
Henry Barclay Todd, falecido em 2025 aos 80 anos em Kathmandu, Nepal, foi uma figura de notável dupla face, transitando do submundo do tráfico de drogas para o pico do montanhismo comercial. Sua vida foi marcada por uma busca incessante por lucro que gerou controvérsias e tragédias no Monte Everest.
Traficante de drogas e presidiário

Todd escalando nos Alpes quando jovem
A primeira fase de sua vida de Henry Todd foi dedicada à criminalidade. Ele emergiu como um líder proeminente de uma das maiores redes de fabricação e distribuição de LSD do mundo, responsável por fornecer cerca de 90% do LSD no Reino Unido. Essa operação foi desmantelada em 1977 pela histórica "Operation Julie," levando à sua prisão. Todd foi condenado a 13 anos de prisão, dos quais cumpriu sete.
A libertação de Henry Todd em 1985 deu início à sua segunda vida. Nela, ele viu no montanhismo uma nova fronteira para lucros. Embora já praticasse o esporte no Reino Unido antes de ser preso, ao ser solto, ele passou a valorizar cada vez mais a liberdade proporcionada pelas montanhas.
Recomeçando do zero de forma “honesta”
Percebendo a ausência de empresas que oferecessem serviços de montanhismo, Todd encontrou uma "mina de ouro" inexplorada e uma forma de ganhar dinheiro de maneira que ele classificaria como "honesta". Uso aspas, pois Todd nunca deixou de ser quem realmente era.
Henry fundou a Himalayan Guides, posicionando-se como um dos pioneiros das expedições comerciais e capitalizando a crescente demanda por ascensões a picos de 8.000 metros. Essa empresa foi fundamental em um dos momentos mais importantes do montanhismo brasileiro: em 1995, os brasileiros Waldemar Niclevicz e Mozart Catão se tornaram os primeiros do país a atingir o cume do Everest, fazendo parte da expedição comercial liderada por Todd na Rota Norte (Tibete), uma opção mais acessível na época. Perguntei a Waldemar como foi sua experiência com um homem tão polêmico e ele não conhecia seu lado obscuro, me dizendo que Todd foi durante todo o tempo na expedição muito cordial e profissional, mas sabemos que essa era apenas uma face dele.
Um mafioso do Everest
A partir de 2000 é que as operações de Todd começaram a ficar sombrias. Entre 2000 e 2002, ele foi banido do Nepal, em parte devido a acusações de agredir um repórter no Acampamento Base, além de controvérsias gerais sobre suas operações. No entanto, o banimento do Nepal não o impediu, pois o Everest está na fronteira com o Tibete (China), onde a jurisdição nepalesa não se aplicava. Operando principalmente pela Rota Norte, Todd estabeleceu um monopólio logístico que lhe rendeu o apelido de "Todd Father", um trocadilho com “Godfather”, que é como se chama o filme “O Poderoso Chefão” em inglês.
O Pedágio das cordas fixas no Everest
Todd sempre soube aproveitar as lacunas para se destacar e lucrar. Ao notar a falta de profissionalismo na fixação das cordas no Everest, que até os anos 90 era feita de forma amadora por montanhistas e empresas, com contribuições esporádicas, ele profissionalizou o processo. Tornou-se o organizador de facto da instalação das cordas fixas na Rota Norte, instituindo o que críticos chamavam de monopólio. Embora ele defendesse a cobrança como uma contribuição para cobrir custos operacionais, o valor era visto por muitos como um "pedágio".
Henry Todd frequentemente se envolveu em disputas com montanhistas e agências devido aos altos custos que ele impunha pelo uso de suas cordas fixas e escadas. Embora fosse inegável o grande investimento em materiais e mão de obra, seu propósito era claramente o lucro, estabelecendo valores tão elevados quanto o próprio Everest, que Todd coletava de forma tensa, através de ameaças verbais e pressão.
Agressão a jornalista
Todos sabiam do lado agressivo de Henry Todd, mas ele sempre soube ameaçar e coagir seus críticos e oponentes de maneira sutil e sem deixar provas que o incriminasse. Entretanto, certa vez ele não seguiu seu protocolo e acabou mostrando ao mundo seu lado criminoso quando agrediu o jornalista Finn-Olaf Jones que fazia uma matéria pejorativa sobre o Everest em 2000.
Finn-Olaf Jones estava na montanha como escalador independente e repórter para o Discovery Channel, cobrindo, de forma satírica, a "febre do cume"(o desejo obsessivo de chegar ao topo). Ele usava uma câmera de vídeo e fazia perguntas irônicas a outros alpinistas, o que incomodou Henry Todd. A briga ocorreu no Acampamento Base do Everest (lado do Nepal) e foi relatada pelo próprio Jones em publicações como a revista Outside e no site The Herald. Jones afirma que Todd o atacou sem qualquer aviso. Ele descreveu o incidente no seu acampamento:
"Eu estava desfrutando de uma xícara de chá na frente de nossa barraca de refeitório quando o punho dele acertou minha bochecha direita. Antes que eu soubesse o que estava acontecendo, eu estava de costas com este homem grande sentado em cima de mim, me espancando no rosto."
Henry Todd, por sua vez, negou a agressão. Ele disse à Outside que a confusão "não passou de um empurrão". Segundo Todd, Jones “tropeçou” e caiu contra uma parede. Um médico e amigo de Todd disse ter testemunhado o incidente e prestado os primeiros socorros a Jones.
Independentemente da versão, o incidente foi amplamente reportado. As autoridades nepalesas tomaram depoimentos de testemunhas (incluindo Sherpas) e, como resultado, Henry Todd foi banido do Nepal por um período de dois anos, acusado de violar o ato de turismo de 1976.
