Recentemente, uma publicação de um popular perfil de curiosidades nas redes sociais afirmou que o que hoje conhecemos como o pico mais alto do mundo, o Monte Everest, já foi o fundo de um mar. Muitos seguidores duvidaram da veracidade da informação, visto que o perfil é conhecido por frequentemente divulgar polêmicas e "clickbaits". Contudo, neste caso específico, a alegação é geologicamente correta. As rochas que compõem o cume do Everest, na verdade, não faz tanto tempo assim (em termos geológicos) que estavam abaixo do nível do mar.
Esse fenômeno remonta a aproximadamente 60 milhões de anos, quando o território que hoje corresponde à Índia se desprendeu do paleocontinente Gondwana e iniciou um movimento em direção ao norte. Essa jornada culminou em uma colossal colisão com a placa da Eurásia, um evento tectônico que desencadeou a formação da cordilheira do Himalaia. Entre esses dois grandes massas de terra, existia um vasto corpo de água, o paleo-oceano de Tethys, que foi gradualmente subduzido e extinto por esse mesmo processo de tectonismo.
Quando observamos o Everest, especialmente em sua parte superior, é possível notar uma faixa amarelada. Esta rocha é, de fato, calcário, que se formou pelo soterramento e litificação de antigos recifes de corais, conchas e sedimentos que estavam no fundo do extinto oceano de Tethys. Como uma evidência clara dessa origem marinha, no lado chinês da montanha, não é incomum encontrar fósseis de animais marinhos pré-históricos, como amonites, em altitudes elevadíssimas.
Desde muito antes de sequer sonhar em estar lá, a famosa faixa amarelada do Everest exerceu sobre mim uma fascinação particular, uma prova visível da história geológica colossal da montanha. Em 2025, quando finalmente tive a chance de escalar o pico mais alto do mundo, minha ansiedade para chegar a essa camada era imensa. Contudo, ao atingir o famoso Esporão de Genebra – um dos locais mais proeminentes onde essas rochas calcárias marinhas afloram –, a realidade da escalada em altitude extrema se impôs. Eu estava exausto demais para parar e analisar as rochas com a atenção que mereciam. Além disso, por uma questão crucial de segurança e de tempo, era impossível parar para "caçar conchinhas", algo que adoro fazer em qualquer outro local fossilífero. A montanha não permite distrações; apenas seguir em frente.
O Milonito e a Metamorfose do Himalaia
Do lado nepalês, na maior parte do famoso trekking até o Acampamento Base do Everest (EBC), que tenho o prazer de guiar todos os anos, encontramos uma rocha diferente que conta outra parte da história colossal do choque tectônico: o Milonito.
O Milonito é uma rocha metamórfica. Mas, o que é uma rocha metamórfica?
Simplificadamente, rochas metamórficas (do grego meta = mudança, morph = forma) são aquelas que se formam quando rochas pré-existentes – sejam elas ígneas, sedimentares ou até mesmo outras metamórficas – são submetidas a intensas mudanças de temperatura e/ou pressão, geralmente no interior da crosta terrestre. Esse processo altera a composição mineralógica e a textura da rocha original sem que ela chegue a derreter completamente, reajustando-a às novas condições extremas.
No caso do Milonito, ele é um tipo de rocha metamórfica de altíssima deformação, ou seja, é uma rocha que foi esmagada e esticada intensamente. O nome deriva do termo grego mylos, que significa moinho. O milonito é característico de grandes zonas de cisalhamento ou falhas, como é o caso da principal zona de choque entre as placas Indiana e Eurasiática. A intensa fricção e o movimento das placas moeram e estiraram os minerais originais, resultando em uma rocha de grãos extremamente finos e com uma estrutura folheada ou bandada muito marcada, quase como se fosse uma massa de argila esticada.
No caminho para o EBC, os milonitos que encontramos são um testemunho vívido e tátil das forças inimagináveis que ergueram a maior cadeia de montanhas do mundo, representando o "osso quebrado" do planeta onde a Índia colidiu com a Ásia..
Porém, mais do que poder notar as consequências deste enorme choque de placas, podemos ver as consequências das rochas nas pessoas. A região do Everest é famosa pela tosse do khumbu, um fenômeno comum na altitude, mas que no Nepal é muito pior. Na altitude, o frio e os problemas de altitude podem resultar em tosses fortes (explicar o motivo)
As Consequências do Choque Geológico nas Pessoas: A Tosse de Khumbu
Mais do que poder notar as consequências deste enorme choque de placas nas rochas, podemos ver seus efeitos nas pessoas. A região do Everest é famosa pela Tosse de Khumbu, um fenômeno comum em grandes altitudes, mas que, no Nepal, parece ser agravado por um fator inusitado.
Em altitude, o ar é não apenas rarefeito, mas também extremamente frio e seco. A Tosse de Khumbu é uma tosse seca e persistente, às vezes violenta, que acomete quase todos os escaladores e trekkers à medida que sobem.
A tosse forte em altitude é causada principalmente pela reação do sistema respiratório a condições extremas. O ar frio e seco, somado à necessidade de respirar mais rápido e profundamente para compensar o baixo teor de oxigênio (hipóxia), faz com que um volume maior de ar chegue às vias aéreas. O trato respiratório superior se esforça excessivamente para umidificar e aquecer esse ar, o que resseca e irrita seu revestimento, levando à inflamação e ao reflexo da tosse. Além disso, a exposição prolongada ao frio e o esforço físico extremo podem suprimir o sistema imunológico, tornando o escalador mais suscetível a infecções respiratórias leves que, combinadas com a irritação das vias aéreas, resultam em tosses persistentes. Em situações mais graves, a tosse pode ser um sintoma do Edema Pulmonar de Altitude (HAPE), uma condição grave caracterizada pelo acúmulo de líquido nos pulmões.
O Agravante do Milonito
Apesar das causas acima serem universais em alta altitude, a gravidade e prevalência da Tosse de Khumbu na região do Khumbu (Nepal) sugerem um fator local: o pó das rochas.
O Milonito, a rocha de altíssima deformação que mencionei anteriormente, é extremamente fina e quebradiça. A intensa erosão do vento, do gelo e da atividade humana (milhares de passos anuais de trekkers e sherpas) libera um pó fino dessas rochas na atmosfera. O caminho para o Acampamento Base é percorrido sobre esse material "moído".
Ao inalar esse pó de Milonito, as vias aéreas já irritadas pela altitude são expostas a partículas minúsculas e potencialmente abrasivas que aprofundam a irritação, a inflamação e a secura, exacerbando dramaticamente a tosse, tornando-a uma das maiores dificuldades não relacionadas ao mal de altitude que os visitantes enfrentam na subida ao Everest.
Percebi isso em minha primeira ida a região do Everest e fiquei surpreso por nunca ninguém comentar sobre a origem geológica de uma doença que ataca o homem.
A história geológica do Everest é, portanto, muito mais do que apenas a altitude; é um registro tátil e visível de uma colisão planetária que não só ergueu montanhas, mas cujas consequências – das conchas marinhas fossilizadas no cume ao pó fino que afeta a saúde dos que transitam por suas encostas – continuam a moldar a experiência humana. O Everest não é apenas um pico; é um colossal museu a céu aberto onde a geologia e a biologia se encontram em cada passo, revelando que os eventos de milhões de anos atrás ainda ressoam dramaticamente no presente.