas 500 USD, ele é levado de volta a Kathmandu. É importante notar que um voo como esse custa, na verdade, pelo menos 10 vezes mais!

O esquema foi desmantelado há cerca de dois anos, revelando fraudes que iam além do esperado. Descobriu-se que algumas agências estavam utilizando os helicópteros de forma indevida, forjando evacuações para transportar cargas pessoais, como pertences de familiares dos guias e equipamentos das próprias agências.

Inicialmente, aproveitavam-se de evacuações legítimas de clientes para incluir o transporte de carga. Contudo, mais tarde, passaram a simular resgates em vilas específicas — sem que nenhum turista fosse de fato evacuado — com o único propósito de levar carga de um ponto X a um ponto Y. Agências foram processadas, guias condenados por fraude. No total, descobriram que o esquema custou às seguradoras cerca de 20 milhões de dólares e os helicópteros viraram o “táxi do khumbu”.

Acredito que, com o tempo, os abusos diminuíram. Ainda ocorrem "caronas" em evacuações e clientes com problemas simples conseguem retornar a Kathmandu de avião, enquanto outros, com problemas de saúde não mais graves (como um cliente meu com tendinite que teve o voo negado pelo médico), não têm a mesma sorte. Contudo, as dificuldades de avaliação persistem, e os seguros nunca mais voltaram aos níveis anteriores, tornando a solução tão onerosa quanto o problema. É lamentável.

A nova onda de notícias trouxe uma acusação chocante e, para mim, inacreditável: a de que guias estariam intencionalmente intoxicando clientes para simular um mal-estar e solicitar resgate aéreo.

Não encontrei em nenhuma das diversas fontes consultadas qualquer relato ou nome que sustente essa afirmação, o que me leva a crer que se trata de um erro de avaliação. É muito comum que os sintomas do Mal Agudo de Montanha (MAM) se assemelhem aos de uma intoxicação alimentar, como vômitos e diarreia. Acredito que muitos que experimentaram esses sintomas podem ter feito essa acusação de forma equivocada ou maliciosa.

Duvido que isso seja intencional. Além disso, mesmo que o mal-estar seja causado pela alimentação, problemas intestinais são frequentes no Nepal. Sua culinária é essencialmente indiana, rica em pimentas e curry, o que pode facilmente desencadear reações em muitos ocidentais.

Portanto, o escândalo dos resgates no Everest é multifacetado: começou com o aproveitamento de uma necessidade legítima (a evacuação de trekkers despreparados), escalou para o abuso sistêmico (o "táxi aéreo" para cansados) e culminou em fraudes organizadas de transporte de carga. A acusação de "envenenamento" parece ser um alarmismo, provavelmente uma confusão com os sintomas comuns do Mal Agudo de Montanha e problemas intestinais típicos da região. O que permanece é a lição de que a falta de preparo, a ganância e a falha de supervisão transformaram um serviço essencial de segurança em um lucrativo esquema de fraude, elevando os custos e a desconfiança em uma das rotas de aventura mais populares do mundo.


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