Fraude no fornecimento de Oxigênio
A controvérsia mais séria de Henry Todd, no entanto, estava ligada ao fornecimento de oxigênio. Todd soube, através de Anatoli Boukreev, da existência da Poisky, uma empresa russa que fornecia oxigênio engarrafado para pilotos de caça supersônico. Os cilindros de oxigênio super leves eram ideais para uso em grandes montanhas. Ele fechou um acordo comercial com a empresa, tornando-se no único fornecedor do Himalaia.
Contudo, para cortar custos e aumentar seus lucros, Todd encontrou um local na Índia onde os cilindros eram preenchidos com ar comprimido, que contém vapor de água em vez de oxigênio concentrado. O resultado foi desastroso: o vapor de água congelava dentro dos cilindros, fazendo com que montanhistas começassem a sufocar nas grandes altitudes acima de 8.000 metros, sem o ar vital.
Por volta de 2004, Fabiola Antesama, repórter e filha de Nils Antesama, começou uma cruzada para desmascarar charlatões do montanhismo. Sua motivação vinha da morte do pai, causada pela negligência do falso guia e sociopata Gustavo Lisi (história contada aqui). Em suas investigações, ela entrou em contato com a Poisky na Rússia e descobriu que Henry Todd não comprava um único cilindro de oxigênio há anos. Isso revelou um esquema sistemático de reciclagem das garrafas que ele vendia, colocando em risco inúmeros montanhistas que falhavam em alcançar o cume do Everest devido à falta de oxigênio real.
Fabíola descobriu que a fraude do oxigênio chegou a uma consequência extrema. Em 1999 um jovem montanhista, Michael Matthews, morreu no Everest usando a garrafa de oxigênio fornecida por Todd e com as informações da filha de Nils Antesama, em 2006 o pai de Michael decidiu processar Henry Todd. Embora o juiz na Inglaterra tenha reconhecido que alpinistas tiveram "sérios problemas" com o oxigênio de Todd e que o equipamento era, em parte, de segunda mão, as acusações criminais contra ele foram indeferidas, pois não havia provas conclusivas de que a falha do oxigênio causou a morte de Matthews. Todd, sortudo, foi absolvido, mas o episódio manchou sua reputação permanentemente.
Odiado por uns, mas amado por outros: A relação de Todd com os Sherpas.
Apesar das alegações de comportamento errático ou agressivo contra ocidentais, a forma como ele administrava suas equipes Sherpa era vista por alguns clientes como profissional e altamente eficaz. Clientes de Todd, em entrevistas, frequentemente elogiavam a qualidade e a competência de sua equipe Sherpa. Em uma entrevista, um de seus membros de expedição mencionou que a equipe Sherpa de Todd era "de primeira linha" e que o guia "cuidava mais de seus escaladores e Sherpas do que a maioria".Sua experiência e seu foco em logística (embora controversa) significava que suas expedições estavam, na maioria das vezes, preparadas para a ação no Acampamento Base.
Em suma, embora fosse uma figura altamente controversa para a comunidade ocidental de montanhistas, que o via como um monopolista e um agressor (especialmente devido ao incidente com Finn-Olaf Jones e as acusações de oxigênio), para a comunidade Sherpa, Henry Todd era, para muitos, um empregador leal e um facilitador de carreira, cujo apoio financeiro e logístico era valioso na perigosa economia do Everest.
Fim de vida e morte em 2025

Henry Todd com um sherpa
Henry Todd manteve-se ativamente engajado com o Everest e outras montanhas imponentes de 8.000 metros até o final de sua vida, principalmente através de sua empresa, a Himalayan Guides. Mesmo com a polêmica de Michael Matthews, ele se estabeleceu como um fornecedor de oxigênio engarrafado no Nepal. Além disso, Todd atuou como um mentor e facilitador, viabilizando expedições de baixo custo para montanhistas experientes que buscavam conquistar esses picos. Essa abordagem democratizou, em certa medida, o acesso às grandes montanhas, embora mantendo um foco em clientes já habilitados.
Seu envolvimento se estendia muito além do aspecto comercial. Todd foi uma fonte significativa de sustento para inúmeras famílias Sherpas na vila de Pangboche, uma comunidade essencial no ecossistema de escalada do Everest. Esse profundo envolvimento com a comunidade local demonstrava uma conexão pessoal e um reconhecimento da importância do povo Sherpa para as expedições.
A vida pessoal de Todd também se entrelaçou com o ambiente da alta montanha. Em 2004, ele se casou em uma união que teve suas origens em uma expedição ao Cho Oyu, a sexta montanha mais alta do mundo, refletindo como a paixão pela escalada moldava sua existência.
Henry Todd nutria um afeto especial por Kathmandu, a capital do Nepal, a qual ele considerava seu "lugar favorito na Terra." Foi nesta cidade que ele faleceu, em 3 de novembro de 2025, aos 80 anos de idade. A causa de sua morte foi um acidente vascular cerebral (AVC), ocorrido após ele ter sido submetido a uma cirurgia cardíaca. Em um último ato que reflete sua profunda ligação com o Nepal, seu corpo foi cremado no sagrado templo de Pashupatinath, um dos locais hindus mais importantes do mundo.
O legado de Henry Todd é multifacetado e complexo. Ele é frequentemente visto como um "poderoso chefão do Everest," e sua trajetória é um estudo de caso fascinante sobre os temas de ambição, poder e influência nas regiões muitas vezes sem lei e com pouco controle regulatório da Zona da Morte do Everest. Sua história permanece como um testemunho da complexa e, por vezes, controversa intersecção entre o comércio, a aventura e a ética no alpinismo de alta altitude.
